terça-feira, setembro 22, 2026

 Terça, 23.

“É barganha particularmente perversa, por uma razão que devia ser mais vezes discutida – a descarada infantilização dos cidadãos, que não são tratados como adultos responsáveis, mas como crianças de mão estendida, dependentes das boas graças do Governo. O Estado falha todos os dias nos hospitais, nas escolas e num vasto conjunto de serviços públicos, cada vez mais degradados.” Quem assim fala, é João Miguel Tavares no Público de hoje, em crónica que se insurge contra os bónus que Montenegro decidiu dar aos velhinhos, coitadinhos, com reformas de miséria. Segundo o articulista que deve ser bem pago e por isso, quando não puder arrastar os pés, o primeiro-ministro da altura, far-lhe-á chegar uma reforma compatível com aquilo que afirma ser esmolas. O problema desta gente que se diz culta e responsável, é viver num outro qualquer planeta, onde não entra o reformado com 400 a mil euros, que são a grossa maioria dos aposentados no nosso querido país. Ele insurge-se contra o 13º e 14º mês, norma antiga que tanto jeito dá a quem aufere pouco. Mas vai mais longe: pede reformas para acabar com este feitio bem português de esmolar. Esquece-se que não são só os pobres que trabalharam honestamente toda a vida a esmolar, é o país inteiro que baila quando o dinheiro da UE entra a rodos no país. Mais. Do que ele devia falar quando fala de reformas, é do estado da Segurança Social e dos funcionários do Estado, e dos privados, que auferem várias reformas e quando casados, numa altura em que a mulher já não é dona de casa e aproxima-se a passos largos para se equiparar ao marido em direitos e ganhos do trabalho, falecido um dos cônjuges, o que fica passa a receber uma maquia importante do salário do falecido. Mais ainda. Aquele que nos engrandeceu junto do ninho de víboras que é o Parlamento Europeu (e não é o único), de seguida governador do Banco de Portugal, reformado recentemente sem idade para tal, aufere a bonita soma de 10 mil euros brutos mensais (os tais 10 mil que Cavaco dizia, quando deixou Belém, não ser possível governar-se a si e à mulher), mais o que acumula com o ISEG ao retomar a actividade académica. Mário Centeno está longe de ser o único. Para não falar nas mordomias a um enxame de pindéricos, que possui carro com chauffeur do Estado, subsídios para isto e aquilo, casas pagas, deslocações, numa festa colectiva que os contribuintes pagam com língua de fora, numa manifestação de novo-rico, num Estado a viver acima das suas possibilidades, quando cidadão amocha, vergado ao peso das dificuldades quotidianas. 

         - Fui à piscina. Depois de dois meses sem qualquer exercício, nadei apenas 30 minutos, num teste à perna e ao pé que as damas gordas e de sorrisos mimosos pendurados da água, acompanharam até à primeira braçada. Saí mais leve, quase etéreo, sobretudo psicologicamente, com um andar de menino atrevido a quem soltaram da jaula.


segunda-feira, setembro 21, 2026

 Segunda, 21.

O partido do ditador russo, como era de prever, obteve 57,86% dos votos nas eleições legislativas realizadas no fim-de-semana. Com este resultado, é possível a Putin obter os 301 deputados necessários na Duma. Ressalvando este pormenor que é esquecido pelos seus apoiantes: quase metade dos eleitores, abstiveram-se de votar. A Ucrânia, aproveitou o “evento eleitoral” e atacou em força com drones e um enorme ciberataque contra o sistema de votação electrónico.  

         - Tudo isto, enquanto na rectaguarda Putin ensaia o ataque à Europa. Macron que no início da guerra contra a Ucrânia, pensava que o ditador era sensível a conversa fiada (relembro que entre nós os comunistas apoiaram a “operação militar especial” russa), foi prostrar-se de joelhos no Kremlin tentando chamar à razão um homem preocupado apenas com a reunificação da Santa Mãe Russa e o imperialismo da URSS malbaratado por Gorbatchov que, segundo Vladimir Putin, garroteou o Império Russo. É este mesmo homem, em vésperas de deixar o Eliseu, que tantas ideias lúcidas pôs em movimento, prepara agora a defesa não só do seu país, como a da Europa, desta vez sem ilusões nem falsas rasões piedosas. Como senhor da única nação europeia com arma nuclear (o Reino Unido tem-na, mas a América possui a derradeira palavra), promete pô-la ao serviço da defesa de cada país como da totalidade do continente europeu, provando que não tem ilusões quanto aos ensaios híbridos que Moscovo tem vindo a realizar em território europeu. Parece até que ele é o exclusivo político no seio da UE, que enfrenta a América tresloucada de Trump e a tirania de Moscovo com a lucidez, o pensamento, os objectivos que uma guerra a curto ou longo prazo se prepara. Não quero dizer que outros políticos europeus não estejam inquietos, o que digo é que Macron tem-se adiantado, impulsionado e corajosamente oposto ao desvario e timidez de outros países aninhados no medo e na esperança vã de a paz ser eterna. Portugal, como sempre, não tem voz nem personalidade objectiva. O nosso primeiro-ministro, sem ideias nem conhecimentos, está naquela onda de achar que o diálogo é mais importante que tudo o resto. Macron também assim pensava e Pedro Sanchéz, forte de personalidade e convicções, enfrenta sem pestanejar Putin e Trump. 

