quinta-feira, janeiro 19, 2017

Quinta, 19.
Quarta-feira, na região de Abruzzo, em Itália, um tremor de terra junto com avalanches de neve, causou pelo menos dez mortos e um número indeterminável de vítimas. Um hotel ficou sepultado sob toneladas de neve.

         - Ricardo Salgado foi constituído arguido no processo Operação Marquês e o juiz Carlos Alexandre proibiu-o de contactar José Sócrates que parece estar no centro do vulcão. O ex-banqueiro, se fosse outro, há muito que estava fora destas complicações. Bastava-lhe começar a falar docemente para meio mundo político se enterrar pelo chão abaixo e os suicídios serem em catadupa. A história pós-25 de Abril passa toda por ele.

         - Interrogo a Bíblia e a Bíblia me interroga. Esta frase é do Diário de Claudel e vem citada num dos Diários de Julien Green. Eu assino por baixo. Nas tardes tranquilas e saborosas que passo ao sol depois do almoço a ler, terminei há pouco o primeiro volume traduzido do grego por Frederico Lourenço dos quatro Evangelhos sinópticos. Assim A Bíblia não só me interroga como me desassossega e atormenta. O majestoso trabalho de Frederico Lourenço, não perde de modo nenhum a beleza encantatória que eu havia encontrado quando a fui lendo no fio do tempo, como desfaz muitas dúvidas que o texto em versão latina me suscitou. Redigo outra vez que se trata de Bíblia e não de A Bíblia. Esta subtileza é muito importante para se perceber o fabuloso trabalho do estudioso dos clássicos gregos.


         - Esta manhã não tive direito ao duche, ao café da manhã, ao gás de botija. Todos estes elementos do quotidiano a que estamos habituados gelaram, recusaram-se a trabalhar, “deslicaram” devido às temperaturas negativas de quatro graus que por aqui fez. Os vidros das janelas pareciam martelados como se fossem vitrais, no chão do campo estendia-se um tapete álgido, o som surdo da terra ondulava no espaço, a vida tinha paralisado, Black choramingava como se pedisse uma carícia à porta da cozinha. Quando o sol se levantou, mal e parcamente tudo renasceu.

quarta-feira, janeiro 18, 2017


Quarta, 18.  
Fui fazer uma hora de natação. Água fria, chuveiro idem. Os velhotes protestavam debaixo do duche: “Dizem para não sairmos de casa e nós vimo-nos meter neste frigorífico.” Um outro grupo, revoltava-se  contra o Sporting que Jesus antes ufano hoje de queixo pendurado, dirige. Alguns falavam mal do presidente e afirmavam: “Também já se sabia como o gajo é, basta ver a mãe dele.” Eu que não percebo patavina deste ronrom, dizia para mim que queria escapar da gripe que por aí anda e pensava em Ernst Junger (sem trema porque o computador não tem) que toda a vida tomou banhos frios e viveu até aos 104 anos.

         - Todas as manhãs ao acordar olho o campo sonolento coberto do edredão branco de gelo. É simplesmente sublime! Parece que o silêncio tomou também a temperatura alva e se faz mais aninhado nos confins dos subterrâneos terrestres onde só a bichara corre contra a morte. Há um espelho na natureza que reflecte o contraste entre o verde das árvores e broto terno da madrugada. Olhá-lo acrescenta-me anos de vida.  

         - Hoje passei um certo tempo às voltas com as Tusculanae Disputationes. Queria escrever uma carta ao ilustre tradutor e distinto latinista José António Segurado e Campos e, a dada altura, deparo-me com este sublinhado do filósofo de quem penso ter lido quase tudo, Pierre Hadot. O filósofo (moderno) experimenta cruelmente o seu isolamento e a sua impotência num mundo dilacerado entre duas inconsciências: a provocada pela idolatria do dinheiro e do sofrimento de biliões de seres humanos. Em tais condições o filósofo, decididamente, nunca poderá atingir a serenidade absoluta do sábio. Filosofar será, portanto, sofrer também deste isolamento e desta impotência. Esta citação, levar-me-ia um pouco mais longe e talvez a esta interrogação: o isolamento de que fala Hadot advém das circunstâncias presentes ou do afastamento que a filosofia tem laboriosamente levado a cabo ao longo dos séculos, sabendo nós que a sua raiz grega era parte integrante da vivência humana, quero dizer do quotidiano das pessoas.  

terça-feira, janeiro 17, 2017

Terça, 17.
Não vou dizer (por enquanto) que aprovo tudo o que diz Ronald Trump. Contudo, há ideias com que estou de acordo. Por exemplo, uma outra forma de diálogo com a Rússia, a questão da OTAN, a União Europeia, as relações com Israel, certas atitudes face aos migrantes. Eu sei que o homem é sinistro, que diz coisas que não ligam com o status quo, mas se é para ficar tudo na mesma ou correr em lume brando como até aqui, então de nada serve a alternância governamental. Eu gostava que ele abanasse isto tudo. É disso que o mundo está necessitado. Já se percebeu que a chamada esquerda é mais conformista, mais acomodada, tão corrupta ou mais que a direita, governa com palmadas nas costas e sorriso complacente. Faz muito barulho, mas não resolve nenhum problema.

