quinta-feira, junho 11, 2020

Quinta, 11.
Estão todos os dias a crescer novos casos de coronavírus. Nota-se que as autoridades têm consciência disso, mas a economia fala mais alto. Ontem, em dia de Portugal, o Presidente organizou as festividades de acordo com a pandemia. Oito pessoas ao todo convocadas para estar nos Jerónimos. Discurso fraco do género falar por falar. A cerimónia não chegou a durar uma hora - para português emproado e palrador, foi óptimo.

         - Justamente, cabem aqui estas palavras de Teixeira de Pascoais: “O génio lusíada é mais emotivo que intelectual. Quando uma ideia se (o) comove, despreza a dialética; e é sendo e não racionando que ela prova a sua verdade.”

         - Por frases estes versos de George Herbert (1593-1633), citados por T. S. Eliot:

                              Sometimes Death, puffing at the doore,
                              Blows all the dust about the floore.  


         - 401 palavras esta manhã no novo recomeço do Matricida. Quer-me parecer que o tom está lá, assim como uma certa efabulação embalada por doses de delírio ondulatório, sonho e fantasia. O tempo fez que chovia, mas... A Piedade andou aí e deixou a casa num brinco. Passei a manhã em Chukotka, na península da Crimeia. Neste momento pleuviote. São 15 horas e 22 minutos.

quarta-feira, junho 10, 2020

Quarta, 10.

Na Brasileira o tema andou de mesa em mesa. Desta vez colhendo a unanimidade dos tertulianos quanto à obra meritória de Mário Centeno. João Corregedor é de opinião que o que o fez abandonar o barco socialista, foi mais uma do Mágico tirada da cartola ou albornoz onde guarda em pacotes apimentados a raiva de ver-se segundo face ao seu ministro das Finanças. Marcelo que tudo faz para estar em todas, segue cada passo do primeiro-ministro e ambos ambicionam o que nunca passou pela cabeça de Centeno. Os senhores jornalistas, sempre atentos à ribalta efémera da política, apimentam a saída “nesta altura” de Centeno como fuga à desgraça que aí vem. Ninguém tem coragem de dizer que foi absolutamente indecente e rancorosa a nomeação de um estranho para estudar perspectivas de futuro para Portugal, feita a António Costa Silva pelo chefe do Governo, à revelia do seu ministro das Finanças. Costa Silva reuniu-se com vários membros do Executivo e nunca com Mário Centeno que, de resto, desconhecia o Nobel economista especialista em petróleo. Centeno e os outros ministros, se fossem prevenidos e andassem de pé atrás, lembrar-se-iam do que Costa fez a António José Seguro. Dali há que esperar tudo. O carácter do senhor não se recomenda. Que os portugueses tenham o bom senso de nunca lhe dar a maioria.

terça-feira, junho 09, 2020

Terça, 9.
A grande notícia do dia foi o abandono de Mário Centeno do Governo. Os analistas (ai estes seres dançantes com horóscopos diários, a Maya que se cuide!) dizem que o momento não é o melhor para o país e que o Mágico sai reforçado para o balanço (“difícil”) que aí vem. Talvez tenham razão porque o afirmam da cátedra TV... Todavia, quem sai por cima é ele, Mário Centeno, por muitas razões que a História já anotou para memória futura. António Costa ficará, talvez, como aquele que criou a “geringonça”, Marcelo como o homem das selfis, Mário Centeno como o técnico eficiente que endireitou as Finanças.

         - Por aqui me quedei todo o dia. Várias horas de leitura, nenhuma escrita, mas uma paz interior que derramava um sentimento etéreo estranho, onde cabia o vazio assim como o abarrotar do mundo disperso concentrado em redor de mim. Mesmo assim, pude dar a primeira demão de verniz à mesa do lounge, reguei, e no fim da tarde, seráfico, fiz esta tarte de perdiz. A cozinha requer paciência franciscana e deve ser por isso que os conventos foram lugares de plácidos cozinheiros que aboliram o pecado da gula.

