quinta-feira, julho 16, 2026

Quinta, 16.

Decidi não deixar estes claustros hoje. Quando acordei a abri as janelas de cima, pus-me a admirar a quinta que adquiriu outra beleza com o trabalho do Luís Correia. Parece maior, e as poucas árvores que restam de várias dezenas, compõem com encanto o espaço trazendo-me à memória loucuras do passado quando aqui cheguei cheio de energia, criatividade e treslouquices de braço dado com o João seu anterior proprietário. Só a luz e o silêncio parecem os mesmos, uma e outro irmanados num estrondo de magia que se repercute no ar e afaga num ápice todos os temores e rumores da minha futura existência fora desta liberdade, deste recanto isolado, pouso de pássaros vadios, de cobras, de rãs, de todos os répteis que entram e saem sem pedir autorização. Tomado o pequeno almoço, fui vadiar por este hectare de terra a apalpar, a escutar a palpitação das figueiras, romãzeiras, pereiras, macieiras, marmeleiros colher o resto de pêssegos que a passarada não quis e uma tigela de amoras, enfim, parando demoradamente para reter este espaço sagrado, o convento recuado no tempo, o deslumbre de verde que compõe a pauta musical de uma canção que os pássaros e o cuco de vez em quando ecoam com suas vozes melodiosas, por onde esbanjam a juventude que a mim me vai faltando não obstante os exames que me dão na pré-adolescência... 

         - Ao que leio são já 12 mil as mortes em toda a Europa devido ao calor que não nos larga. Para cúmulo, em Fontainebleau, nos arredores de Paris, a célebre floresta que eu tantas vezes percorri e onde se passa tanta coisa pela noite dentro, está a arder. A França não estava habituada à canícula e agora vai ter que pensar nela, substituir os telhados de ardosa, instalar aparelhos de ar condicionado e por aí fora. 

         - Sinto especial encanto pelos fins de tarde sentado no pátio, um ligeiro vento fresco a cirandar em torno de mim, debruçado sobre os meus autores. Tento sempre reservar uma hora para me dedicar ao supremo prazer das leituras. Nesta altura o fim da Encíclica de Leão XIV e o Géneses, sem negligenciar a passagem pelos jornais, sobretudo o Público. O Black que é a paz em pessoa, adora esses momentos e aproveita-os para se deitar ao meu lado, bem colado a mim.  

         - Enquanto a gritaria campeia na Assembleia, eu registo o país real nestes dados: 615 inquéritos abertos por ofensas à integridade física em 2024 nas forças policiais; “quem me dá uma chapada na cara (diz um agente da autoridade), em função do meu serviço, vai ter que se embrulhar comigo até lhe meter as algemas. Se é homem para me bater, vai ser homem para levar”; “não posso bater (diz outro polícia), mas depois eu é que levo no focinho? Jesus Cristo veio à terra, deu uma face, deu a outra. Eu sou abençoado, mas não sou Jesus Cristo”; outro agente afirma “natural ou, às vezes normal, um agente da autoridade vir a “apertar”: berros e torturas. Algumas agressões vieram a acontecer, até alguns actos de tortura”. Quanto às célebres e sinistras acções da PSP no Largo do Rato e Bairro Alto, entre 2023 e 2025, alguns polícias foram acusados de falsificação de autos de notícia, suspeitos de tortura, abuso de poder, abuso sexual, ofensas à integridade física e roubo em mais de uma dezena abusos aos detidos naquelas esquadras. 

 

quarta-feira, julho 15, 2026

 Quarta, 15.

Sebastião Bugalho está em todas. Continua deputado europeu, ganhando daí os milhares que trará de Bruxelas no fim do mandato e porta-voz do PSD além de seu vice-presidente, que até dará para adquirir um cavalo Lusitano. Bravo Bugalhito. És o maior. Um dos anúncios que sua excelência nos trouxe, foi a decisão do Governo em pagar horas extraordinárias aos professores que estão a classificar digitalmente a pouca vergonha dos exames nacionais. Era o que mais nos faltava, que os professores num trabalho hercúleo que buliu com as suas vidas, não fossem pagos! Todavia, o à vontade do sujeito que sonha estar um dia na cadeira do seu benfeitor Luís Montenegro, foi tal que parecia estar a dar notícia que aos docentes lhes tinha saído a lotaria. O presidente do PSD e do Governo fez-lhe a vontade, pois o homem andava desgostosíssimo por não ser reconhecido nas ruas de Bruxelas e no restaurante Aux Armes de Bruxelles onde ele e os seus camaradas ricos abancam. Eu sempre que a Annie me convidava para lá almoçar, via-os felizes a coçar qualquer coisa debaixo da mesa e em coscuvilhices sem fim. 

         - O homem que parecia estar banhado de moralidade da cabeça aos pés, afinal veio rubricar o provérbio como muitos outros políticos: no melhor pano cai a nódoa. Luís Neves, é dele que se fala, fez contratos com um empreiteiro amigo, para obras num monte que possui em Odemira. Este construtor tinha assinado contratos com a Polícia Judiciária quando ele era seu director entre 2020 e 2025. O agora ministro da Administração Interna, ao que parece, nem pedido de licenciamento de obras pediu à Câmara de Odemira. Esta diz que vai fiscalizar e que se assim for vai mandar demolir o que foi feito. Pergunto: algum leitor acredita que a autarquia o faça? Esta obsessão à Trump pelo imobiliário, atravessa a sociedade política: Luís Montenegro, José Aguiar Branco, Nuno Santos e passo. 

         - O Alexandre telefonou-me de Frankfurt onde estava em trânsito para Atenas a saber do resultado do exame às coronárias, ante a reposta debitou: “Pois, tu não comes, não bebes, não fumas por isso estás impecável.” Com efeito. O relatório do doppler é aquilo que eu senti quando do encontro com a médica que o fez. À mon âge! 




terça-feira, julho 14, 2026

 Terça, 14.

A comédia partidária nacional é um mundo diametralmente oposto ao do país, das pessoas, da realidade nacional. Aquela gente vive de fantasias, de recordações cívicas do tempo do fascismo, e em certo sentido nunca dele se apartaram e até gostariam de nele continuar para que as suas ideias e projectos tivessem absoluta concretização. Repare-se no Livre agora liberto do historiador, o simpático que assumiu o seu posto, proclama o poder como se este estivesse na ponta da bandeira ideológica que é idêntica ao do BE de má memória e à do PCP de histórica recordação. Uma utopia para quem nunca alcançou mais que quatro por cento de votos! O que eu vejo nestes congressos, é uma festa da juventude retardada, uma dinâmica de camaradas que se conhecem de longa data, comungam de um programa que andaram a beber nos intervalos das aulas, nas patuscadas nocturnas, e consideram ser seu direito proclamá-lo ao povo inocente, “escravo do capitalismo”, com perspectivas muito limitadas que não vão além da urgência de uma vida digna alicerçada no trabalho honesto. Mas para isto, eles têm uma ideologia e sem ela não é possível estruturar um país. Basta-lhes injectar doses massivas de futebol, concertos de Norte a Sul que outro dia o maestro Vitorino de Almeida nos dizia serem puro barulho, religião qb e concursos (muitos) e programas de entretenimento áridos, coscuvilhando a vida das ditas figuras públicas. Enfim, a TV ao serviço da mentecapta realidade nacional. 

