terça-feira, abril 03, 2018

Terça, 3.
A minha velha amiga Alzira que parou aqui no domingo vinda do Algarve e com quem fiz um lanche ajantarado, admira-se do trabalho que eu levo a cabo. Varre-me de perguntas: se não me canso, se não me magoam as costas, como arranjo paciência para tanto. Respondi que isto, pelo contrario, dá-me saúde, realiza-me numa vertente tão importante como a escrita, a leitura, a contemplação. Se residisse numa padiola em Lisboa, já estava morto ou roído de reumatismo, neurastenia, poluição e à mercê dos impostos que o actual Presidente da Câmara aplica aos lisboetas como se eles fossem a banca onde vai sacar os milhões todos os meses. Riu-se. “Tu não mudas.”

         - Ontem, o sector dos comboios imitando o seu congénere francês, fez greve. Felizmente não arredei pé daqui, a tarde sem chuva consagrada a roçar a erva daninha junto à casa. Aguentei para cima de uma hora de máquina em punho. Depois esperei pelas dores lombares, mas estas recusaram instalar-se e eu suspirei de jubilação.

         - Dia de discussões inflamadas, há alturas assim. Fui ao encontro do João Corregedor que me esperava na Brasileira. Aí encontrei o Gordilho e o meu amigo economista X com quem simpatizo sobremaneira. Discussão acesa com o artista de joias. Para ele que se tem na mais alta importância, só é verdadeiramente alguém quem aparece referenciado em revistas nacionais e estrageiras como é, naturalmente, o seu caso. Todos os que não possuem o seu nome nessas revistas, jornais, prospectos e mais não sei o quê, não existem. Tentei arrefecer-lhe o ego, mas ele atirou-me: “Tu nunca concordas com ninguém, estás sempre do contra.” A verdade é esta: quem poderá saber quantos dos artistas em todas as áreas, dos hoje muito louvados, aos obscuros que paulatinamente realizam as suas obras, ficará na história, será lido, admirado, estudado daqui a cinquenta, cem anos? Nos tempos modernos, eu não ignoro que um nome, qualquer que ele seja, é fruto de propaganda e esta fruto de amigos, relações políticas, de grupo, etc. Todos estão nos jornais e revistas, vão às televisões, aparecem nas recepções, são vedetas inchadas de vaidade e orgulho. Mas serão eles os verdadeiros artistas, aqueles que o tempo não deixará esquecer? Serão as suas obras suficientemente importantes, profundas, inovadoras, inquietantes, que atravessarão o tempo para encontrar novos leitores, interessar outros olhares, sensibilidades e ouvidos para as obras sinfónicas? Veja-se o caso dos prémios Nobel. Quantos são os que hoje lemos? Em paralelo quantos dos que não obtiveram o galardão continuam a esgotar edições e a serem estudados e lidos com paixão! Para o fim, o Gordilho saiu-se com esta que me encheu de satisfação: “O que vale é que tu dizes tudo com um grande sorriso, e nunca te chateias com ninguém!” Assim é, com efeito. Quanto ao mais que diabo! Não quero pensar como toda a gente, desejo pensar pela minha própria cabeça. E se não o faço coincidindo com a maioria, é mérito meu ou demérito dos outros?


         - O dia, como disse, estava tocado do desvario. No Príncipe para onde nos deslocámos, encontrámos o Carlos. Abancam os do costume: João, Mário, Paulo, eu, no topo da enfiada da mesa mais dois desconhecidos. Carlos começou a beber como é seu hábito. Marcharam dois copos cheios pelo empregado, veio mais um tanto do copo do João, depois de uma garrafa perdida e assim por diante. Eu que estava na frente do meu amigo, alertei-o. Em pouco tempo o seu rosto estava rubro, a voz muitos decibéis acima do normal, os temas baralhados, a confusão instalada. Ele irrita-se comigo, porque não gostou que eu tivesse dito que estava ébrio. A coisa foi de tal violência que eu e o Paulo abandonámos a mesa. Irmão insistia que não estava bêbado, pela razão simples que nenhum alcoólico o reconhece. Como ele não tombou e fazia o 4, estava, naturalmente, sóbrio.

segunda-feira, abril 02, 2018

Segunda, 2.
Deus não podia existir sem nós; nós não podemos existir sem Ele – eis o grande mistério da vida e da fraternidade cristã.