 

         - Entre as leituras, esteve o excelente e meritório artigo de Filipe Luís (catorze páginas),  na Visão, consagrado a António Ferro. Dito de outro modo, eis que alguém se ocupa do Secretário do SPN de Salazar. O autor traça o percurso com inteligência, minuciosidade, e partidarismo q.b. de uma personalidade ímpar do Estado Novo. É uma leitura que aconselho aos meus leitores para que se acerquem dos valores que estão intactos na sociedade actual, porque foram projectados por um homem visionário e de personalidade complexa para o regime que o preservou por muitos anos. Gostava que o mesmo jornalista se ocupasse da mulher, a poetisa Fernanda de Castro. Eu vislumbrei-a uma vez quando acompanhei o meu saudoso amigo Alexandre Ribeirinho a casa da poetisa, na Calçada dos Caetanos, no prédio onde vivia o poeta comunista que eu entrevistei nas traseiras do proscénio do Tivoli, José Gomes Ferreira. Alexandre era visita frequente, quer para estar com Fernanda a sós, quer nas tertúlias que se prolongavam por tardes e noites. Depois do 25 de Abril, o Delraux, chegava a Portugal na perseguição de um grande amor. Fundou pouco depois a Edições Roger Delraux e pediu-me ajuda. Delraux reeditou obras de António Ferro e deixou uma edição fabulosa de Arte de Ser Português de Teixeira de Pascoaes que ele consultou, na casa do ilustre escritor, onde passou tempo suficiente para estudar o original.

domingo, junho 07, 2020

Domingo, 7.
As manifestações contra o racismo mais de uma semana sobre a morte brutal que me toca ainda de George Floyd, não abrandam. Trump quis pôr os militares na rua para acabar com os milhares de revoltados, mas recebeu em troca uma nega. Do nunca visto. No Ocidente, sempre que o Exército se recusa a cumprir ordens do governo eleito pelo povo, segue-se um golpe de Estado. E na América?   

         - O MP pediu a suspensão de funções de Mexia (que dirá sua reverência o Cardeal de Lisboa?) e do outro capanga de farripas compridas da eléctrica chinesa, confiscação dos passaportes e multa de milhões por corrupção activa no caso das rendas excessivas da EDP e proibição de viajar para o estrangeiro (incluindo a China presumo eu). Isto chama-se um processo limpo, democrático e imparcial. A quem se deve uma tal proeza? Ao senhor do costume: o independente e competente juiz Carlos Alexandre e, é justo dizer, aos procuradores Carlos Casimiro e Hugo Neto. Dito isto, interrogo-me a cada passo com o facto de se gastar milhares em audiências, buscas e advogados, quando os criminosos, por força da natureza que com eles comunga dos excessos, estampa na cara aquilo que as contas bancárias e os offshore escondem.

      - O Mágico está de volta e vai distribuir milhões às empresas e desempregados. Às firmas, espero eu, com parcimónia porque o dinheiro evapora-se num instante; aos trabalhadores com conta peso e medida de contrário temos um país de parasitas. Tenho já saudades de António Costa!


         - Este ano, apesar do calor, vêem-se poucas moscas e mosquitos lá vem um. Manhã ocupada com pequenos trabalhos lá fora: serrar troncos dos ramos do loureiro que venho cortando por estar demasiado próximo da casa  e levá-los no carro-de-mão para o fundo da quinta, aparar a vinha virgem que adorna as paredes da casa das máquinas. Pus de parte o tratamento à água por o dia ameaçar chuva e eu não querer gastar electricidade inutilmente para os chineses do “imperador” ping, ping, ping. Falou-me Francis, João e Alzira estes preocupados com o aumento de casos de coronavírus na região de Lisboa. Para mim previsíveis e como corolário a curto prazo teremos medidas de novo confinamento para a capital.

sábado, junho 06, 2020

Sábado, 5.
Os boçais do futebol aí estão mais agressivos devido ao tempo em que estiveram sem o vício que lhes devora as entranhas. Como não são autorizados a entrar nos estádios, vingam-se apedrejando autocarros (no caso o do Benfica), e ameaçando com grafites nojentos as casas dos jogadores e treinador. A Polícia faz remendos de ordem, mas a atitude que o direito dá a todos os cidadãos, incluindo aqueles que não se deixam alienar pela ditadura do futebol, é ser protegidos por igual. Eu não tenho de suportar a toda a hora a invasão desses energúmenos no meu quotidiano. É certo que posso passar as páginas do jornal a eles dedicadas, posso desligar o aparelho de televisão, posso afastar-me para não escutar a conversa dos entendidos (que é cada português), mas não consigo olvidar que somos mais ignorantes por cada tipo que obcecadamente goste de futebol. Em Portugal há mesmo duas culturas que se opõem – a do futebol e a outra que abarca diversas áreas, é plural e contém em si um mundo onde não cabem esses analfabetos.  