         - Não é, contudo, o caso da Polónia que criou frota de aviões militares na fronteira com a Bielorrússia reforçando assim a sua defesa antiaérea; nem da Alemanha e Suécia que robustecem o lado do mar Báltico e do Presidente finlandês que acabou de anunciar que vão ser instaladas armas nucleares francesas na Finlândia. A Lituânia, também não tem ilusões, e em colaboração com a Polónia, em caso de agressão russa, montou um plano de transferência do seu povo para a Polónia. Putin sente-se protegido e impulsionado pela simpatia do seu homólogo e amigo americano, sabe que o momento está do seu lado, o seu sonho da Grande Rússia está ao seu alcance. A NATO, a titubeante NATO, muito bajuladora do louco que ocupa a presidência dos EUA, parece ultrapassada pelas iniciativas da França. A Polónia que eu visitei sem pressa, pude constatar a personalidade de um povo que ama a liberdade conseguida com a libertação da antiga União Soviética.

         - Às vezes, vendo o rebuliço que vai pelas nossas escolas (esta cabeça nunca pára), penso em Julien Green, professor, do alto do estrado na sala de aulas, os alunos de pernas nuas na frente, ele que quando descia à rua nos dias quentes de Verão, em Paris, não tirava os olhos do chão para não sentir a tentação a invadir-lhe o corpo ante a beleza dos corpos juvenis. Querido e grande escritor, não tenho dúvidas que a infinita paz de Deus vos trouxe não só o perdão, como saldou todas as incertezas que vos atormentaram. Do meu lado, lamento e lamentarei não vos ter conhecido, pese embora os incentivos do nosso amigo comum, Francis Von Ourberque. 


domingo, setembro 20, 2026

 Domingo, 20.

Ontem tive a sensação de ter rejuvenescido trinta anos; quase não me reconhecia na azáfama que encheu o meu dia. Cedo fui ao mercado dos pequenos agricultores a Pinhal Novo, antes tinha estado a regar, de seguida ao supermercado e em casa li uma hora, escrevi duas, arrumei o andar de cima, fiz seis frascos de compota de dióspiro porque os tenho em carradas para dar e vender. Pelo menos quatro horas de pé ao fogão, foi um desafio ao pezinho, coitadinho, que as senhoras maduras olham com compaixão e as novas com um ciciar de lábios enternecedor. 

         - Outro dia, a dona do restaurante Café no Chiado, uma mulher desenxovalhada, bonita, veio à nossa mesa trocar algumas palavras com o Paulo Santos. Este apresentou-nos e logo a conversa se desenvolveu, cresceu e não fora os afazeres do restaurante, ficaríamos ali a tarde inteira. O meu amigo disse-lhe, a dada altura, que eu tinha um blogue e logo a simpática proprietária, telemóvel em punho, me pediu o endereço. Neguei. “Como assim”, clamava ela, surpreendida com o meu desplante. “Já tenho leitores que chegue”, respondi. Muito admirada, olhava o Paulo como a interrogá-lo de onde tinha vindo tal personagem. Já na rua, voltou à carga e eu disparei sem travar o passo o nome deste registo. Ela: “Espere aí deixe-me ir lá dentro anotar.” 

         - Carl Bildt, ex-primeiro-ministro sueco: “As democracias ocidentais só têm actualmente dois líderes: Carney e Zelensky.” 

         - Voltou de novo o calor. Aqui os termómetros montaram a 34º C. Até quando andarei eu a regar! 


sábado, setembro 19, 2026

Sábado, 19.

Os opositores, incluindo os jornalistas, ao ditador Vladimir Putin e à espécie de eleições parlamentares que ele montou, chamam àquilo um “evento eleitoral”. Está tudo dito.

         - Como esta gente se assemelha! No tempo de Costa, os socialistas lançaram vitoriosos a ideia das “contas certas”; os que montaram ao poder depois deles, as “contas justas equilibradas”. Uns e outros, delirando com as suas competências, esquecem-se dos dois milhões de pobres, da classe média e de todos os que trabalhando com esforço e dignidade, não ganham para ter uma casa onde viver. O importante para estas delirantes criaturas, é fazer figura de contabilistas competentes. Quem tem lucrado e muito, é a classe política. Noutros tempos, quando com eles privei, sabia bem das dificuldades por que passavam; hoje os mesmos andam de cabeça erguida exibindo o conforto que a Assembleia e os ministérios por onde passaram lhes proporcionaram. 

         - E-mail que enviei à equipa de oftalmologia do Hospital de Santa Maria: 

Unidade de Oftalmologia do Hospital de Santa Maria.

Recebi em triplicado uma mensagem que me informa que fora marcada consulta que a médica, apresssada, do Curry Cabral, na sua observação de cinco minutos, concluiu ser assunto para essa unidade. 

Acontece que estive sete meses à espera daquela consulta e agora, pela mensagem recebida há três dias, vou ser observado só dia 4 de Agosto de 2027 !!! Como devem calcular, não me sujeito a tal humilhação e já tenho consulta com um oftalmologista na área de astigmatismo na próxima semana e não fui à Dra. Fátima Campos e os senhores adivinham o motivo…  E ainda, eu sei lá se tenho olhos daqui a um ano ! Que miséria ! Que vergonha está trasnformada a obra notabíssima e humanista do Dr. António Arnaut. A saúde é hoje o melhor negócio que a democracia inventou. 

Utente descontente

Helder de Sousa

 

sexta-feira, setembro 18, 2026

 Sexta, 17.