         - Há, todavia, outra realidade que eles nunca compreenderão porque vivem naquilo a que Marx classificava de classe privilegiada. Por exemplo. A daqueles dois irmãos brasileiros, um deles que conheço bem, 22 anos, que se vê obrigado a trabalhar sete horas num café de dia, as noites num bar até às duas da madrugada. Tudo isto para pagar a renda de um apartamento em Benfica, água, luz, uma sobrevivência desgraçada que nunca os nossos políticos burgueses podem algum dia chegar a endireitar, porque isso implicaria pensar fora da caixa partidária, descer ao mundo sofredor daqueles que não vivem, sobrevivem e são aos milhões, uns de cara descoberta, a maioria de rosto escondido do destino que os fez nascer no Portugal de coração escancarado ao coitadinho, mas cheio de esquemas onde só vinga quem correr a alistar-se num qualquer partido (ia a dizer seita). Propus aos rapazes guarida cá em casa enquanto a vida não se organiza de outra forma. Sou extremamente sensível a quem trabalha honestamente e com o seu trabalho não almeja a felicidade de uma vida digna e equilibrada. 

         - Anda aí o senhor Luís a gradar a terra. O terreno mesmo em frente que é maior do que este, está à venda. A pouco e pouco, o mundo que conheci quando aqui cheguei há quase quarenta anos, está a desaparecer. Vão uns, instalam-se outros, mas nada se assemelha àquele universo de sombras e dias florescentes, espaços abertos, manhãs desanuviadas, dias claros e frios, fumo a sair das chaminés, duas ou três famílias, caminhos de terra batida onde só passava o meu carro e os tractores do meu vizinho. Só o silêncio me parece intacto e é nele que repouso a memória e me apetrecho do que há de mais valioso na vida: a presença divina que na vastidão do silêncio desenroupa a resplandecência das horas e dos dias. 

         - Fui à piscina. Também hoje tive uma faixa só para mim. A um canto, contudo, um feixe de mulheres enormes, grandes rabos, coxas gordas, mamas que chegam aos joelhos, quase não se moviam pese embora os gritos da técnica. Como será aquele pagode todo nu nos balneários?! Um pesadelo, um divertimento ou um susto? Não quero saber. 


sábado, julho 11, 2026

Sábado, 11.

Pois foi, tombei no Corte Inglês. Quando deixei o restaurante, entrei no super para observar a gama de queijos franceses e adquirir um ou outro. Acontece que o chão estava com uma mancha de água que não enxerguei devido ao material escolhido pela empresa que julgo nem antiderrapante é. Bati com a anca da perna direita, essa que os homens maduros e os jovens imberbes cobiçam, uns e outros com desmaio suave no olhar, a cobiça secreta disfarçada de curiosidade, e ali fiquei uns minutos porque a pancada sentia-a intensa no osso e as dores não me deixavam erguer. Logo um casal me socorreu e de repente tinha em meu redor seguranças, fiscais e uma enfermeira chamada de urgência. De pé verifiquei que o osso não estava partido e a bacia também não, embora as dores fossem muitas, mas a pronta chegada do meu anjo da guarda me tivesse protegido do pior. Trouxeram uma cadeira de rodas, sentaram-me nela e aí vou eu com indisfarçável curiosidade atravessando andares e espaços ante os olhares dos clientes e a minha admiração por observar o centro comercial como um papa que cruza multidões e benze todos e cada um, até ao gabinete de assistência médica aos funcionários no fosso do edifício. Aí peço à jovem enfermeira que me observe, desço as calças e olho também para a perna sólida que arca não só com a outra como com todo o corpo. Não vejo uma nódoa, aparentemente está tudo natural. Questiono então a rapariga que devo fazer se daí a dois ou três dias tiver queixas. Ela não sabe responder, mas vai chamar a médica de serviço. Espero um tempo deitado na marquesa, depois sento-me e, como não gosto de estar sem fazer nada, saquei da mochila as páginas do romance e pus-me a fazer correcções. Quando a Dra. Natália entra, decidida, visivelmente mulher de armas, uns sessenta anos activos, ordena à enfermeira que vá buscar uma folha e uma caneta para fazer o relatório da ocorrência. Pede-me que me volte a deitar, baixe as calças (ajuda na operação “não tenha vergonha”), desce-as até ao nível do zizi, apalpa-me a barrida, a anca, e de tudo o que vê ou sente, vai traduzindo para a outra que anota na folha. “Não vejo nada de especial. Está até muito bem, musculado e vivo.” Replico: “Obrigado, mas o que eu quero saber é se o Corte Inglês tem seguro para ocorrências como esta.” Responde: “Eu sou muito má e não vejo da minha análise nada de cuidado no futuro.” De seguida: “A obrigação do Corte Inglês em casos destes é chamar o 112.” Olho-a de frente: “Quer dizer o C.I. descarta-se das suas responsabilidades, atirando para o SNS o desastre que lhe pertence por inteiro por negligência.” Olha-me de frente, ajeita o cabelo grisalho que lhe tomba para a testa: “Escute, eu pertenço a uma empresa que trabalha para o Corte Inglês, é nessa condição que me encontro aqui. Não tenho nada a ver com o problema, apenas assisto aos empregados.” Não me calei e prossegui, argumentando que julgo ser obrigatório as grandes empresas terem seguro para acudir a desastres que aconteçam dentro das suas instalações e de sua legitima culpa. Saímos os três do gabinete e na sala onde esperavam funcionários por consulta, ela disse para me sentar uns instantes e voltou ao gabinete onde decerto a esperava um doente. Aguardei uns dez minutos, quando a porta do consultório se abriu e ela avançou para mim: “Feixe os olhos, estenda os braços e leve o dedo indicador ao nariz, primeiro o direito, depois o esquerdo.” Estava na minha frente, atenta aos movimentos. De seguida estende-me a mão numa despedida. Disse-lhe: “Obrigado, doutora. Adoro pessoas rijas, duras, são profissionalmente as mais competentes.” Riu-se, ri-me. Todavia, espero enviar um e-mail às autoridades competentes, a saber se é de lei que uma empresa com a dimensão da espanhola, possa estar isenta de seguros próprios e desembaraçar-se dos infelizes quando acidentes como este acontecem dentro das suas instalações. Os lucros são delas, os acidentes do erário público. 

         - O tempo mudou. O dia acordou sem acordar com tudo. Está até um ligeiro frio, o sol ainda não apareceu, diria que estamos no limiar do Outono. Os senhores da meteorologia, oferecem-nos mesmo alguns aguaceiros e descida acentuada de temperatura. Depois dos calores de morte, este interregno é uma bênção do Céu.

 

sexta-feira, julho 10, 2026

Sexta, 10.

O ministro da Administração Interna não governa a partir do gabinete, fá-lo diante das câmaras de televisão. Temo-lo todos os dias, de manhã à noite. Não será socialista, mas adquiriu maravilhosamente a táctica dos discípulos de António Costa. 

