sexta-feira, janeiro 06, 2017

Sexta, 6.
Que estamos a criar uma geração de energúmenos parece que ninguém tem dúvidas. Talvez só certos psicólogos como aquele que Rodrigo Guedes de Carvalho teve que enfrentar ontem no jornal das oito na SIC. O jornalista que é dos poucos que possui ideias próprias, bem tentava trazer o “psicólogo” para a realidade factual, no caso um vídeo que anda a correr na internet e mostra um jovem de quinze anos a ser barbaramente agredido por outros da mesma idade. A cena é de tal modo violenta, que nos revolta. Os animais foram identificados, mas até ao momento ninguém lhes tocou. Estão tranquilamente em casa, enquanto o colega com traumatismos cranianos, continua internado no hospital. Primeiro, têm os psicólogos de definir se aquilo foi um eventual acesso de loucura ou se vem de trás da conjuntura familiar, da sociedade, ou do raio que os parta a todos.

         - Tempos modernos. A nova reflexão social é esta: como lidar com o novo tipo de escravatura. As novas tecnologias amarraram o homem definitivamente às máquinas. Um bom e eficiente funcionário, deve estar disponível 48 sobre 48 horas, fins-de-semana incluídos, compreendendo a diferença de fusos horários. Nalguns países como a França, o Governo teve que legislar para defender o tempo de descanso dos trabalhadores. Por cá só agora se começa a abordar o assunto, quero dizer “o direito a desligar”, para falar como eles falam.


         - Estou a escrever um artigo para a revista Triplov de Maria Estela Guedes, sobre o livro que a Imprensa Nacional dedica ao pintor Guilherme Parente. Hoje fui ao seu encontro na Brasileira e recebi do fotógrafo-jornalista Antunes Amor as fotografias do nosso almoço natalício. O que posso concluir é que está tudo com os copos. Salva-se esta em que estou com o ilustre artista de quem me ocupo hoje.


quarta-feira, janeiro 04, 2017

Quarta, 4.
Ontem, em homenagem a Michel Déon, que faleceu quando me encontrava em Viena, vi pela enésima vez o filme Un Taxi Mauve adaptado do romance do interessante autor francês, com interpretação magistral de Peter Ustinov. Déon, recordo-me, quando o descobri, passei semanas na sala da Rua de S. Marçal, a devorar uma boa parte da sua diversificada obra: Les Poneys sauvages, Je vous écris d´Italie, Pages grecques, Le balcon de Spetsai, Mes arches de Noé, e outros mais porque me fascinou a sua forma de ver as ilhas (Madeira e Açores, inclusive) enquanto lugares mágicos com todo o mistério que lhes está associado. É um autor saudável, sem rococós literários, seguro do que aborda, profundo e original na maneira como trata os temas que lhe são caros.

         - A noite passada cruzamento de pesadelos. Explicava eu ao Simão que Vergílio Ferreira me tinha dito que estava a ler O Rés-do-Chão de Madame Juju. Mas Simão insistia que queria saber a opinião do autor de Manhã Submersa naquele instante. Perante tanta obstinação, decido ir procurar Vergílio, mas ele despacha-me fechando-me a porta na cara. Fico desesperado. Acordo sem me dar conta que tinha passado por um sonho e, por momentos, fico a olhar o quarto, a realidade que teimava em não me trazer a objectividade da vida. Estou imensamente triste. Digo que não escreverei nem mais uma linha, que prefiro morrer. A súbita depressão da manhã foi tão profunda, que decido bater-me e só então constato que tudo o que acabei de viver não passou de uma aterradora angústia.

         - No retorno aquelas quatro horas enfadonhas na enorme gare quase vazia do aeroporto de Madrid à espera de embarcar para Lisboa!


         - E esta tarde, quando o dia se afundava em sombras, súbito raio de sol descendo alado ao encontro da terra e dos lençóis que tinha a enxugar no jardim. Não os secou, mas deixou-os imaculados de encantamento!

terça-feira, janeiro 03, 2017

Terça, 3.
Mário Soares está entre a vida e a morte há duas semanas no Hospital da Cruz Vermelha . Os médicos que se ocupam do ilustre homem, começaram por lhe chamar Doutor, mas rapidamente passaram cerimoniosamente a o apelidar de Presidente. Percebe-se a reprimenda. Num país de doutores começa a ser depreciativo utilizar tal denominação. Há tantos que a inflação desvalorizou a consagração. Agora presidentes há meia-dúzia, ainda que só um em exercício e, portanto, Presidente... Dito isto, é curioso o destino. Penso que deve ser inevitável para as pessoas da minha geração, fazer a comparação com Oliveira Salazar que naquela unidade hospitalar se demorou em convalescença e a procissão de amigos e, sobretudo, de fiéis que apareciam nas câmaras de televisão a desejar ao insigne desaparecido “rápidas melhoras”. Vamos ver se os sinais não são avisos de um mundo que vai desaparecer também com Soares...