Dia rico o de ontem. Cedendo ao convite do Paulo Santos para um almoço no Café no Chiado, encontrámo-nos na Brasileira onde eu não ia havia mais de quatro meses e aí encetámos uma viagem de memórias e factos recentes, celebrada em honra do convite que o meu amigo teve por parte de uma editora francesa para publicar um livro emocional sobre Lisboa. Foi o que ele fez de melhor e não deixo de o engrandecer por se ter libertado da Economia e do Parlamento europeu, ninho de corruptos e interesses rasteiros, perdas de tempo em conversas que não têm fim e não levam a parte alguma, e ter enveredado pela liberdade limpa dos salamaleques tão indispensáveis à classe política, yes obrigatório do partido e da ideologia que o sustem. Bref. Daí passámos ao restaurante, meu conhecido dos tempos de jornalista, na rua debaixo do teatro de S. Luís, onde tantas vezes estacionara o carro e passara em frente sem ousar entrar porque me parecia, visto de fora, de uma pobreza franciscana. Seria há trinta anos. Hoje é um espaço afrancesado, acolhedor, onde se come bem em doses restritas, de acordo com a austeridade que a pouco e pouco se vai instalando e corrige a voracidade e lobriguez de certos estômagos nacionais. Ficámos quase três horas abancados, porque o Paulo trazia o computador e requeria que eu lhe desse opinião sobre seus escritos (em francês). Lá fui lendo e opinando, com o meu amigo a anotar o que me parecia deslocado, em falta ou demasiado propagandístico. Lisboa, a cidade onde nasci e vivi (salvo uns anos em Coimbra na adolescência) é para mim uma intimidade, um modo de sentir através da sensibilidade que habita na saudade enquanto elemento identificador, aglutinador e único, que nos mergulha numa atmosfera que mantém presente e passado, desafia o futuro, história e sentimentos incluídos, num êxtase de amarguras e espaços de luz debruçados sobre a eternidade que abraça quem nela nasceu e viveu. Porque os editores insistiram (ou não fossem eles franceses) que o retrato escrito e fotografado, tivesse a assinatura dos sentimentos do seu autor, e não produzisse um mero roteiro de ruas e malha histórica, também eu reforcei esse cuidado e essa escolha, na forma e conteúdo, mais a mais porque Paulo Santos é suficientemente conhecedor e estudioso do mundo cultural da capital, e possui o gosto e a tradição que elimina o fácil, o delicodoce, aquilo que não tem a densidade que atrai e glorifica a exigência e o pormenor, profundidade e a magia, que acaba por envolver o leitor-viajante. Fico à espera das páginas que ele me enviará por mail, para que possa, modestamente, ajudá-lo a engrandecer o seu (julgo) quinto volume de uma obra originalíssima que envolve, escultores e pintores, escritores e historiadores, civilizações e modos de vida, e é testemunho do seu amor à Marinha, ao mar e às caravelas que trouxeram a riqueza e o desafio da descoberta de mundos hoje parte importante da Sociedade das Nações. 

         - Não há fome que não dê em fartura. Passamos por vezes muito tempo sem nos vermos, mas ontem, como a preencher esssa lacuna, Paulo quer que nos sentemos por mais uma hora numa esplanada. Escolhi o petit cafe da Fnac onde abancámos, convidando-me o Paulo para assistir no próximo ano a acontecimento que traz a Lisboa Stéphane Bern. “Tu és o único português que o conhece”, acrescentou. Com efeito. Conheço-lhe a obra escrita, os programas televisivos e o trabalho em prol da Cultura enquanto ministro. Depois, estou certo que nos cumprimentámos - na altura jovens quase imberbes -, quando Jean Lebrun nos apresentou, em Paris, num estúdio de televisão. Tudo isto está plasmado nas paginas deste Diário no período respectivo. Também falámos muito da Córsega de onde a mulher (julgo) ser natural e é um país que eu adorava visitar devido às suas muitas capelas góticas e românicas que se escondem nas encostas das montanhas. Separámo-nos pelas cinco da tarde.  

         - Já me libertei do comprimido noctâmbulo, esperando estar de volta aos meus sonos profundos, inteiros e céleres, que sempre me habitaram da infância à idade velhada. 

         - Para ser franco, não apreciei a rejeição de Aguiar-Banco ao Chega para inquérito à gestão de Luís Neves quando esteve à frente da Polícia Judiciária. O Presidente da Assembleia não é dono nem do Parlamento, nem da Democracia. Pode ser vigilante desta, nunca seu dono. 


quarta-feira, setembro 16, 2026

Quarta,16.

Álvaro Almeida, director do SNS, disse mais ou menos isto: os velhos e os doentes crónicos urgentes que esperem no fim da lista dos que já lá estão há meses, quando não há anos, para consultas ou operações. É esta excelência medíocre que está à frente da obra de António Duarte Arnaud e de cada vez que a figura fala, o obreiro humanista do SNS dá várias voltas no caixão. Se o 25 de Abril nos deu um autêntico socialista que por si só impôs e deu razão e fundamento à mudança de regime, foi o insigne político de Coimbra. Qual Cunhal, qual Soares face à dignificação do direito à saúde para todos, que o construtor deste edifício em desmoronamento criou. 

         - Para mim, são evidentes os ensaios da Rússia para a guerra na Europa ou mundial. Putin testa até onde vai o temor dos europeus – de reuniões em reuniões estes não dão pela estratégia do ditador. Daí as oportunas intervenções do imperialista no sentido de ameaçar os povos para que votem nas direitas extremistas com quem tanto se irmana. 

         - Fui de propósito a Lisboa almoçar com o Carlos em trânsito de Luanda para Nimes onde agora vive. Gostei de o ver, mais maduro, mais agradável de trato e. sobretudo, capacitado para continuar a vida não obstante dois divórcios e duas filhas, em Luanda, da última relação. Falámos quase sempre de política portuguesa, mas sem a obsessão doentia do João, pese embora algumas divergências. Com ele viajei muito, saudade que ele transporta e faz questão de me lembrar sempre que estamos juntos.   

 

terça-feira, setembro 15, 2026

 Terça, 15.