         - Vai por aí uma celeuma a propósito dos resultados dos exames. Não sigo a questão porque não me interessa. Se outro fosse que estivesse à frente do Ministério da Educação, faria semelhante ou como no passado ainda pior. As oposições reclamam uma palavra do primeiro-ministro, mas este anda desvairado num vaivém aos EUA e ao Mundial de Futebol. O seu adjunto, líder parlamentar do PSD, em defesa do silêncio e das constantes idas do chefe ao Mundial, saiu-se com esta que demonstra o provincianismo e o ridículo populista que invade o governo de Luís Montenegro: “Somos povo.” Como quem diz, o povo ama o futebol e até se encontrou lá com o seu orgulhoso primeiro-ministro. 

         - Voltou tudo à estaca zero, isto é, os bombardeamentos ao Estreito de Ormuz e dos iranianos a interesses americanos nos países vizinhos. Que corja de malucos governam o mundo! Os combustíveis, durante a curta fase de sossego, não baixaram; agora vão de novo galopar. E lembrar-me eu do contentamento de Macron e do homem que está à frente da NATO quando o tarado do Trump assinou o pseudo-acordo de paz! 

         - A vida de hoje é uma complicação. É falso que as novas tecnologias e a IA que a pouco e pouco se instala, nos trouxeram simplicidade de métodos, facilidade de resolução dos problemas e por aí adiante. Pelo contrário, como se assiste em nossos dias, o diálogo, o confronto salutar, a informação que olhos nos olhos nos aproxima, nos humaniza, nos devolve a doce presença do outro, praticamente desapareceu entregue ao contacto distante, sobranceiro, ao desleixo das repartições públicas e privadas, à frieza de um e-mail, ao toque de um algoritmo, que virou o ditador à distância e altivo que tudo impõe, recusa contestação, e é por todos temido, respeitado, arrogante. Ainda por cima, quem pela idade, falta de formação, desprezo pela tecnologia, odeia “esta uniformidade que anula as diferenças” como diz na encíclica Magnifica Humanitas o Papa Leão XIV, recusa a imposição do diálogo de sombras, está votado ao ostracismo, ao abandono, à solidão absoluta. Esta observação, ocorreu-me hoje de manhã quando tive de pagar o iuc forçosamente pela Internet. Que mundo bizarro, metálico, uniforme, estudado para obter maiores lucros, dispensando a multidão de empregados e mangas de alpaca que os negócios desprezam cada vez mais satisfeitos com o futuro que a máquina lhes oferece. 

         - Estive a falar com amigos que vivem em Almada onde a água desapareceu por encanto devido à incompetência e desprezo pelos cidadãos da socialista presidente de câmara. Há mais de uma semana que os habitantes deixaram de ver correr nas torneiras o bem essencial à vida. Nestes dias de temperaturas elevadas, imagino a angústia dos que vivem sem poderem tratar da sua higiene, alimentação, cuidar dos filhos e idosos como se de súbito o tempo das cavernas tivesse surgido atirando-os para a estrumeira das ruas e dos dias enxameados de desespero.    

         - Uma grande catástrofe ocorreu no Sul de Espanha, na região de Almeria. A queda de uma linha eléctrica está na origem de um fogo assustador que, devido ao calor, se estendeu por uma vasta área residencial. Até ao momento estão contabilizados 11 mortos e pelo menos 23 desaparecidos. As autoridades receiam que o número de mortos possa vir a crescer. 

 

quinta-feira, julho 09, 2026

 Quinta, 9.

Ontem lá fui fazer o Eco-Doppler das carótidas e vertebrais. Nunca tinha feito um tal esplendor e foi preciso começar a avançar na idade para conhecer tanta coisa que se esconde no nosso corpo e o faz funcionar na maravilha. Foi a minha excelente médica Dra. Vera Martins, que quis juntar aos exames prescritos pelo Dr. Octávio Simões na sequência do desmaio de Abril passado que me aconselhou. Deitado na marquesa, durante pelo menos uns vinte minutos, a médica muito jovem, utilizando um aparelho de ultrassom, foi percorrendo o meu pescoço, primeiro do lado direito, depois do esquerdo. O que me chegava era maravilhoso e assustador, pois ouvia uma espécie de pistola ou jacto de sangue a disparar com força do coração para o cérebro. Quando a médica deixou a zona cervical direita, preocupado em lhe dizer o que pensava na essência que as vias estavam absolutamente desobstruídas, ela adiantou-se e disse da maravilha que encontrou nas artérias do meu pescoço. Estou à espera do relatório final, mas tenho quase a certeza que a idade ainda não fez estragos nesta parte do meu corpinho. Aterosclerose para que te quero! 

         - Depois fui almoçar ao Corte Inglês. Desci do restaurante para regressar a casa, sem que antes tenha entrado no supermercado. O que me aconteceu relatarei noutra altura, mas é a prova provada que no melhor pano cai a nódoa. 

         - Esta casa parece a casa de Ali Babá. Volta que não volta, sou surpreendido pelo meu passado revoluto, de cada gaveta pode sair a reconstituição do que fui, as memórias que se esconderam por vezes durante anos no fundo de um armário, a súbita revelação da vida passada enquanto motor da presente. Eis dois exemplos.  

O meu cartão de Produtor do programa "Nova Musa" que durou quatro anos, aos domingos. 

Não me lembro em que ano me foi atribuída a distinção de melhor programa. 


terça-feira, julho 07, 2026

 Terça, 7.

Estamos safos desta perseguição permanente. Portugal não conseguiu passar da segunda fase dos mundiais de futebol, a Espanha afastou-o. Ufa! O Planeta agradece e eu também porque a polição era medonha e expunha a nossa pequenez e mediocridade à usura da FIFA para quem o dinheiro nunca sacia. A verdadeira natureza do desporto onde estarás tu? O arrogante e egocentrista Cristiano Ronaldo que eu vi jogar nos espaços noticiosos da SIC, parecia, na realidade, o “avô 7” como dizem os aficcionados do futebol desiludidos com a insistência da vedeta em querer ter a última palavra quanto ao abandono dos relvados. Éramos os maiores, tínhamos os melhores jogadores do mundo, Portugal ia ser grande, iria à final e sairia vencedor, assim gritava o português comum, pobre tipo, para quem o futebol e os seus ídolos são a força única da nação. E mais uma vez, não passámos de uns coitados, sem saber nem cultura, eternos patetas alegretes que se satisfazem com uma mão cheia de coisa nenhuma.   

         - Ontem, no metro, o cheiro nauseabundo dos corpos, era medonho. 

         - Quem respondeu ao propagandista ministro da Administração Interna, foi o presidente da Liga dos Bombeiros, ante a catástrofe dos incêndios tão árdua e infelizmente igual ao que aconteceu no ano passado e nos anteriores. Diz o senhor dos bombeiros, que “Portugal continua sem estar totalmente preparado para cenários complexos” e acrescenta “que é preciso um comando nacional de bombeiros que dê mais autonomia dos profissionais”. Nos últimos cinco dias, arderam 15 mil hectares de floresta e terrenos agrícolas. 