         - Nunca se consegue registar tudo o que se vive, sente e vê numa viagem. Como ando para todo o lado com um pequeno bloco de notas, há instantes, folheando-o fui confrontado com impressões que escaparam a este Diário. Por exemplo, a fila barulhenta de japoneses e chineses para entrar no Sacher, não no célebre hotel, mas na casa de chá do rés-do-chão. Uma fatia de Sachertorte com o saber de mais de cem anos custa, acompanhado de um chá, 23€. Mas o produto vende-se sob mil e uma formas de apresentação, e o ambiente é insuportável a partir da tarde. De manhã, no dia em que lá estive e me pude sentar, quando nevava intensamente, não havia praticamente ninguém. Foi-me assim possível ficar a sós comigo, mergulhado na atmosfera de uma civilização que gosta de conservar as tradições. Porque quando os nipónicos chegam, conseguem fazer da noite dia - tal a quantidade de flaches que disparam por segundo. E onde eles estão, o silêncio foge com medo destes intrépidos guerreiros dos tempos presentes.





segunda-feira, janeiro 02, 2017

Segunda, 2.
O atentado da passagem de ano em Istambul, foi obra do Daesh. Um só homem ao seu serviço, liquidou duas dezenas de pessoas e feriu quase meia centena. Conseguiu fugir e tem a polícia no seu encalço até ao momento sem resultados. Como é que os barbudos, apesar dos ataques de todo o lado, conseguem ainda mobilizar quem em seu nome faça aquilo que eles desejariam fazer. Mistério.


         - Falámos quando cheguei, Guilherme eu ao telefone. Logo nos pusemos de acordo para um almoço hoje com encontro na Brasileira. Mas o pintor ficou retido na Fundação Champalimaud e João também não apareceu. Nem por isso faltaram companheiros. Recusei ir aos restaurantes do costume por demasiado barulhentos e disse-lhes que viessem eles almoçar comigo à Adega da Mó. Aceitaram. Durante três horas discussões, risada, por vezes pequenas zangas, atraíram as atenções dos comensais, mas não retiraram o riso ao Sr. António, o proprietário, e ao Sr. João o servente. Gordilho e Virgílio chegaram com uma história de arte na forma de lista telefónica, onde os seus nomes vinham sinalizados. Era visível o contentamento do primeiro e a total indiferença do segundo. Eu dei o meu parecer depois de ler o que se dizia sobre eles e adiantei uma apreciação ao volume. Logo Gordilho: “Eu nunca te vi elogiar um texto, um quadro, um artigo de jornal. Tu encontras sempre erros ortográficos, falhas disto e daquilo, nunca estás satisfeito com nada. - Isso não é verdade – repliquei. Gosto, por exemplo, do teu trabalho.” Riso geral.

domingo, janeiro 01, 2017

Domingo, 1 de Janeiro.
Apesar da quadra, como acontece todos os anos, há sempre atentados. Desta vez coube a Istambul conhecer a morte num ataque a uma discoteca. Trinta e nove pessoas foram mortas, mas Erdogan não desiste das suas políticas. O ódio semeia ódio.

         - Assim que cheguei a Lisboa, vinha louco por uma sopa. Logo entrei num restaurante com aparência de sinistro, com dealers à porta de copo de cerveja na mão e o interior abafado dos odores de todos os sítios tenebrosos e fascinantes da capital, sou recebido ao balcão por um rapaz de uma simpatia inesperada: “Sente-se que vou servi-lo imediatamente.” Sentado olhei em volta e vi que tinha num misto de admiração e surpresa todos aqueles olhos lavados da incerteza dos dias postos em mim. Curiosamente, senti segurança, protecção, respeito. Uma tigela de sopa de grão passado com folhas de agrião, quentinha, não podia ser melhor para repor as energias de um largo tempo de alimentação que o meu corpo não reconheceu. A seguir pedi uma cerveja e um prego. Este era de tal modo gigantesco que tive de solicitar me embrulhassem uma parte para levar comigo. Comi depressa porque a camioneta partia daí a 20 minutos. Terminado o banquete, peguei no meu trólei, na mochila, enfiei o blusão de pele, e saí. Ao deixar o estabelecimento, os olheiros fizeram silêncio e afastaram-se para me dar passagem. Há muitos anos que uma refeição não me sabia tão bem.

         - Eu disse que o hotel onde estivera hospedado em Viena era de uma modéstia e simplicidade, mas com o essencial digno da minha pouca exigência. O facto é que me sinto bem em qualquer lado, tanto no luxo como na pobreza. Porque para mim o importante está algures e verdadeiramente basta-me uma mesa onde possa pousar os meus livros e o computador. Devo confessar, contudo, que sofri horrores com o quarto que me coube. Nunca tive uma noite inteira de sono, devido ao calor no hotel e ao colchão e edredão, um e outro adquiridos nas feiras por tuta e meia. Um e outro feitos destas fibras que não deixam o corpo respirar causando suores e calores insuportáveis. Acresce que os austríacos têm por hábito aquecer as casas excessivamente. Por isso, desde a primeira noite até à última, vivi de chaufage fechada, de janela aberta (mesmo durante o sono) e ainda assim não houve uma única noite que conseguisse dormir sete horas seguidas. Conclusão: andava enervado, desconcentrado, cansado. E não me lembro de ter tido tanta satisfacção por chegar a casa como desta vez. Logo na primeira noite, o sono reencontrou-se com o seu habitat natural e tudo reentrou na norma.

         - Claudio Borghi: “Sair do euro é a única forma para voltar a crescer. Se o problema fosse só dos bancos, bastaria decidir que todas as faltas de capitalização ou outras dos bancos seriam cobertas pelo BCE.” Este dirigente da Liga Norte, diz ainda que o projecto da União Europeia vai ficar na história “como um monstro comparável à União Soviética”.


Um ano 2017 cheio de saúde e da presença insinuante da felicidade!