Ontem, andei num corrupio por Lisboa a tratar de pequenas coisas sem importância absolutamente nenhuma, mas que fazem parte da vida moderna dos nossos dias. Almocei no C.I. e cruzei-me com o engenheiro, amigalhaço e rico, de José Sócrates. Fato azul completo, sem gravata, ao telefone a falar um inglês suspeito. O homem parece um ser simples, quase simplório, que deve ter sido manobrado pelo engenheiro de diploma tirado ao domingo, pois acredita que os milhões que lhe emprestou, sendo o ex-qualquer coisa pobre como repetiu inúmeras vezes, lhe pagará no outro mundo. 

         - Do que se tem falado na última semana com voz embargada, é de Inteligência Artificial (IA). Dizem os que a estão a desenvolver, que ela nos pode liquidar a todos e o mundo tal qual o conhecemos, desaparecerá. Jacob Coxon, antigo funcionário da Anthropic, que se demitiu para nos alertar do pesadelo que se prepara, afirma que a IA pode matar toda a humanidade até ao final desta década, tese acompanhada por outros colegas e empresas como Musk, Dario Amodei CEO da Anthropic, Sam Altman um ou outro mais. Contudo, ninguém nos explica ou dá exemplos do que se prepara. Coxon fala de inteligência artificial “superinteligentes”, capazes de se aperfeiçoarem a um ritmo superior ao da supervisão humana. Que quer isto dizer na prática? Não sei. Eu faço apelo muitas vezes à IA e depois de obter o resultado, tenho por hábito pensar se o que me foi fornecido faz sentido ou não. São informações comezinhas, mas ainda assim, desconfiado como sou dos modernismos, fico de pé a trás. A acompanhar. 

         - No romance de Valter H. Mãe, chama àquilo que eu tenho aqui em baixo, um termómetro. Tem alguma lógica na medida em que ele acompanha a temperatura de certos momentos íntimos... Já a turbamulta de “artistas”, são quatro por metro quadrado, nas suas canções pindéricas e pseudo populares, cognominam-no de cacete. 

         - Nos tempos da ditadura impunha-se a lei e a ordem; hoje com a democracia infunde-se “aquilo que o povo gosta”. Que idiotice! 

         - Tentei esta noite libertar-me do comprimido mágico que me lança num ápice nos braços de Morfeu. Já estou há alguns dias a tomá-lo partido ao meio, mas quis desfazer-me completamente dele de forma a entrar nos tempos passados antes da pancada da Água das Pedras. A verdade, porém, é que ainda não sou o que era e esta cabeça tonta não pára de arquitecturar o futuro longe destas paragens. 


sábado, setembro 12, 2026

 Sábado, 12.

Não posso de maneira nenhuma aceitar o SNS que hoje temos. Bem sei que esta degradação começou com a Covid que António Costa e os incompetentes ministros da tutela pioraram. Mas que diabo! Este Governo está em exercício vai para três anos e por todo o lado o sistema piora e a choldra instalou-se empurrando culpas à direita e à esquerda. Não há autoridade, não há respeito pelo serviço público e pelos portugueses. Olhem esta. Estive meio ano para ser atendido em oftalmologia no Pulido Valente. A médica acelerada que me atendeu e me explicou que o estado do SNS se deve aos migrantes acentuando que não só, “mas também às mulheres e filhos deles”, entendeu remeter-me para o Hospital de Santa Maria para ser observado ao astigmatismo que tenho no olho direito. Acontece que anteontem, recebi uma mensagem daquele hospital, a marcar consulta para dia 4 de Agosto de 2027!!! Vou ter que consultar um médico privado que é para isso que Luís Montenegro e seus muchachos foram eleitos. 

         - Felizmente não renunciei a prosseguir a leitura do romance de Valter Hugo Mãe, O século dos imbecis. Eu explico. O primeiro capítulo que apresenta a personagem Marquês da Malandrinha de seu nome Agilulfo, é longo e difícil de tragar. A sucessão de adjectivação é medonha, paralisante e desnecessária por não caber na realidade que o romance (no sentido sinóptico e literário) impõe ao retratar a vida tout court com os elementos que a compõem. Pensei logo em Mário Cláudio que segue naquela direcção e é uma estopada lê-lo. Não me afoitei pela sua obra, tendo ficado pelo Diário que achei interessante contrariamente ao Fernando Dacosta que outro dia me disse não haver apreciado e mais um ou outro livro. Claro que à lembrança, para certos aurores, advém o nome de Aquilino Ribeiro e o seu português que nos solicita ter o dicionário ao lado. Mas Aquilino possui uma escrita limpa, corrida, criativa no sentido de arrastar o leitor, mesmo com paragens para consultar esta ou aquela palavra, adjectivo ou substantivo. Quando sou confrontado com escritores que “escrevem caro”, vem-me à lembrança o termo novo-rico, os novos-ricos da escrita. Não é, contudo, o caso de o autor de Deus na escuridão, que eu descobri tardiamente e fiquei ligado para sempre, tendo já devorado vários títulos. Com este, ainda bem que não o abandonei, porque os capítulos que se seguem são maravilhosamente concebidos e narrados. As personagens entram e saem, numa roda-viva impressionante, com detalhes precisos, como se uma qualquer vida tivesse sido romanceada, vivida e aguardada para ser conferida por algum leitor ousado vindo dos confins do tempo. Nem me vou referir à escrita, ao modo de escrever, ao português específico do autor, porque tudo isso é do conhecimento dos seus leitores. Agora o que queria avançar, embora tibiamente, é que me parece que em nenhuma outra obra Valter Hugo Mãe se mostra tão despudoradamente. Há um rumor, um segredo, um tapa e foge dele em quase todas as personagens, umas mais evidentes que outras. Todavia, o humor reina por todo o lado, faz-se presença, pisca-nos o olho, converte-nos em cúmplices, anda connosco pela mão no rodopio de nomes, qual deles o mais original: Martinbon, Pier Paciugo, Bertrandino das Guildivernes, Presidentês, Paciasso, Pessivista, Omobon, Omobestia, Bem-Va-Ussuf, Gurdulú, etc. etc.  


sexta-feira, setembro 11, 2026

 Sexta, 11.