         - Entre nós tudo se joga diante das câmaras de televisão. O Governo governa para as câmaras, os partidos disputam-se nos ecrãs, se um autoclismo deixou de funcionar numa escola ou no Parlamento, logo se cria uma notícia, matéria importante para derrubar o primeiro ministro. A guerra entre partidos é objecto de disputas diante dos espectadores acomodados em suas casas, risonhos e felizes, por assistir à “democracia a funcionar”. Digam-me se souberem: há alguma estação de televisão na Europa civilizada que dedique hora e meia a duas horas de noticiários todos os dias? Que eu saiba, não. 


domingo, julho 05, 2026

 Domingo, 5.

Os fins de semana são terríveis. Sobretudo quando o calor aperta e as árvores e flores sofrem tanto ou mais que nós com esta canícula que não nos larga. Aproveitando o quadro bi-horário, toca de regar com começo às seis da manhã. Durante hora e meia, andei a puxar a mangueira, correndo não só as flores que contornam a casa, como as árvores de fruto mais distantes. Nesse entretanto, todas as janelas da casa foram abertas de modo a arejar as divisões e a torná-las mais frescas. Depois, de bastão em punho, decidi dar uma volta pela quinta coisa que não acontecia há algum tempo. Que desilusão! Vou ter de falar com o senhor espalha brasas que adora trabalhar com máquinas porque é pago a dobrar, quando a machada e a tesoura fariam milagres na beleza do espaço. O resultado deste sufoco é bem visível no aspecto das hortênsias: estão todas com as pétalas sensíveis queimadas. É assim todos os anos. A partir de Julho o sol veste-as de um luto acastanhado.  

         - O Black sabe-se defender. Antes não parava no interior, agora aqui fica horas a fio a dormir. Normalmente na cozinha onde o aparelho de ar condicionado está ligado. Escolhe uma cadeira mesmo em frente do sopro frio e aí fica todo o santo dia, petiscando e dormindo, quase nunca precisando de ir ao wc público. 

         - Longa conversa com a Gi. Diz-me que quer cá vir com o Nuno passar uns dias. Falámos sobre o trabalho que a idade dá ao instalar-se sem demora nem aviso. Ela está como eu. Tanto um como outra, sonham com um modesto apartamento para fim de vida. Só que, por exemplo, a casa dela na Foz deverá valer seis milhões, esta a última oferta foi de dois milhões. Ainda nos divertimos a imaginar quanto será um milhão.  


sexta-feira, julho 03, 2026

Sexta, 3.

Os fogos estão por todo o lado. Segundo um aflito com o fogo à porta, “isto é igual ao ano passado, os bombeiros andam tontos, nada se alterou”. Com efeito, a nossa tragédia costumeira, está estampada nos telejornais daqui e de algumas televisões estrangeiras. Eu vi um fogo medonho a ser combatido apenas por três soldados da GNR. Os dias somam-se às noites e as populações não descansam e o calor é ainda mais insuportável. Isto quando muito cedo o actual ministro da Administração Interna, inundou as estações de televisão e os jornais com avisos, promessas de estratégias seguras, moralidade e segurança, toda a gente bem preparada com planos regionais, competência e aprumo para enfrentar as catástrofes, prontos por assim dizer “que venha ele que nos cá estamos para o enfrentar”. E vai-se a ver o homem das secretas andou em propaganda e nada de extraordinário se vê. Eu sou dos que intimamente confiei nele, mas depressa me desiludi. Bugalhito parece a derradeira chama de fantasia lançada por Luís Montenegro, todavia suficientemente convincente para pegar fogo aos que chegam ao governo. Toda esta gente que começou a governar com acção e poucas palavras, depressa ultrapassou os socialistas que na propaganda são mestres catedráticos. 

         - Não me saem da mente as imagens dos terramotos na Venezuela. Aquela pobre e infeliz Presidente de um país rico em petróleo, e aquele que indevidamente está preso nos EUA a mando do louco Trunp, mantinham um país rico nas piores condições sociais, sanitárias, hospitalares, económicas. Venezuela é para todos os efeitos um país pobre, sem capacidade para dar dignidade ao seu povo, saúde e instrução, uma vida decente. Esta calamidade veio na pior altura e os infelizes, os tais 11 mil feridos, não terão assistência de qualidade nem um futuro risonho. Aos perto de três mil mortos, 13 mil desalojados, o Governo dependente da América, resta-lhe renunciar ao essencial a favor dos milhões de hectolitros de petróleo que vão rumo ao capitalismo louco dos Estados Unidos. Trump e o seu gang, ainda vão lucrar com a reconstrução do país. Entretanto, como imagem que subjaz da imoralidade corrente, polícias foram apanhados a roubar o que o sismo deixou em pedaços.

 

quinta-feira, julho 02, 2026

Quinta, 2 de Julho.

Ontem acordei com tonturas. Mesmo assim, meti-me no autocarro, depois no metro e de seguida num táxi para chegar ao Amoreiras onde o ACP me havia marcado estar para renovação da carta de condução. Cheguei com tempo e pude almoçar por lá, a temperatura óptima, o ambiente muito igual ao que eu conheci quando o célebre arquitecto Taveira construiu o edifício e fez com ele moda e ponto obrigatório de meia Lisboa. Nos anos Setenta, Mário e eu, morando no Príncipe Real, tínhamos o hábito de lá ir fazer compras, almoçar ou simplesmente passear no vasto interior de uma criação original. Que bem me senti eu entre memórias felizes e o regresso ao tempo de todas as magias e cintilações! Apetecia-me dizer que até o almoço, no mesmo restaurante de então, servido pela mesma proprietária, o preço não oscilou em quarenta anos. Se bem me lembro, a última vez que lá estive, ainda Marcelo Rebelo de Sousa não era Presidente da República e quando entrei na livraria Bulhosa, ele topou-me e avançou para mim num cumprimento afectuoso. Carpe diem, Helder, carpe. 

         - Souto Moura foi condecorado em Barcelona com a medalha de ouro da União Internacional de Arquitetos. O Presidente da República António José Seguro esteve presente e a guarda de honra pertenceu aos célebres Mossos de Esquarda da Catalunha. Que delírio tal designação!... Bref. O discurso do Presidente, foi lido em inglês! Estas fraquezas, assim como o vestido vermelho da mulher, perdão esposa, no 25 de Abril, desculpam-se porque sua excelência está ainda a saborear o cargo... Voltemos ao nosso excelente arquitecto nortenho. Ele aproveitou e bem para fazer comparações entre a habitação acessível no tempo do Estado Novo, que disse não ter sido um estado social, com o regime que hoje temos, onde dinheiro não falta, pessoas necessitadas de abrigos condignos muito menos, espaço idem, quem estude, elabore projectos e faça construir temos tudo isso, só parece faltar vontade política. Ele desabafou: dispensava todas as honras para fazer avançar projectos de habitação social que tão necessários são. Eu, quando o voltar a ter a meu lado na Brasileira, preveni-lo-ei para não voltar a fazer tais comparações, porque será logo apelidado de direita ou, quando muito, de fazer o jogo da dita cuja. 