         - Em Novembro do ano passado, corri meia Paris em busca do livro de Pierre Loti, Vers Ispahan. A segunda vez que o procurei na Gilbert, o rapaz que me atendeu (não sei se na altura contei este episódio, suponho que não) disse-me para procurar no andar de baixo. De lá mandaram-me para o terceiro piso e aí que tornar-se ao segundo que era lá que o computador bem mandado me exigia presença. Fui, pois, directo ao simpático empregado queixando-me de andar para cima e para baixo inutilmente. Ele, todo sorrisos: “Vous savez, avec Loti il faut voyager.” Com efeito. Logo na primeira página, reencontro Pierre Loti como todos os seus leitores tanto o admiram: “Une grande barque à voile, vient de nous jeter ici, au seuil des solitudes, sur la rive brûlante de ce golfe Persique, où l´air empli de fièvre est à peine respirable pour les hommes de nos climats.” Que beleza! Que começo fabuloso para um livro que conta a viagem que o grande viajante empreendeu até à Ásia, em 1900. Não há quem como ele tenha caminhado tanto.


         - Os franceses não se deixam enganar. Hoje começaram uma greve que vai durar 36 dias! Chou Chou vai ter que se haver com eles. São 150 mil trabalhadores da SNCS, do TER e do TGV. Esta paralisação vai afectar 4 milhões e meio de passageiros quotidianamente. A que se junta a Air France e os empregados do lixo.

domingo, abril 01, 2018

Domenica di Pasqua.
O que uns e outros nos contam sobre o PIB ou deficit é salada made in Bruxelas eurocrata. Não tem interesse absolutamente nenhum. Ninguém na Europa do euro se ateve aquelas percentagens, todos (incluindo a Alemanha) estiveram-se sempre nas tintas para isso. O cumprimento dessas minudências, é para os subnutridos – Portugal, Grécia, os ex-países da URRS. Aos barões ninguém impõe coisa nenhuma. Os portugueses pagam e não refilam. Como no tempo de Salazar. A verdade é esta: quem nos arruína são os bancos, os impostos cada vez mais elevados, os políticos corruptos e os banqueiros gananciosos.

         - Matzneff. La jeune Moabite não sobe à biblioteca de cima tão depressa. Ao longo do Diário são muitas (demasiado) as entradas sobre o peso, o que come e não come, a obsessão pela linha. Depois, como muita gente que eu conheço, ao lado destas preocupações, ou fazendo permanentemente tábua rasa delas, vem o modo como se alimentam. Vejamos. Dia 23 de Junho de 2016, o jantar do nosso Casanova à francesa: salsichas, queijo, pão com manteiga Bordier, vinho tinto. Nada nesta composição dietética eu engulo. Sobretudo ao jantar. Tudo o que o nosso caro escritor comeu é o contrário a um corpo sem pança. Hoje o meu jantar foi uma omeleta com espargos selvagens e uma tijela de morangos. Água a acompanhar. Assim deve ser para quem quiser ter de facto um corpo elegante e saudável. A partir das cinco da tarde, pára tudo. Nada de restaurantes, vinho, doces, queijos, carne ou peixe. Sopa e uma peça de fruta é quanto basta. Ainda jejuar uma vez por semana de modo a impedir que as células cancerígenas se instalem ou desenvolvem.

         - O Papa, ontem, na Via Sacra avançou uma série de verdades que o mundo decerto não ouvirá mergulhado na imundice da informação contada por interpostos interesses. Entre elas esta: “muitos deviam ter vergonha pelo mundo que deixam”. Ou esta quando confessou “vergonha porque tantas pessoas, até alguns dos nossos ministros (referia-se aos sacerdotes e bispos) deixam-se enganar pela ambição e pelas vãs glórias, perdendo o seu valor”. Ou ainda esta: depois de dizer que a vergonha devia ser como “uma graça de Deus” advertiu “as nossas gerações estão a deixar aos jovens um mundo fracturado em divisões e guerras, um mundo devorado pelo egoísmo”.  