O recente relatório PISA, divulgou que Portugal recuou vinte anos no conhecimento da matemática e na leitura. Esta realidade, incendiou ex-ministros da Educação e o presente que eu considero, apesar de tudo, do melhor que temos tido. A verdade, porém, acho que é outra: como ultrapassar a facilidade que se desenvolve nas redes sociais, onde um novo método de escrever e falar se instalou a par do abandono da leitura, sem esquecer o exemplo de português primário que ouvem na televisão das bocas dos doutores políticos e jornalistas. A escola revê-se na oralidade rasca dos pomposos, de cabelos oleados, fato e gravata, lábia comprida, convencidos e sabichões que surgem nos ecrãs oferecidos todos os dias aos portugueses.  

         - A sensação que eu desenvolvo de cada vez que oiço a esquerda, é que se trata de um bando de gente que vive ainda no tempo do fascismo e Salazar os persegue sem dó nem piedade. Não conseguiram impor tudo aquilo que condenavam à direita de Marcelo Caetano, chegaram a ter percentagens elevadas como representantes do povo no Parlamento, instalaram-se, agasalharam-se nas traseiras do marxismo-leninismo, da ditadura do proletariado, e daí contemplam o Portugal que lhes escapa e personagens como André Ventura que muito lhes deve a posição em que se encontra. Porque a teoria é sempre esta: quem não é por mim, é contra mim. Os extremos são saudáveis e tocam-se em ambição e poder. Desligam-se da realidade e conluiados exercem a pressão que os lugares que ocupam na “casa do povo” não lhes confere. Marginalizam-se por convicção, acantonam-se num punhado de verdades que já não existe, e daí nasce uma esquerda para todos os gostos e ambições. Não entendem que o mundo mudou, que as ideologias do século XIX estão enterradas no desenvolvimento intelectual, moral e social do mundo moderno e, mesmo nos países onde elas encontram algum resquício, se faz pela força, proibição da imprensa livre, controlo dos cidadãos, amarrados por um bloco de ditadores sinistros, imperialistas, que tudo fazem para conservar o poder. Eu não acho que a direita seja melhor, simplesmente a esquerda não possui inteligência para perceber o seu lugar no sistema democrático – daí o refúgio nas teorias do passado. 

         - Joaquim Couto telefonou-me a felicitar pelo meu aniversário, dizendo-me que eu estou visivelmente melhor do acidente da Água das Pedras – “isso vê-se na forma como escreve”. Grande surpresa da minha parte. Atento, este amigo e leitor, demonstra não só inteligência, como sensibilidade literária. Uma leitora disse mais ou menos o mesmo. Eu é que ignorava que a minha escrita tocasse assim indelével as pessoas. Talvez por não me levar muito a sério. 

         - O facto, contudo, é que ainda não me sinto completamente curado. Ontem, em Lisboa, fartei-me de andar e quando regressei a casa, tinha o pé, coitadinho, muito inchado – apesar do tratamento com Picalm que o doutor Simões me aconselhou. 

         - Esta frase no Génese “a alma dele está pendurada da alma deste” (44-32) dita por um dos irmãos de José em conversa com o pai e não assinalada pelo tradutor. 


quinta-feira, setembro 10, 2026

Quinta, 10.

A Donald Trump tudo lhe é permitido, o dinheiro compra tudo até a imortalidade. Agora saiu-se com esta: quem votar nas intercalares para manter a maioria do seu partido, isto é, de sua excelência no poder, ele ou o Estado não se sabe, promete uma recompensa de 5 mil de dólares a cada cidadão! Pouco importa se a democracia suporta uma tal imoralidade, um tal poder, um tal descrédito, importante é que a maioria alcançada seja rectificada para seu gáudio e egocentrismo. 

         - Este governo vive como todos os outros de taxas sobre taxas, impostos sobre impostos, para que o Estado viva acima das suas possibilidades usando a riqueza que não lhe pertence. Quando digo Estado, falo dos seus funcionários – políticos, deputados, ministros e secretários, partidos, gestores de empresas estatais falidas – e toda a fauna que se alimenta dos nossos impostos. 

         - Acompanhei no carro enquanto viajava, a moção de censura proposta pelo Chega ao Ministro da Administração Interna, Luís Neves. Mais tarde vi excertos nos telejornais contra o homem que fala, mas nunca se explica e na Assembleia parecia humilde, abandonado à sua sorte, espécie de tiro ao alvo de todos os partidos salvo do PSD/AD. De súbito, sem que viesse a propósito, o ilusionista de serviço, Sr. Luís Montenegro, como se imitasse Trump, depois de ter dito que este ano não seria possível tal benesse, decretou o suplemento extraordinário para reformados e redução no IRS para os escalões de mais baixos de rendimentos. Quem brilhou e achei que tinha dom oratório, foi André Ventura. O homem a mim nunca me convenceu e não será nestas páginas onde raramente aparece que fará história. Tudo somado, aquela sessão foi medíocre, excelente para os democratas de pacotilha, mas inútil para a democracia ao deixar tudo como antes. 

 

quarta-feira, setembro 09, 2026

 Quarta, 9.