         - O ditador que está à frente da Federação Russa, expelindo raiva e ódio cheios de espuma, furioso contra Zelensky e o seu país onde abunda gente inteligente e patriótica, não pára de castigar a Ucrânia. A noite passada foi das mais ferozes, traduzidas em 17 mortos e para cima de 90 feridos em ataques a Kiev. 

         - Aqui os termómetros acusaram 42 graus. Não pus o nariz de fora depois de ter regado pelas sete da manhã. Black esteve todo o santo dia a dormir, com intervalos para ir à cozinha petiscar e beber água. 

 

terça-feira, junho 30, 2026

 Terça, 30.

José Sócrates a quem não falta dinheiro aos milhões, ele que disse que é pobre e vive do montante de 2200 euros de aposentação, não se sabe bem (ou sabe-se) onde vai arranjar tanto dinheiro para recursos, processos contra os tribunais que o julgam por gatuno e outros desvarios. Anda louco de contentamento porque o processo que interpôs contra o Estado por violação do segredo de justiça no processo Operação Marquês, deu-lhe razão.  Assim o Estado foi condenado a pagar-lhe 15 mil euros “por má administração da justiça”. Este homem é uma personagem romanesca num país de fadas, criado por ele, e que ele manobra a seu belo prazer. E dizer-se que este socialista de gema, foi primeiro-ministro deste pobre país com séculos de história! Dá para acreditar? 

         - Quem se agiganta e não me digam porque razão eu o agrego ao socialista Sócrates, é o nosso aperaltado Bugalhito. Luís Montenegro pediu-lhe que subisse mais uns quantos degraus, e o lustroso aí vai até aos píncaros de primeiro-ministro. Sem mulheres que o afrontem por medo dos enxovalhos físicos, com a palavra salmodiada na ponta da língua, a vaidade estampada no rosto duro, traçado a cremes e pomadas que dão brilho à pele, os memes aprendidos quando palestrou nas televisões, sem conteúdo cimentado, aí vai ele todo laricas. Bugalhito não tem ideias - tem pressupostos. 

         - Calor. Fui à piscina, estava vazia. Eu era o único nos 25 metros de betão, se tivermos em conta as madames medonhas que ocupavam com o seu peso uma outra parte, ninguém mais aproveitou para se refrescar e ginasticar. De facto, esteve uma brasa. Todavia, é em casa que estou bem, porque a construi com sabedoria e arte. Aqui está sempre fresco (no Inverno acolhedora), com as portadas encostadas, as janelas abertas quando acordo, todo este espaço é um oásis de bem-estar. Começa porque ergui em toda a moradia duas paredes paralelas, com uma caixa de ar de 6 cm, um produto isolante de baixo a cima, o que não permite deixar entrar o frio como a humidade, mantendo uma temperatura constante. É nesta semi-obscuridade abraçada ao silêncio igual quando há frio ou calor, que as horas deslizam nos braços eternos da felicidade. 

         - Vou ter de me acautelar, diminui de peso para 62 kg. O problema é que detesto comer e com calor tenho tendência a comer menos. Depois do desastre de Abril que o estômago esteve no centro, evito restaurantes, comida cozinhada a granel, acepipes, etc. Há só um lugar que o meu estômago não barafusta: o restaurante do Corte Inglês.  


segunda-feira, junho 29, 2026

Segunda, 29.

Interrogo-me e peço a Deus que nos poupe a tragédias como a que ocorreu na Venezuela. Se lá é o que se vê, aqui seria bem pior porque os que passaram pelo poder, PSD e PS, nunca se importaram com o nosso futuro, antes os animou e anima o poder pelo poder, a importância de suas excelências, a gestão do dia a dia. Estratégias e planos nunca foram o seu forte. Costa costumava dizer que ele fazia política - os outros executavam-na. Esperto, aproveitou e hoje está sem preparação nenhuma no lugar que os confrades lhe ofereceram. Nós ainda não nos vimos livres do caos em que ele deixou o país. Entretanto, o número de mortos e feridos não pára de aumentar: 1450 falecidos, 3158 feridos, 12760 desalojados.  

         - Confesso que tenho pena dos meus amigos que se submetem a uma vida fininha, sem nervos, sem vontade própria, rendidos ao deixa andar como se já não vivessem e tudo o que ainda usufruem lhes é completamente indiferente. Eles não têm uma companheira em casa - têm uma oficial do exército, uma comandante das forças vivas de terra, mar e ar. 

         - O conflito entre Irão e EUA recomeçou (se é que tenha alguma vez acabado). Os bombardeamentos e bloqueios no Estreito de Ormuz estão como sempre estiveram salvo em momentos idílicos, festejados pelos pobres políticos europeus, quando da cimeira na Suíça e França. Está tudo louco e ninguém compreendeu ainda que se encena uma guerra de largas proporções. Nunca o mundo esteve como está hoje, com tantos déspotas a vigiarem-se, a estudarem-se, a ensaiarem a saída mais oportuna para a terceira guerra mundial.

         - Prometem-nos para toda a semana temperaturas a rondar os 40 graus centígrados. Por aqui, as alvoradas começaram para regas e pequenos trabalhos exteriores. Ontem, fiz quatro frascos de compota de ameixa e um bolo de noz. Dono de casa e proprietário de quinta, não tem vida fácil. Mais a mais o que se acrescenta nos próximos dias: piscina amanhã, quarta renovação da carta de condução, quinta espalha brasas, sexta de novo em Lisboa ao encontro de Fr. Hélcio, e a escrita, a leitura, etc. Para uma vida assim, exige-se disciplina, força de vontade, prazer de viver.

         - Justamente, enquanto o calor não começar a chamuscar as pétalas delicadas das hortênsias, eis como o eu as trato e elas me devolvem a serenidade quando nelas pouso o olhar ao entardecer e ao amanhecer.  

 




domingo, junho 28, 2026

 Domingo, 28.

Estive a ler uma série de cartas que Charles De Gaulle escreveu aos filhos durante o rude período da II Grande Guerra. Vou transcrever para aqui duas delas, porque revelam o contraste existente entre os políticos de hoje e os de então, o imenso abismo cultural, civilizacional, a perspectiva do futuro, a identidade nacional que coexistia neles com a religiosa, a familiar, os valores, isto é, a fabulosa dimensão dos políticos e da política, grandes obreiros da Europa que perspectivaram o futuro como sentimento de identidade histórica, quando comparados com esta esventre de governantes de um vazio, de uma vacuidade impressionantes, de um analfabetismo, sem ideias, centrados na oportunidade pessoal, na vaidade, na propaganda, no poder pelo poder, transformando a política numa batalha de idiotas sedentos de brilho e ódio. 




sábado, junho 27, 2026

Sábado, 27.

