terça-feira, outubro 27, 2026

Terça, 27.

A luta dos jovens pelo direito a habitação condigna, não sai da actualidade. O chefão da Polícia, senhor Luís Neves, diz que só viu – provavelmente via televisão – uma cacetada de um polícia sobre um manifestante, mas a verdade é que mais de uma dezena foram receber tratamento ao hospital e um está mesmo em dificuldade. Neste entretanto, nem o Presidente da República nem o primeiro-ministro, se dignaram vir a terreiro encarar os rapazes e raparigas que não largam o Rossio. Estão dois afónicos. Um porque lhe estragam os dias e as noites calmas; o outro dependente do seu homem forte que o tem na mão, a ele e a uns quantos mais, não ousa infringir as directivas por Neves traçadas. Curiosamente, os polícias marcaram protesto em frente à Assembleia Nacional, pensando-se que desta vez sem tendas nem sacos-cama. Que país burlesco este. 

         - “Nós não temos delegados mandatados e revogáveis, temos representantes inamovíveis durante quatro anos, e eles próprios são manietados por uma série de dispositivos institucionais.” É deste modo que alude Miguel Serras Pereira, referindo-se aos representantes do povo, perdão dos partidos, no Parlamento, e com prazer volto a citar. São eles que deviam inscrever na ordem do dia, os protestos da juventude de sacos-cama e quartos a preço de aluguer de um apartamento. Não o fazem porque esta tragédia é culpa deles, dos dois partidos que tão mal têm governado Portugal e chamados à responsabilidade, atiram com estatísticas que ninguém conhece nem podem ser confrontadas. 

         - Os brasileiros foram às urnas e votaram contra Trump. Lula da Silva ganhou o quarto mandato aos 81 anos provando que essa história da idade é um pretexto para correr com os velhos. É facto que os nossos fraternos irmãos não tinham grandes alternativas, entre um e outro o diabo que escolha. Mesmo assim, nesta circunstância, foram inteligentes e deram a maioria ao menos dependente de Donald Trump, e em simultâneo defendem com o seu acto a Europa do perigo da extrema-direita em Espanha, Alemanha, França, com eleições para breve. 

         - Ontem fui a Lisboa para estar com o Simão. Ele acabou de deixar o hospital onde fora operado a hidrocele testicular. Abancámos no Celeiro, ele que sempre conheci com imensos cuidados alimentares. Ali estivemos uma hora à conversa, lamentando-se ele de não ter sabido da minha desgraça em Agosto de contrário viria em meu auxílio. Falámos muito de literatura e de autores, tendo ele reduzido a zero a maioria dos que se ufanam e agitam a carteira profissional de escritores. Mesmo Valter Hugo Mãe que eu tinha trazido à conversa por haver lido o seu último romance, “esse pertence ao sistema”. Do que eu não estava à espera, era de ser endeusado acima da maioria dos autores de hoje, isto porque lhe disse que recentemente, mexendo nos milhares de livros que esta casa alberga, me deparei com um de um modesto autor chamado Helder de Sousa. Eu conto. Nuns quantos que desloquei, veio o meu primeiro volume dos Cadernos de Gabriel, O Vazadouro dos Deuses que eu tinha dedicado ao ilustrador da capa, e me apareceria de repente nas mãos, muitos anos depois de o ter publicado. Sentei-me no salão, e li estupefacto as páginas finais do romance. Disse para mim mesmo: “Possa, isto é muito bom, profundo, misterioso e bem escrito.” Mas quem assim falava não era eu, era um tipo que tinha o meu nome, pois tantos anos depois li aquilo com os olhos de um leitor qualquer a quem ofereceram o exemplar. Contei o que acabo de narrar ao Simão e ele “tu és muito melhor que toda essa carrada de gente que se intitula escritor”, e depois por outras palavras, espera, deixa o tempo passar...  

         - Quando a minha saudosa Annie era viva, por esta altura, eu acabava de chegar de Paris. A casa estava fria, bem cheirosa da cera que a Piedade na minha ausência tinha dado nas madeiras do chão, havia no seu interior uma espécie de expectativa, de alguém que se detinha à minha espera, um sopro de murmúrio que se despegava dos livros, espécie de personagens pacientes que aguardavam pelo seu proprietário, um silêncio que se expandia em boas-vindas que estralejavam no ar enchendo a pacatez do interior. À noite inaugurava a lareira e a casa, a pouco e pouco, criava a atmosfera de intimidade que me é cara. Hoje, apesar de sentir as divisões frias, não ouso acender a lareira para não trazer o sofrimento da saudade da Annie, como da Piedade, ambas abrigadas no manto largo de luz do bom Deus, para o meu coração.