Fui ver o filme de que tanto se fala: A Odisseia de Christopher Nolan. Que dizer quando tudo já foi dito? Ainda assim, atrevo-me a lançar a minha própria visão da obra de Homero que li em 2014, na tradução de Frederico Lourenço e que é preferível à interpretação de que dela faz o realizador. Aquilo é espectáculo puro, com toda a panóplia de efeitos técnicos, som e luz, transformações humanas e guerras, muitas guerras, a Guerra de Troia no centro e o regresso de Ulisses a Ítaca, tendo por protagonista o actor Malton Damon que se desembaraça bem no papel principal. O filme não me prendeu no início, desconfiado de mais uma “americanice”, sabendo eu a pouca cultura greco-latina do povo que elegeu Trump. Porém, a dada altura, começo a recordar-me da narrativa romanesca de Homero, os nomes que me eram familiares a aparecer no ecrã, as batalhas, as personagens mitológicas, os deuses adorados por homens e mulheres há quase três mil anos, todo aquele ambiente que salta nas páginas vivas de Odisseia, na sua génese textos orais. Julgo que é Frederico Lourenço que diz que Homero foi o criador da narrativa romanesca. Com efeito, são de tal modo empolgantes as imagens, que nos esquecemos de tudo para indagar que pretende o realizador com aquela proeza. Em verdade, salvo a exploração dramática levada ao cume, Ulisses está sempre presente do princípio ao fim. Talvez o retorno a Ítaca, ao lar e a Penélope que, contrariamente a todos os que a cotejam, acreditava que o marido estava vivo; seja uma espécie de transfere para algo tão comezinho como a busca de paz, silêncio e o conforto do lar após anos de guerras, perda de amigos e combatentes que lhe eram fiéis, enfim, a inutilidade da morte por objectivos que escapam à verdadeira essência da vida. Há momentos no filme que são de antologia como, por exemplo, a cena de terror de Ciclope ou o nascimento de Telémaco (Tom Holland). Ulisses um homem febril, corajoso, vaidoso, desafia monstros, mares, crenças e paradigmas, velho e gasto, desiludido e cansado, chega a casa onde o espera Penélope farta dos jogos de sedução e poder dos muitos pretendentes. Apesar da idade avançada, dos anos de guerra, de privações de toda a ordem, Ulisses ainda tem de eliminar os seus adversários que se apropriaram da casa e da mulher. Só então no regresso se interroga, no fundo de si mesmo, da utilidade das batalhas, da violência, da privação e da morte, da aventura humana levada ao extremo. Outro Ulisses transborda de inquietação sobre a sua verdadeira natureza, utilidade de tantos mortos, destruído por fantasmas, frágil e absorto ante a sua verídica natureza – a que nos revela a nós próprios quem somos. Não resisto a transpor para aqui o primeiro canto de Odisseia. 

Fala-me, musa, do homem astuto que tanto vagueou, 
Depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou, 
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon, 
o Sol – e assim lhes negou o deus o dia de retorno.
Destas coisas, fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.    

segunda-feira, setembro 07, 2026

 Segunda, 7.

A verdade é que quase não se passa um dia que ela não me telefone ou vice-versa. Falo dos diálogos constantes com a Gi que surgiram depois de ela e o Nuno terem cá vindo lançar-me a mão no mês de todos os sofrimentos. Parece que nos descobrimos ou qualquer sentimento se nos impôs além da virtude familiar. Falamos de tudo, sem preconceitos nem falsas morais, ao abrigo do que julgávamos esquecido e ressuscitou dos escombros que me cobriram a vida inteira. Não fui educado no seio de nenhuma família, não conheço as normas nem os tratados que fazem prevalecer o sentimento que em nada precisa de cânones para impor a consanguinidade. Estamos numa luta que irá mudar a minha vida, mas que eu, eterno solitário, se extasia ante o descampado, o deserto, a vastidão de nada, o horizonte que me circunscreve, me rodeia e me reconforta a existência... (interrompido pela urgência de tomar o autocarro) 


domingo, setembro 06, 2026

 Domingo, 6.

Nada que venha de Israel nos surpreende. O país está, enfim, em campanha eleitoral para avaliar não só Netanyahu, como a clique ultra-ortodoxa que o segura no poder e da qual ele depende. O partido Poder Judaico de Ben Gvir, lançou o programa de remoção dos palestinianos que restam dos dois milhões antes do ataque israelita à Faixa de Gaza que liquidou 75 mil, para a Turquia, República Democrática do Congo e Etiópia. Estas pazadas de lixo para eles, são palestinianos corajosos e seres humanos dignos que sobrevivem sob o fogo constante do exército que nunca parou, não obstante as mentiras de Trump que determinou o cessar-fogo. A extrema-direita lá do sítio, diz precisar apenas de sete anos para limpar toda a Faixa de Gaza transformando-a na Riviera francesa como propagandeou o inquilino da Casa Branca. 

O homem de quem se fala. 

         - No Nepal, dez dias depois da tragédia, foi descoberto num dos muitos túneis subterrados, um sobrevivente. O número actual de mortos é de 1300, estão desaparecidas 5 mil pessoas. O feito tem indício de milagre. 

         - O especulador imobiliário que governa a América, vendo aproximar-se as eleições intercalares, aposta forte no fim da guerra entre a Rússia e Ucrânia. Daí, tendo mandado uma missão diplomática com 

o genro pelo meio a Moscovo, conseguiu do ditador Putin um cessar-fogo por três dias sobre Kiev - apenas sobre a capital onde se encontra hoje a delegação dos EUA. Nada disto me cheira a algo em que se possa confiar. 


sábado, setembro 05, 2026

 Sábado, 5.