Estamos sempre a aprender. Ontem, pelas dez da manhã, entrei no autocarro com destino a Oriente. Ao todo os passageiros para Lisboa, seriam uma dúzia. Ainda o veículo não tinha arrancado, entra um controlador. Pede-me o passe e eu digo-lhe que tem um trabalho inútil, porque todos os passageiros ao entrar são obrigados a apresentar o bilhete ao condutor. Ele ri-se, saca do bolso dois passes e diz-me: “Estes dois são desta manhã, acrescentando: "o número de famílias que só compra um passe social e depois é com ele que todos se deslocam à vez, não pára de aumentar.” Ante a minha surpresa: “E agora os filhos, como estão de férias, os pais passam-lhes o passe e eles divertem-se deslocando-se de Palmela para Lisboa ou outros sítios da margem sul.” Foi ao fundo o carro e quando voltou, continuou: “Ainda se compreendia quando os passes eram caros, mas ao preço que eles estão...” Respondo: “Não diga isso pela sua rica saúde. Olhe que ainda o tomam por um tipo de direita. O trabalhador tem sempre razão e se não a tiver a esquerda que temos encarrega-se de o defender.” Riu-se, ele e o condutor.  

         - As ajudas à Venezuela chegam a conta-gotas devido à imensa dificuldade de transportes. As imagens que nos chegam do norte de Caracas, são impressionantes, acompanhadas dos números que não param de crescer: 188 mortos, 1530 feridos. Mas também a surpresa que a vida nunca deixa de nos encantar. No meio dos escombros, saiu uma mulher que estava em trabalho de parto e o bebé nasceu nas mãos dos socorristas.  


         - Starmer, o primeiro-ministro britânico, abandonou o cargo. Tinha simpatia pelo homem e achava-o competente. Mas os comentadores dizem que ele foi péssimo na política interna e óptimo na política externa. Como Sanchéz, Macron e passo. 

         - Ontem passei na Brasileira. Fui recebido como se fosse o rei de Portugal. Todos me vieram cumprimentar e com todos travei pequenos diálogos e ouvi grandes discursos acerca do que resta dos tertulianos. Um destes, travou-se de razões com o pintor de um dos quadros premiados pelo conhecido café. O escândalo foi tal, que turistas e nacionais, assistiram, estupefactos aos conhecimentos técnicos e artísticos retratados aos berros, como se ele fosse a sumidade nacional na matéria. Que ridículo! Céus, do que eu me livrei!  

 

quinta-feira, junho 25, 2026

 Quinta, 25.

Há um advogado estrangeiro de seu nome Christophe Marchand (o apelido assenta-lhe como uma luva) que cobra fortunas a descobrir na lei os alçapões por onde iça os criminosos directamente para os altares das catedrais nacionais. Recentemente um que está preso, em breve será libertado. O outro, que anda há mais de dez anos a ser julgado, também é cliente do tal causídico que lhe cobrou para cima de meio milhões de euros, falo de José Sócrates, pagos pelo primo ou amigo empresário de Leiria, porque o homem, coitado, com 2.200 euros de aposentação, não pode, naturalmente, dar-se a tais ousadias. O tribunal, devia antes ouvir o João Corregedor e colher dele os motivos da inocência do socialista ladrão. Numa única sessão, ficava o assunto encerrado e para a conta bancária do ex-deputado do PCP, entraria o suficiente saído da conta do velho amigo Carlos Santos Silva, empresário do Grupo Lena. Que país! Que justiça! Que democracia! Tomam-nos por idiotas e mentecaptos, enquanto o carrocel de gente a enriquecer à custa daqueles que não podem aceder à justiça, não pára de crescer e as cadeias abrem-se de par em par para deixar sair os injustiçados. 

         - Pelo menos dois sismos de magnitude 7 na escala de Richter, abalaram a Venezuela. Caracas e La Guaira foram as cidades mais atingidas, onde vários edifícios colapsaram, e estima-se terem feito muitos mortos e milhares de feridos. Por agora estão confirmados 164 mortos e para cima de mil feridos. O mundo mobiliza-se para ajudar a Venezuela onde a vida já não era confortável, mas que agora ficará muito pior.   

         - Apanhei dois cabazes de ameixas pretas: um para fazer compota, outro para o espalha brasas senhor José Manuel.

         - Black, embalado pelo tempo chuvoso, dormiu toda a manhã no sofá do salão. Fui à piscina e voltei e ele nem deu pela minha saída, nem pela minha chegada. 


quarta-feira, junho 24, 2026

 Quarta, 24.

As temperaturas não param de subir. Toda a Europa sofre horrores com os termómetros a aumentar em flecha: Londres, Amesterdão, Paris com 40 graus e várias mortes por afogamento no Sena de quem queria escapar ao sufoco, Madrid, Roma, Viena. As noites aqui são particularmente difíceis obrigando-me a dormir de janelas escancaradas e colónias de mosquitos de atalaia. Esta noite, tendo-me esquecido de levar para o quarto a garrafa com água congelada, desci para a retirar do congelador. A noite estava serena, como se o calor se tivesse ausentado para deixar passar um fino assobio de ar fresco que se insinuava no vasto espaço. Quedei-me a ouvi-lo, a perscrutar o que me contava a noite naquele resto de horas antes da alvorada. Mas o silêncio era pesado, cirandava pelas divisões, povoando os muros, enchendo os minutos de um mundo que não se dá a conhecer ao dia. 

         - Posso dar a minha opinião sobre a Selecção Nacional e o resultado diametralmente oposto à última partida no Mundial de Futebol? Posso? Aqui vai. Do pouco que vi, do pouquíssimo que percebo de futebol, acho que foi fácil vencer os fracos. A equipa era muito fraquinha, fez o que pôde, e o brilho que levou o avô Ronaldo e os seus pupilos a enobrecerem-se, não me convenceu. A hora da verdade ainda está para vir. Tenho razão? 

         - Estou a ler a encíclica Magnifica Humanitas de Leão XIV. O exemplar foi-me emprestado e eu não sei ler sem anotar, sublinhar, folhear várias vezes um livro facultado. Todavia, do que tenho lido, incentiva-me a parar e ir à livraria comprá-lo. A incidência vai para a Inteligência Artificial e a sua aplicação (ou desumanização) no nosso quotidiano colectivo. 


terça-feira, junho 23, 2026

 Terça. 23.

Estive a tomar café com a Maria José durante o qual pusemos a conversa em dia. Ela foi operada a uma catarata do olho direito há três dias, mas já retomou o trabalho. Corajosa. Sobretudo quando, sendo escultora, tem de lidar com gesso, pedra, madeira na construção das suas obras. Não conheço ninguém tão activo como ela. Os seus oitenta anos, não a deixam descansar e trabalho não lhe falta. Perdeu o atelier que tinha numa quinta um pouco longe daqui, e pensou instalar-se aqui comigo. Eu não fiz nenhuma pressão nesse sentido e ela acabou por perceber e encontrou poiso em Quinta do Anjo. 