         - Alguém ouviu um silvo de indignação da parte dos comunistas e seus compinchas sobre aquela de Putin impor uma lei à sua medida de forma a ficar no poder mais 16 anos, ou seja, 36? Não. Porque para eles aquilo é a “democracia” a funcionar, curiosamente, diga-se, a mesmíssima que Salazar impôs e que eles combateram denodadamente. Aqui chamavam-lhe fascismo e lá? Talvez social-fascismo. O Corregedor disto nem quer ouvir falar. Nem dos anos que levou a dança vergonhosa das cadeiras entre ele e Dmitri Medvedev. O sectarismo é repelente. Eu saio sempre daquelas tertúlias na Brasileira, incomodado pelo tempo perdido. Não aprendo nada, nem vejo utilidade nelas. O João, tirando a política, não sabe falar de mais nada e acho até que lhe ficou a nostalgia dos tempos de deputado onde o jogo sujo e hipócrita, a retórica balofa corrente naquela Assembleia impropriamente chamada de representantes do povo.  Estes são os mesmos que diziam desconhecer os gulags (acrónimo de Administração Geral dos Campos), que não fecharam quando o campos nazis acabaram e Estaline que matou mais de 20 milhões de pessoas morreu;  o terror leninista e trotskista (Soljenitsin diz algures que o sistema carcerário dos czares era infinitamente mais benévolo que o dos bolcheviques);  a construção do Canal do Mar Branco que causou a morte a 25 mil prisioneiros; para não falar no terrível inverno de 1941-42 que dizimou de fome um quarto da população do Gulag; as perseguições; as mortes; o isolamento de artistas plásticos e escritores, bailarinos, cientistas na antiga URSS, a pata do KGB que tudo controlava. Insisto: o comunismo tal qual o conhecemos e vimos e vemos praticar, só tem chance – felizmente insignificante - nos países subdesenvolvidos, atrasados culturalmente, miseráveis. O mundo dos trabalhadores que eles dizem defender, não passa de uma cabala que os pobres trabalhadores não ousam imaginar. A eis-URSS, com a sua província díspar e profunda, é ainda hoje o exemplo em sangue de um destino humilde e travado de horizontes.

         - Perguntarão, como é hábito, de resto, e nos regimes capitalistas? Conheço o revés. Como se um espírito livre não pudesse olhar o homem e as suas circunstâncias de um só ângulo e existindo um não pudesse haver outro ou outros pontos de vista. Já nestas páginas disse: a esquerda portuguesa ainda não se adaptou à democracia ou, se me permitem, não a pode rejeitar porque se pudesse fazia-o. Basta ouvir o seu discurso, que ficou parado nos anos 60/70, como se Salazar ainda estivesse no poder e todos os que pensam diferentemente dela, fossem ferrenhos fascistas. Há nisto um jacobinismo obstinado, que retém a marcha do pensamento social e político, face aos factos históricos. A esquerda vive fechada em dogmas, em coisas que não tendo nunca acontecido, ela tem a esperança de um dia vir a acontecer. O pensamento único absorve-a impedindo que a diferença e outras causas filosóficas obtenham luz. Sectária, afasta do pensamento prático a ideia polimorfa que enfrenta os seus princípios redutores. Um amigo dizia-me outro dia: “O PCP é constituído por velhos. Mortos estes desaparece o partido.” É bem provável. Embora eu considere que o seu contributo no caso português não seja de todo censurável. Talvez as novas gerações aprendam o exercício da maleabilidade de pensamento, do direito ao contraditório, do determinismo, como direi, emocional que agilize o diálogo e faça corresponder a acção com a realidade. O apodrecimento do comunismo praticado na China, Coreia do Norte, Rússia para não falar na patetice de outros países sul-americanos, é de tal modo evidente e castrador da liberdade dos povos, que por si só dignifica a democracia a atrai milhões de povos fugidos da unicidade e da verdade única.  

         - Regas. Comecei a despertar a água, a tratá-la e a limpar a piscina. Espero poder mergulhar a partir de segunda-feira. A eléctrica chinesa não mora aqui em exagerados consumos. Daí que aproveite o fim-de-semana de custos mais em conta. Mexia o emproado gerente do ditador Xinping ping ping, não enriquece mais comigo.
        

         O homem apareceu oferecendo-me uma nota preta pela cortiça. Disse-lhe: “Não quero nada. Como assim?! Há nove anos o senhor pagou-me e por qualquer motivo não extraiu a cortiça.” O homenzarrão que não se lembrava, levantou as espessas sobrancelhas de espanto. Há uns dias, vieram aí outros dois a quem eu contei esta história e eles: “Então olhe lá e se nós lhe dermos mais dinheiro!”