Ontem andei na Baixa ocupado com vários assuntos que me lá levaram. Mais tarde, encontrei-me com o João B. para um café. Eu não lhe havia telefonado a contar-lhe o que me aconteceu e ele esmorecido: “Podia-me ter chamado para o ajudar.” A conversa entrou depois num ritmo e tom que me agradou sobremaneira tendo em conta o atropelo dos assuntos. À nossa volta ninguém entendia o que discutíamos; Lisboa transformada num país de várias línguas e costumes, abafando completamente os nossos modos da vida. Grossa maioria o que vemos é lixo, mas isso pouco importa aos que nos governam porque não frequentam os mesmos locais, fechados como estão numa campânula de cristal. À despedida ele atirou: “Cuide-se, viu.” 

         - Um leitor do Público de seu nome Alexandre Delgado, em carta endereçada ao jornal, escrevia: “Ana Paula Martins é a coveira do SNS. A sua missão é fechar serviços, infernizar a vida dos profissionais de saúde, escorraçar utentes e abrir a porta aos privados. Devia ser condecorada.” Como os meus leitores se recordarão, eu sempre apoiei a Ministra da Saúde, por considerar, no início, que ela teria um trabalho hercúleo e desfazer o que António Costa fez na saúde. Acontece que, se tivermos em conta que Ana Paula Martins vem já do primeiro mandato de Montenegro, em 2024, era para ter um ministério mais próximo dos portugueses e mais competência na sua direcção. Eu sei do que falo e por saber enviei-lhe o e-mail do desastre que foi a minha entrada no S. José de maca às duas da tarde e a saída pelos meus próprios pés, às 9,30 da noite de táxi para casa sem ter sido atendido (ver dia 25 de Abril). Protesto de que não obtive resposta. Talvez fosse por ter relembrado o grande Senhor da Saúde, obreiro do sistema, o socialista António Arnaut. 

         - Que dizer da proposta do presidente dos Estados Unidos para mudar o Estreito de Ormuz para Estreito Trump? A tarouquice do homem, raia a demência. 

         - Ontem estendi-me um pouco mais em andanças pedestres. Queria testar o pé maroto e a perna que nele assenta. Nada mau. Apesar de um ligeiro inchaço no peito do dito cujo, o dia saldou-se por uma vitória na sequência da vida. 


quinta-feira, setembro 03, 2026

 Quinta, 3.

A Câmara Municipal de Lisboa, decidiu relembrar os mortos da tragédia do elevador da Glória com um memorial. O seu presidente, especialista em propaganda, disse querer uma cerimónia recatada desde que as televisões não faltassem para registarem as lágrimas, uma a uma, a correr dos rostos dos infelizes. Ao acontecimento, perdão, evento nem faltou o camarada Rui Valério. A hipocrísia de tudo isto, está no facto de um ano depois, não conhecermos os responsáveis e as seguradoras não terem pagado as indeminizações a que estão obrigadas. Neste miserável país, só a demagogia e o populismo nunca falham e chegam sempre a horas.  

         - A maior tragédia humana não é vencer, é ultrapassar a inércia. 

         - A mim quer-me parecer que o senhor Luís Neves é o homem mais poderoso do país – tem-nos a todos na mão. 

         - Aqui, depois de uma certa acalmia, voltaram as temperaturas elevadas. Hoje 41 graus. Apesar disso, hoje de manhã, carreguei quatro carros de mão de lenha para o alpendre. 


quarta-feira, setembro 02, 2026

Quarta, 2 de Setembro. 

Ontem fui de experiência à capital, depois de mais de um mês sem atravessar os lugares da minha juventude. Fui, naturalmente, de autocarro e admirei como se fosse a primeira vez o Tejo, Lisboa no recorte do horizonte, a luz limpa de uma manhã sem mácula. Queria saber até onde aguentava o meu pé cuja doçura dos olhares de mulheres feitas e raparigas airosas tanto cobiçam. Almocei no C.I. agora de preços alçados, um bacalhau à Gomes de Sá apetitoso e fiquei por um tempo a deliciar-me com a paisagem, os poucos clientes, o sururu que me envolvia. Lisboa, vista do alto, parecia queda, sonhadora, indiferente a quem a olha com sobranceria e saudade. Fiz de seguida algumas compras, li o Público diante de uma chávena de café, visitei a livraria e comecei a sentir dores advindas de muito caminhar. Disse “por hoje chega”. Regressei pelo mesmo modo, satisfeito por haver tentado a rotina dos dias, dividido entre o lugar onde nasci e o de adopção. 

         - A tragédia no Nepal-Tibete não pára de nos surpreender. Muitas equipas (enfim o país aceitou ajuda estrangeira) desafiam o imprevisto para tentar encontrar sobreviventes. Mas o número de mortos monta já a mais de mil e os desaparecidos a 4 mil. São impressionantes as imagens que nos chegam, túneis esmagados pelo peso da montanha, lama e resíduos, desolação e dor. 

         - O Ministro da Administração Interna, aproveitou uma missão de serviço à Madeira para responder, diante da tropa fardada e em sentinela, a André Ventura e a todos quantos o acusam de falcatruas e mentiras. Cobardia. Não é numa cerimónia oficial, que se esgrimem razões e se impõe o poder. 

         - Quando o meu orçamento fraqueja, faço como o Corregedor e digo ao Sr. José Manuel para não vir porque estou cheio de reuniões. Na próxima, invoco os muitos emails oficiais para despachar, como faz o sobrinho de Urbano Tavares Rodrigues que nunca lhe conheci uma ocupação. Que presunção!  

 

segunda-feira, agosto 31, 2026

 Segunda, 31.