         - A ladroagem está por todo o lado. Quando é a direita a roubar, a esquerda desce à rua e julga-a na praça pública; mas quando é a esquerda protesta que é invenção do fascismo, das forças da reacção. Outro dia, no término relacional com o João Corregedor, quando eu disse que José Sócrates era o maior ladrão de todos os tempos ele, irado, mandou-me na linguagem própria dos camaradas proletários básicos àquele sítio. Mas os factos falam por si. Portugal tem sido governado por cliques sucessivas de corruptos, esquemas, ligações a máfias escondidas, compadrios, dinheiro a rodos passado por debaixo da mesa, ou escondido em offshores e até em gabinetes governamentais como aconteceu com o amigalhaço de António Costa que o abafou no seu gabinete ministerial de S. Bento. Eu costumo dizer que praticamente os tribunais só julgam a classe política e empresarial, são elas associadas que movimentam esforços e somas astronómicas de dinheiro e investigação à justiça. Os ladrõezinhos de pouca coisa, desapareceram. Em Portugal os dois partidos que têm tido o poder, também se têm governado à vez. 

         - Vem isto a propósito do que se passa em Espanha. Os socialistas por lá não são muito diferentes dos de cá. Assim, o braço direito de Pedro Sanchéz, foi condenado a 24 anos de prisão por esquemas fraudulentos quando da Covid-19. 24 anos! Os nossos tribunais são mais brandos, todo o mundo se conhece e, portanto, a actividade humanitária dos advogados faz de criminosos santos de altar. Num país de terceiro mundo, é assim que as coisas funcionam e ponto final. 

         - Calor abrasador. Fui ao tanque electrónico lavar a roupa de duas semanas. Lá encontrei um rapaz de vinte anos que vive só e tem que se ocupar de si; uma estrangeira que antes de meter a roupa na roda da fortuna, munida de uma data de produtos com esguiches, borrifava as peças antes de as pôr na máquina; e um homem à moda antiga, muito cuidadoso, dobrando cada peça como se fosse definitiva e guardando-a muito direita no cesto. Que mundo! 


segunda-feira, junho 22, 2026

Segunda, 22.

Eu nunca confiei no plano de Trump e do seu gang para o Irão - as evidências aí estão a dar-me razão. Trump é refém da situação que criou, a sua derrota é por demais evidente. O Irão e seus dirigentes, têm mostrado ser mais sólidos, persistentes na concepção que têm do mundo, preparados para todos os infortúnios. Em certo sentido, a América depende deles nos interesses mundiais que estão em jogo. Quanto a Netanyahu, o seu grande amigo, não passa de um criminoso que vai necessitar de larga pedalada para escapar ao cárcere. A destruição da Faixa de Gaza, é inaceitável à luz de qualquer realidade palpável. O Holocausto devia servir de comparação e alertar as nações para a crueldade de uma guerra desigual que tratou os palestinianos de carne para canhão. Vexados há mais de meio século, circunscritos a uma língua de terra sempre e sempre vigiada, espécie de prisão a céu aberto, humilhados e desprezados, nunca conseguiram ser um povo feliz, com um território seu e uma vida digna. 

         - Voltemos a agulha. Hoje, sentaram-se no metro, perto de mim - à frente, ao lado, nas traseiras - uns quantos rapazes pelos vinte anos em calções, com pernas nuas garbosas. Logo me ocorreu Julien Green que sofria e fechava os olhos para não cair em tentação quando lhe tocava, nos dias abafados de Paris, cenas como esta. Só que, se avistasse este espectáculo da juventude encalorada à moda de Lisboa, não precisava de desviar o olhar porque todos eles abundavam de pêlos – um horror para o escritor. Decerto nenhum deles tem namorada, porque hoje, também elas, só se abandonam à lascívia, quando eles se apresentam depilados... 

 

domingo, junho 21, 2026

 Domingo, 21.

“Raramente se escreveu moção tão tola e tão recheada de lugares-comuns. Com esta moção, o presidente do PSD e actual primeiro-ministro tem um único objectivo: o afirmar que não quer governar com o Chega nem com o PS. Que quer governar sozinho, ora com um, ora com outro, na esperança de ser derrubado, a fim de obter uma maioria absoluta. A nulidade desta ambição só tem um equivalente o da mediocridade dos propósitos.” Assino de cruz este parecer de António Barreto acerca de Luís Montenegro e do congresso do seu partido que decorreu este fim-de-semana em Anadia. Do mesmo, saiu a aberração de nomear o Bugalho para representante do partido em Bruxelas! Nunca me constou que o Parlamento Europeu tivesse um deputado oficial dos partidos nele representados. Eu adivinho a razão: Bugalhito queixou-se outro dia, suponho que ao Observador, que ninguém o conhecia em Bruxelas... 

         - O Chega depois de muitas promessas e piruetas trolarós, votou contra o pacote laboral. Nas galerias do Hemiciclo estavam os sindicados em força a assistir. Quando o impensável aconteceu, as bancadas do velho edifício explodiram de contentamento e vitória. O que me comoveu, não foi o projecto ir por água abaixo, foi as lágrimas quentes e sinceras do dirigente da Intersindical, Tiago Oliveira. Aquelas lágrimas traduziam envolvimento, sinceridade, paixão pela causa que defende, humanismo. 

         - A extrema-direita em tudo igual à extrema-esquerda, tinha um plano montado para virar o sistema democrático que temos e um projecto na clandestinidade: Movimento Armilar Lusitano. Associados estavam grupos neonazis, bem apetrechados com arsenal de armas, dinheiro a rodos, treinados e distribuídos pelas redes sociais onde recrutavam pessoal para as suas causas. Era objectivo liquidar “os indesejáveis” – Marcelo Rebelo de Sousa, Cavaco Silva, Luís Montenegro, Ana catarina Mendes, António Costa alguns mais. À frente do grupo, há dois militares, um elemento da GNR e um fuzileiro da Marinha. Estes são suspeitos de fornecer armas e munições ao chefe da PSP envolvido no caso, e ainda terem entregado fardas camufladas. Quatro arguidos encontram-se em prisão preventiva. 

         - Estive no consultório do Dr. Octávio Simões a apresentar-lhe o resultado das páginas de exames a tudo e mais alguma coisa. Não falei, deixei-o analisar o que me havia ordenado fazer e mais o que a minha médica de família acrescentou. Confesso, nunca vi um médico tao feliz. Parecia que aquelas análises eram suas e a revelação da sólida saúde sem que um único parâmetro se desviasse do sagrado mens sana in corpore sano de Juvenal, lhe diziam respeito. 

         - A propósito deste excelente clínico. Há três meses que não tenho dores nenhumas e o meu coxear trouxe-me o brilhantismo dos meus vinte anos. Todo este orgulho, foi-me restituído pelo Dr. Simões. Coxinho, coitadinho ainda não virou o coxinho, coitadinho, velhinho. 


sábado, junho 20, 2026

Sábado, 20. 

