Sábado, 27.
Avanço a passos largos no livro pos-morten de Julien Green. Aquilo que sempre me pareceu nos volumes que fui lendo quando saíram em vida do escritor, é que aquele que ele perfilhou, Eric Green, havia sido seu amante. No volume anterior (o IV), o rapaz de vinte anos, é citado uma ou outra vez, mas sem aparentemente ter continuidade posto que o encontro ocorreu num engate de rua. Assim, no final dos anos Quarenta, Green vive uma vida quase seráfica, longe das apoquentações sexuais de que é dependente, apalpando os rapazes apenas com os sentidos, o olhar depositado no instante, a luta entre o pecado da carne e o objectivo maior de corresponder ao que Deus esperava dele (e de todos nós). Contudo, de súbito, nas páginas que vamos folheando, reaparece o jovem que se diz poeta, não gosta de trabalhar e “adora ser sodomizado como uma mulher”, e pretendentes com dinheiro e influência não lhe faltam. Green esforça-se por nos dar o seu ponto de vista relativamente a Robert o amor da sua vida, que conhecera quando os dois andariam pelos vinte e poucos anos (ambos estão nos cinquenta). Para Julien Green, Robert de Saint-Jean é o verdadeiro amor, aquele que não dispensa e é capaz de dar a vida por ele; Éros é a tentação física e carnal de que tem precisão diária, sem o qual a sua vida de artista esmorece. A descrição das relações sexuais entre ambos, estão explanadas na sua rude e singela absorção da realidade, nua e crua, por várias páginas de que mais adiante darei conhecimento. Dito isto, o começo dos anos cinquenta, foram também absorvidos pela escrita e montagem de peças de teatro que Green foi escrevendo. Não sei como se passam as coisas entre nós, mas o esforço, as contrariedades, as falsidades, a rumor e toda a sorte de entraves à montagem de Sul e L´Ennemi, só porque o tema era a homossexualidade, com toda a crítica contra, barrando a sua divulgação, os cartazes publicitários, a escolha dos actores, dos cenários, toda esta labuta monstruosa que ocupou o autor vários meses seguidos e fora muitas vezes atenuada pelas noites de sexo com Eric Jourdan ou Moumouse ou Tolita ou Éros, assim apelidado pelo escritor. Julien Green, tinha consciência plena de que o seu Diário, pela sinceridade, pelos planos morais e sensuais, pela escolha dos trechos, pela sua voz única e a sua frontalidade relativa aos colegas de metier e a toda a máquina infernal que faz e desfaz os ditos grandes escritores, seria uma obra original e nunca expressa em forma de livro: descarnada, violenta aqui e ali, honesta, reflectida, sincera e arrebatadora porque nela sempre esteve latente o pecado na forma como então era pensado e consentido, ofensa profunda a Deus. São Paulo trouxe ao mundo cristão esta concepção do destino humano fragmentado num conceito fornecido pela Natureza e, portanto, estranho à ofensa a Deus de quem dimana não só a nossa natureza divina como o que somos enquanto humanos. O que é pecado e ofende o Senhor, está expresso nos Evangelhos e neles apraz-me constatar que pouco ou nada é alheio ao que é humano e, nessas condições, obra de Deus. A Julien Green voltarei.
- A SIC andou por essa Europa fora a visitar cafés com história. Em Praga, entrou no Louvre onde Kafka costumava passar algumas horas e onde eu também entrei numa tarde de inverno embora fosse ainda Outono. Ali fiquei um tempo a alinhavar as impressões do dia no meu caderno de notas. Assim como o Kavárna, na praça com o mesmo nome, rodeado dos prédios antigos, acinzentados, petrificados no tempo e cuja nostalgia me tomou até à hora de me ir deitar. As viagens são o reverso da saudade.
- Neva fortemente na Serra da Estrela e noutros territórios do Norte. Aqui faz um frio de rachar e tenho duas lareiras acesas e o calorífero próximo da minha secretária. Com estas temperaturas e a nonchalance dos portugueses, os hospitais estão saturados de gente com gripe e males de respiração. Isto quando os médicos não abdicam de fazer férias e os hospitais hoje transformados em lugares de perigo com toda a sorte de vírus e bactérias.
- Dia iluminado pela graça. As horas decorreram calmas, o decore com as paredes cobertas de livros amorteceram o rigor que se avista lá fora. É um privilégio que nunca deixo de enaltecer este interior sereno, escolhido ao longo dos anos, umas vezes com dificuldades, outras levado nas marés dos entusiasmos que hoje são reflexo de uma natureza e anseio artísticos. Aqui o silêncio murmura, faz-se gente, companheiro caro à minha natureza solitária que se obriga a mergulhar fundo na essência primeira da nossa chamada a este mundo. Ninguém aqui chegou em vão. Mesmo aquelas e aqueles que foram feitos aos trambolhões, trouxeram consigo a esperança de conhecer um dia a sua selecção, a sua individualidade. Porque não fomos feitos em manada, somos criaturas caras ao Senhor, que se esmerou em nos fazer complexos e simples como dádivas que caem em cada coração, vivificam-nos.