sexta-feira, agosto 07, 2015

Sexta, 7.
Ainda a monstruosidade americana no Japão. A maioria dos que morreram eram civis: crianças, jovens, velhos e novos. Tudo se eclipsou-se num segundo em pó, silêncio e vazio. A desproporção foi medonha, houve a supremacia de um lado sobre o outro – e isso é insuportável e não pode ser esquecido pelas gerações futuras. Foi a partir desse momento que todos os países se atiraram à descoberta de material bélico destruidor. Perceberam que não é a democracia que equilibra o mundo, é a capacidade militar.

         - A batalha pelo poder começou. Passos Coelho que diz ter os cofres cheios, não devolveu ainda o que devia do IRS. O ano passado com eles vazios, restituiu aquilo que os cidadãos pagaram a mais em Julho. A política em Portugal é feita de mentira, de argumentação malsã, desprezo pelas pessoas – e pelos vistos não mudaram  os parâmetros. Nem podia. São sempre os mesmos a atacarem-se e a defenderem-se mutuamente. O povo ignorante, assiste. Interessa-lhe mais as contratações e começo do futebol. A vida - a autêntica - corre nos pés dos jogadores.


         - Morreu Ana Hatherly. Quando me foi apresentada pela Isabel da Nóbrega, percebi que se tratava de uma diplomática do trato. A sua poesia corresponde ao ser luminoso que ela era.

quinta-feira, agosto 06, 2015

Quinta, 6
O mar mediterrâneo, esse mare nostrum que outrora foi auto-estrada comum a múltiplas raças e línguas, ao comércio e à vida paisible, está transformado no cemitério onde são sepultados aqueles que fugindo à guerra, à fome e ao desespero, nele encontram a morte. Ontem foram mais uma centena ao largo da Líbia.

         - Passam hoje 70 anos sobre a maior catástrofe humana de todos os tempos: a destruição com a primeira bomba atómica sobre Hiroxima e depois Nagazaki. Morrem milhares, milhares ficaram feridos até hoje, cidades foram reduzidas a cinzas. Quem cometeu uma tal monstruosidade? Os americanos. Se fosse hoje teriam a seu lado de joelhos os políticos insignificantes da zona euro.


         - Esta manhã quando entrei no metro e me preparava para me sentar, o trem arranca num impulso estatelando-me literalmente sobre um careca de meia idade que estava sentado na minha frente. Juro que o homem não fazia o meu género... Na Baixa onde estive a maior parte do tempo depois de ter deixado o meu médico, fazia um calor insuportável. Nem as moscas estrangeiras suportavam tamanha canícula, caminhando como baratas tontas aos ziguezagues pelas ruas entupidas de moscas brejeiras.

quarta-feira, agosto 05, 2015

Quarta, 5.
Fortuna esteve aí para levar a carrinha cheia dos ramos da palmeira que eu plantei quando aqui cheguei (foi a primeira árvore) e que o parasita que as tem dizimado aos milhares por essa Europa do Sul fora também a destruiu. Com esta que já tinha do sopé ao cume uns cinco metros, são cinco os exemplares que desapareceram. Restam dois com cerca de dois metros. De nada serviram os tratamentos que fiz a todas: o bicho de aspecto e forma asquerosas, resistiu a tudo. Com este maravilhoso exemplar, foi-se parte da alegria que aqui reinava na forma de um entusiasmo subjacente à atmosfera dos primitivos tempos quando descobri este lugar e me instalei. Já nos anunciam uma outra praga que devora sem piedade as oliveiras. Arrumados os braços sem vida na furgoneta, sentámo-nos lá fora debaixo do toldo a conversar até perto das cinco da tarde, um vinho branco fresco e queijo de ovelha, pão de mistura e o tempo sublime a esgueirar-se pelos fios da aragem cálida. Que prazer é viver no campo!   

         - Anoto o essencial. Todo o meu tempo e esforço vai para o final do romance. Não tarda chego a Santa Cruz da Trapa, quero dizer ao término de um trabalho de dois anos e meio muito duro. À parte isto, depois do almoço, entro na complexa teia das aporias platónicas que José Trindade Santos tão bem disseca – e nisto consiste nesta altura a minha vida.


         - O mínimo que se pode dizer da resposta que o coordenador do GE Risco Cardiovascular da SPC deu ao Dr. Manuel Pinto Coelho que há duas semanas escreveu no Público o que atrás referi, é que foi uma não resposta. Palma Reis limitou-se a generalidades com o pretexto de defender os doentes e as pessoas que tomam medicação para o colesterol e a diabetes, sem cuidar de rebater ponto por ponto o que disse o seu colega. Não ponho em causa as boas intenções do coordenador da SPC, o que acho é que as farmacêuticas lhe devem agradecer a gentileza de, sem as nomear, ter contribuído para o status quo da classe médica que a indústria do ramo gere com astúcia e muitas vezes com perversão.

terça-feira, agosto 04, 2015

Terça, 4.

Não obstante a humilhação, a violência, o terem enfrentado a morte por mares e jangadas de medos crianças, mulheres e homens, empreenderam uma viagem terrível até ao campo de ninguém apelidado A Selva, onde dormem ao relento, comem quando alguém lhes estende uma côdea, enfrentam os guardas que os enxotam como moscas, afoitam-se por todos os meios qual deles o mais sinistro, para concluírem a viagem do outro lado do Canal da Mancha onde sonham encontrar o El Dorado das suas existências. Vivem em tendas cheias de buracos, à borda do caminho de ferro, sem higiene, condições dignas, cheios de fome, mas há algo que não dispensam e todos juntos edificaram: uma pequena capela feita de tábuas pintadas de branco, no meio do descampado da adversidade, onde na parte mais alta erigiram uma cruz de madeira. Deus, estou certo, chora de tristeza e emoção lágrimas de sangue. Os seus filhos mais queridos sofrem sem culpa e sem rendição.

domingo, agosto 02, 2015

Domingo, 2 de Agosto.
David Cameron diz que os migrantes que morrem no hoje denominado Canal da Selva são uma praga. Imagino uma praga de gafanhotos que é necessário exterminar. Esta frieza, esta desumanização da parte do primeiro-ministro britânico, faz tábua rasa do mais importante: que a Europa com os Estados Unidos são os únicos responsáveis pela tragédia humana que lhes bateu à porta. Quando invadiram países como o Iraque, a Líbia, a Síria, alguns países africanos, destruindo situações políticas e sociais algumas milenares, em nome dos seus interesses e a coberto de razões humanitárias ou para impor a democracia que lhes serve de álibi para a guerra, deixaram o campo minado de incertezas, conflitos, ódios, rivalidades adormecidas, ajustes de razões políticas e transformaram a zona num barril de pólvora que os povos, vítimas das suas loucuras hoje se vêem obrigados a deixar para trás. Depois de séculos a extorquirem-lhes as riquezas naturais, a aproveitarem a mão-de-obra barata, descartaram-se de povos nobres como se fossem objectos caídos em desuso. O resultado é que têm às costas um problema difícil de resolver e a vaga de gente desorientada que nada tem a perder, posto que tudo lhe roubaram mesmo a própria vida.


         - Apesar de tudo, uma ténue esperança e crença na humanidade: depois de no ano passado o Ébola ter dizimado milhares de africanos, eis que na sequência dos esforços concentrados na altura, existe já com sucesso uma vacina eficaz.