Às vezes suspendo-me a admirar as paredes desta casa, as estantes a abarrotar de livros, os quadros suspensos de onde desce toda a amizade e simpatia dos artistas que admiro e com quem convivi, os móveis estrategicamente colocados para serem presença quase humana do meu viver, a atmosfera de sossego indispensável ao labor quotidiano, a mesa onde escrevo voltada para o campo de onde brotam as árvores, ternas amigas com quem dialogo e colho energias para esta solidão abençoada ramificada num lugar eterno onde elas e eu permaneceremos para a eternidade. O cheiro bafiento da riqueza nunca aqui entrou, só o conforto esteve presente desde o dia e ano em que deixei de viver em Lisboa e me revigorei no contacto com a natureza que desde logo me abençoou. Não foi fácil aqui chegar, duros foram os meses a acompanhar a construção deste refúgio, a lidar com os operários e, sobretudo, com os empreiteiros que me tentaram roubar obrigando-me a comprar tijolos, sacas de cimento, material que lhes serviria noutras edificações de casas, com lucro a dobrar. Investi sobre todos os desaires, só, montado no escudo invisível que não sinto no corpo, mas me asperge de coragem e motivação. Todo o interior não fora concebido pelo meu amigo arquitecto João Biancard que desenhou a casa durante os nossos jantares, mas sim por mim, passo a passo, à medida que ia vendo crescer estes muros, abrirem-se divisões, cantos e recantos. Aqui suprimi uma porta para levantar uma janela, acolá mandei fazer um sobrado para instalar parte da biblioteca, as casas de banho forradas a azulejo com pinturas assinadas pelo meu saudoso amigo Osório e realizadas nas oficinas de Sebastião Fortuna. Para as janelas e portas, andei com o mestre Fortuna semanas a fio, a correr seca e meca em busca de cantarias antigas que se ajustassem às suas dimensões. Quando o esqueleto da habitação ficou pronto e os pedreiros e os aldrabões dos construtores partiram, entrou o meu querido e pesaroso Fernando Fernandes com a sua equipa de deficientes de grau máximo, mandando eu vir do Brasil o soalho para o chão, portas, janelas e portadas que este excelente artista assentou, montou, afinou e que até hoje, já lá vão trinta anos, nada mexeu ou desajustou e se conserva inalterável em cor, fendas e brilho apesar do seu físico deformado, o pescoço que quase não mexia, as dores que propagavam durante o penoso ofício de carpinteiro. Na semana seguinte à cobertura das tábuas no chão do rés-chão e quartos no andar de cima, veio o envernizador, trazido por um sobrinho, em cadeira de rodas. Para o primeiro andar, o rapaz conduziu o tio nos braços e depois levava-lhe a cadeira e desse modo o trabalho maravilhoso que ele executou ainda hoje refulge no aprumo e rigor da sua assinatura. Quando Fernando Fernandes, deu por findo o trabalho e se preparava para se despedir, eu inventei outro afazer e ainda um terceiro e foi ele que me disse que tinha de abalar porque outros clientes esperavam por ele. No intervalo, andaram aí dois estucadores meio loucos, que num só dia despacharam as paredes da moradia. Entretanto, desde o começo desta aventura, tinham passado cinco meses. Surgia, então, um sítio só meu para habitar e um enorme espaço de campo selvagem, com vinha e árvores de fruto, que tive de deitar abaixo quando a nossa querida então CEE proibiu que se fizesse vinho fora dos circuitos comerciais e as oliveiras que me davam um azeite excelente, mandou fechar os lagares onde eu levava todos os anos a colheita das azeitonas. Quando um pintor meio doido acabou a pintura exterior e eu interiorizei que era aqui que viveria, fui tomado de um pavor indiscritível. Deixar o Príncipe real onde vivi uma grande parte da minha vida, era obra de um louco. Todavia, de cada vez que jantava com o João Biancard, ele repetia: “Quando começares a levar os teus livros para Palmela, depressa te instalarás.” Dito e feito. Com a ajuda preciosa dos Amados e dos seus empregados, que trouxeram na carrinha da empresa da qual eram sócios, estantes e móveis, e mais o auxílio dos meus sobrinhos e amigos deles, num ápice o interior ficou acolhedor e o seu proprietário recolhido no conforto que desde logo aqui reina. A seguir ao Verão instalou-se o Outono e eu fora agasalhado com uma manta de silêncio. No caminhar do tempo a casa, qual cofre inviolável, foi guardando delírios, serões de conversas sossegadas, loucuras, amores feitos e desfeitos, noites no respaldo de muitos cansaços engolidos pela opacidade das horas, pensamentos construídos no limiar de angústias, pedaços de palavras atiradas ao fogo que arde na lareira, e sobretudo, a pouco e pouco, ergueram-se novos alicerces que sustêm a memória, a recordação do que não morre, o sopro que alimenta a vida que me coube viver, plena no ser solitário e inteiro que sou, onde crepita nos momentos o desespero e renasce de recônditos lugares a esperança de dias plenos de luz. Adoro este espaço, os pássaros que me acordam, os ventos mansos e demoníacos, a fruta que me alimenta, a sombras das figueiras, a lonjura que me aproxima de quem de mim precisa, o silêncio que não pára de dialogar, o murmúrio dos segredos que nem às sombras se contam, aqui densos, límpidos, cheios da ternura que embala as horas, os dias, os meses, os anos. Serei eu de novo feliz na terra que me viveu nascer? Habitar uma padiola, circunscrever-me a um espaço restrito, sem vista que me abrace quando tanto anseio por me perder de mim, voar pelo espaço sideral, eclipsar-me num sítio onde reine a felicidade que as coisas simples impregnam de doçura...  

         - Vai por aí uma berraria medonha contra Ronaldo. O “maior jogador do mundo”, o “craque eterno”, o “português mais famoso”, que subiu da pobreza à luxúria pateta que o isola dos demais, porque o resultado do seu talento é-lhe roubado pelo peso dos anos que não poupa ricos nem pobres, todos irmanados na mesma condição. Neste infeliz país o futebol é uma espécie de pancada forte no toutiço de cada português; assim também eu fui obrigado a acompanhar o drama nacional. Acontece que normalmente vejo os noticiários da SIC. Esta, como todas as televisões, não falam de outra coisa senão do Mundial de Futebol e mais precisamente do resultado da partida Portugal vs RD Congo. Ao infeliz ricaço chamam-lhe tudo: avô, velhote, empecilho em campo, estorvo para os companheiros da Selecção, e outros vitupérios desagradáveis. Eu nunca fui seu fan, embora o tenha visto algumas vezes a atravessar a Largo do Chiado no seu automóvel vistoso, de música aos berros para que o mundo sentado na Brasileira o admirasse. Nunca apreciei o seu físico construído, pomadado, o ar provinciano que o dinheiro e o conhecimento de Donald Trump e dos príncipes das arábias não ousaram abrilhantar, é arrogante, vaidoso, e muito menos o sex-appeal que mulheres e alguns homens cobiçam. No entanto, o pobre madeirense, tem algumas características que aprecio: é trabalhador, apesar de já “velhinho” não se dá conta do ridículo daquele pendericalho que desce da orelha esquerda, não tatuou o corpo com amostras de tapetes chineses como os companheiros, chora quando se emociona, e decerto, interiormente, sofre por não ser mais o ídolo que o alcandorou ao lugar passageiro da fama. Dizem as mulheres que com ele se deitaram (penso na americana dona dos hotéis Hilton?), que foi uma decepção, mas isso deve ser ciúme de loucas varridas pelo vazio dos seus corpos saturados dos cheiros nauseabundos dos adónis masculinos...