         - Sexta-feira santa para muitas das religiões que residem em Israel, foi um dia de terror. O exército israelita ao longo da fronteira entre Gaza e Israel, criou um autêntico cenário de guerra. A repressão foi tão violenta e inapropriada que resultou em 16 mortos e mais de 1400 feridos. Os ataques militares utilizaram todo o arsenal disponível : gás lacrimogéneo, tanques, atiradores furtivos. António Guterres pediu uma investigação independente. Trump esfrega as mãos de contentamento.


         - Sobra do lixo do mundo, a rendição do Governo do Mágico ao PCP e a constatação uma vez mais de que a Europa de Bruxelas não é a irmandade que muitos desejariam. De contrário, Portugal teria expulsado diplomatas russos como fez a maioria dos países vassalos dos Estados Unidos. Eu fui dos primeiros a achar a atitude de Londres inútil e, portanto, estou à vontade para me exprimir como entendo. Achei e acho que Theresa May tinha muitas formas de se confrontar com o criminoso Putin, nomeadamente, as económicas. Mas isso é outra conversa que não interessa aos governantes de nenhum dos Estados que integram a UE. Acresce que a nossa diplomacia, sobretudo, desde a entrada de Portugal na então CEE, deixa muito a desejar. Tornámo-nos bajuladores, mansos, rendidos aos países mais fortes da UE que, por sua vez, estão de joelhos ante os americanos. Para não falar do Governo do famigerado José Sócrates que foi fazer jogging na Praça Vermelha de Moscovo fechada aos cidadãos russos para sua segurança, com aquelas perninhas fininhas, coitadinho, que Deus lhe deu a suportar o bojo redondo de anafado.  

sábado, março 31, 2018

Sábado, 31.
No comboio que me trouxe de regresso ao meu presbitério, à minha volta, apenas um rapaz fazia a diferença na formação geral dependente dos telemóveis: lia um livro de Mia Couto.

         - Este corpinho sensível e esta cabeça sonhadora, necessita de se proteger do embate com a Primavera. Daí ter começado hoje a tomar um multi-vitamínico. Até ao momento, é o único medicamento que ingero. Como costuma dizer a Annie, a prova de que o teu sistema dietético funciona, está no facto de tu teres saúde e não envelheceres... Eu normalmente devolvo: “Tu até aos setenta anos gozavas com todos os que se constipavam, tomavam drogas, não comiam coisas fora de prazo e agora, aos oitenta, tomas uma caixa deles todos os dias. A mim pode-me vir a acontecer o mesmo.”

         - Marco Aurélio, outro dia, levou-me a consultar na (minha) biblioteca dos filósofos que ocupa umas dez prateleiras, uma frase de Epitecto. Para minha grande e agradável surpresa, encontro no livro composto por Lavius Arrien, discípulo do mestre escravo de Epafrodito, o Manual inserido num estudo de 220 páginas de Pierre Hadot. Surpresa. Verifico pela etiqueta, que o comprei chez Gilbert Joseph, no Bairro Latino, em 28.9.2006. Ficou perdido entre as centenas de outros fraternos amigos até hoje. Curiosamente, possuo dois outros exemplares do mesmo livro, mas em português e na tradução e notas de Carlos de Jesus. Devo tê-lo lido, porque num deles encontro a data de leitura: Setembro de 2016.

         - Tenho o bom hábito de às vezes abrir os Lusíadas. No tempo do liceu, sabia de cor estrofes e até Cantos (por exemplo o IV). Ontem, folheei ao azar a recitação de Luís de Camões e tombo sobre estas versos (Canto XI):

                                Est.28
                                Vê que aqueles que devem à pobreza
                                Amor divino e ao povo caridade,
                                Amam somente mandos e riqueza,
                                Simulando justiça e integridade;
                                Da feia tirania e de aspereza
                                Fazem direito e vã severidade;
                                Leis em favor do Rei se estabelecem,
                                As em favor do povo só perecem.

                                 93
                                 E ponde na cobiça um freio duro,
                                 E na ambição também, que indignamente
                                 Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
                                 Vício da tirania infame e urgente ;
                                 Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
                                 Verdadeiro valor não dão à gente :
                                 Milhor é merecê-los sem os ter ;
                                 Que possuí-los sem os merecer. 


A quem servem hoje estes versos, não me direis?