         - Estive à conversa com uma amiga que é casada com um médico de renome. Falei do actual Ministro da Saúde em modos reconhecidos e logo ela tendo em casa quem tem, me disse que contestava certas nomeações que Adalberto Fernandes assinou. Disse-lhe que não duvido. Agora que há no homem uma base de seriedade deontológica e moral de raiz, há. Depois, não nos esqueçamos que se trata de um político. Todos são serpentes, deslizam sobre a credibilidade pessoal conforme as circunstâncias e, sobretudo, os ditames partidários. Acima do país, dos cidadãos, das políticas correspondentes, está o partido. É por isso que nunca apreciei Mário Soares. Ele era sobre tudo um homem de partido. Evidentemente, não gostei que o ministro, na sequência dos resultados da morte do jovem David Duarte o ano passado no S. José,  tivesse silenciado de súbito os fundamentos que o nortearam no apuramento dos factos. Ele faz parte de uma geração que não dispensa o partido. Mas os partidos hoje, na grossa maioria, já não assentam em princípios ideológicos, em doutrinas filosóficas. São uma organização mafiosa que se orienta por interesses pessoais, corporativos, bando de rebanho pastoreado por uma capelinha de iluminados. Quem não é por mim, é contra mim. Vão ser precisas muitas gerações para alterar esta bizarria.  


         - Soubemos que o embaixador do Iraque para silenciar o pobre rapaz maltratado pelos seus dois filhos, pagou o silêncio com 40 mil euros e mais 12 mil de custas do hospital. Surpreendente! Os meninos que fizeram o seu número de striptease no bar de Ponte de Sor, enquanto no seu país outros da sua idade morriam para defender o país, estão agora livres para prosseguir o caminho para a completa condição de energúmenos. Basta uns patacos que os advogados ávidos aceitam, para que os favorecidos da sorte possam matar ou espancar quem lhes apetecer. A lei é feita para quem tem dinheiro. Não tivessem eles os milhares de euros e teriam como condenação uns anos de cadeia.

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Segunda, 16.
Bato-me há algum tempo por descobrir a entrada para a minha história. O curioso como já aqui disse, é que tenho na cabeça escrita a segunda parte do romance. Falta-me a primeira que permanece inacessível, remetida para os alçapões do subconsciente. Então, esta manhã, decidi avançar às cegas, arrombei portões e entrei por sótãos e corredores, caves e recônditos recantos, em busca das personagens que travestidas jogam às escondidas com o seu criador. À parte as sombras nada mais enxerguei. Talvez o matricida tenha receio de expor o seu delito. Se assim for, renuncio a contar o seu crime.


         - A política é um nojo. A incrível facilidade como os políticos dão a volta ao texto, negando o que antes consideravam uma evidência. É o caso da TSU. Passos Coelho apresentou-a como indispensável ao equilíbrio entre patronato e trabalhadores, a esquerda e o PS recusou-a por atentado a quem trabalha. Agora os socialistas querem implementá-la, o PSD recusa. Só o PCP se for coerente até ao fim, merece respeito. Os portugueses continuam a ser o joguete que diverte esta gente.

domingo, janeiro 15, 2017

Domingo, 15.
Tenho uma curiosidade não só, digamos, intelectual por conhecer o outro, mas também um fraco solidário de me confrontar com ele. Ontem aceitei, enfim, os sucessivos convites do meu canalizador e fui ao almoço que ele tem por hábito realizar todos os sábados e reúne uns quantos amigos debaixo da estrutura velha de uma antiga adega não muito distante daqui. O abrigo é rudimentar, o frio entra por todos os lados, o desconforto da mesa e cadeiras não pede tempo à confraternização. Ao repasto compareceu o “professor” como todos lhe chamam, a amante do proprietário, um agricultor e eu. O ágape foi do mais original que se possa imaginar: frango assado, acompanhado de batata palha comprada no supermercado, salada de alface e tomate a boiar em quantidades de azeite e vinagre, vinho carrascão e à sobremesa bolo inglês adquirido no Continente, queijo dos Açores untado de gordura, café de cafeteira e água-ardente ou bagaço como lhe queiram chamar. Tema de conversa: mulheres. O “professor” não me pareceu conhecer e gostar do género, o outro alargava-se com o anfitrião em considerações de natureza sexual, a mulher ouvia em silêncio, eu disfarçava a presença com um sorriso macaco que ia directo à simpatia do meu artista que na sua simplicidade e natureza anulava o frio glacial, a conversa boçal e o facto de eu não conseguir decifrar nada que de proveito houvesse. No final o “professor” atirou-se, literalmente, às laranjeiras e por pouco não despia uma dos seus maravilhosos frutos. Perdi o meu tempo? Não. Há sempre pequenos sopros humanos, minúsculas batidas do coração que se irmanam numa espécie vida paralela que nos reconforta da aridez e reenvia os instantes purificados pela magia das horas suspensas dos enigmas que não soubemos captar. 

         - Segundo o competente Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, as fraudes, roubos e artimanhas representam 10% do orçamento da saúde, ou seja 0,5% do PIB. Ora 10 por cento são cerca de 900 milhões de euros! O que não se faria com esta soma! É por estas e por muitas outras ou razões que eu sou adepto de mão dura para os corruptos e ladrões. Com a saúde não se brinca.


         - Quando falta tema à informação, vai lá atrás e traz para encher os jornais, rádios e televisões os pobres dos migrantes. Eles nunca deixaram de estar aonde os levam os seus próprios passos, quer dizer ao mar, à costa, aos barcos-armadilha. Só que nesta altura, com a vaga de frio polar que varre a Europa, eles viram ampliar o seu sofrimento e ficar à mercê do destino, isto é, maior capacidade de adquirirem doenças e morrer de frio, sem pátria nem um ombro amigo.