Afinal de contas o que me retém aqui? Não é só o silêncio sagrado, nem o ar limpo que se respira, nem tão-pouco o isolamento, mas também e ainda as descobertas humanas que desaguam de quando em vez à minha porta. A última das quais o conhecimento do ser humano extraordinário que é o senhor José Manuel. Faz tudo para me agradar, para me proteger. Como hoje, não eram sete da manhã, quando chegou com o filho ao volante de uma camioneta e descarregou esta relíquia do século XIX que a foto mostra e eu cuidava votada à sucata. Depois de grandes constipações, carradas de óleo, carícias e falas mansas, eis que sua excelência decide mostrar o ar de sua graça. E aí funcionou toda a manhã, dividindo os troncos pesados e grandes tornando-os maneirinhos de forma a serem levados para as chaminés da casa. Tenho lenha para dar e vender. 


         - No sábado, ele apareceu com uma máquina sopradora e reconstituiu os arredores da casa ao espelho do tempo quando a Piedade se ocupava da limpeza exterior e interior. De súbito, uma ternura imensa por este refrigério de verdura e silêncio tomou conta de mim, devolvendo-me as emoções que experimentei quando aqui cheguei pela primeira vez com o João. Toda a beleza natural se exprimiu nas recordações e nos momentos felizes de outros tempos, quando a descoberta da paz que aqui dormia se me introduziu para nunca mais me largar. Para aonde quer que vá terminar os meus dias, nunca daqui sairei ou comigo levarei a doçura dos tempos que nesta planície me pertenceram. 

         - O que é este diário se não o registo do seu autor e a narrativa de um tempo que lhe coube viver. O verdadeiro quotidiano é preenchido até à minudência das circunstâncias que aconteceram embrulhadas dos efeitos sem importância aparentemente nenhuma.

         - E de repente, recomeçaram os ataques dos EUA ao Irão e deste às bases americanas na Jordânia e Emiratos Árabes. Cada nova ofensiva de Trump, é a constatação de que o Irão está preparado para uma guerra duradoura e bastante mais inteligente no confronto com a arrogância e o poder do senhor que pensa ser o todo poderoso que subordina o mundo inteiro.  

         - Luís Montenegro tem uma noção curiosa da democracia. Segundo ele, todos os disparates são consentidos porque é “a democracia a funcionar”. Quando o vejo aparecer no ecrã, desligo ou salto para outro canal – já não suporto tanta desfaçatez e hipocrisia. E lembrai-me eu que acreditei nele nos primeiros tempos, antes do aparecimento de uma vida de esquemas!


domingo, agosto 30, 2026

 Domingo, 30.

Os nossos políticos, na sucessão de alternância do poder, injectaram-nos de demagogias, mentiras, incompetência, partidarites, blá-blá-blá de que são mestres. A verdade, porém, é que em 50 anos de democracia, as vergonhas sociais estão expostas à verdade nua e crua. Vou chamar a esta página o senhor João Dias Ferreira, investigador do Centro de Estudos Internacionais do Iscte que escreveu outro dia no Público: “Os números são reveladores. Em 2023 apenas 1,7% dos portugueses com 65 ou mais anos recebiam cuidados de longa duração, face a uma média de 11,5% nos países da OCDE. Mais chocante ainda: apenas 34% desses cuidados eram prestados no domicílio, quando a média europeia é de 72% e em Espanha chega a 83%. Não é uma diferença – é um abismo”, conclui. 

         - Dona Fátima Campos Ferreira outro dia em entrevista ao grande senhor que é o ex-Ministro da Educação e do Planeamento Valente de Oliveira: “Os portugueses são ciclo-químicos.” 

         - Faleceu Narana Coissoró. Conheci-o há muitos anos apresentado pela minha amiga Maria Alice. Almocei com ele e a mulher, no restaurante que ambos possuíam a dois passos da sua residência, perto de Caldas da Rainha. A sua casa era um oásis pela sua vasta biblioteca e conversar com ele um prazer que apetecia eternizar. Ofereci-lhe, numa das vezes que o visitei, um livro sobre Goa de onde julgo ser originário. Era um verdadeiro gentleman não só no aspecto, sobretudo na vasta cultura. 


sábado, agosto 29, 2026

 Sábado, 29.

É típico da idade fechar as portas que ficaram entreabertas, isolar-se no silêncio pesado dos dias, esperar por alguém que nunca chega. Era nisto que pensava ontem quando, mexendo no telemóvel, verifiquei que o Robert desde a morte da Annie nunca mais telefonou a saber de mim e, pelo contrário, lá estavam registados os inúmeros telefonemas que eu lhe fiz, entretanto. Com isto quero dizer duas coisas: as amizades ou são recíprocas ou são coisa nenhuma. Daí que não me surpreenda o que aconteceu entre ele e o irmão que vive nos arredores de Estrasburgo. Da última vez que estive na cidade há três anos, Robert pediu-me que falasse com o irmão e tentasse marcar um encontro. Assim fiz, porém sem sucesso: ele alegou que Robert há mais de dez anos não lhe falava e não via qualquer interesse em o fazer agora. Penso que é o que se passa hoje. Isolado na grande casa de S. Denis, Robert alimenta-se da solidão que nunca havia provado, recusando qualquer gesto simples que o reaproxima das pessoas. Dito isto, quem crê nunca está só. 

         - Antes que me esqueça, quero registar, ipso facto, o que disse um senhor que foi surpreendido pela jornalista da SIC a atestar o depósito do carro e indignado com o preço da gasolina, disparou: “Quando o Estado vive acima das nossas possibilidades”, está tudo dito. Assino de cruz. 

         - Esteve cá o senhor José Manuel, dito espalha-brasas – e o universo inteiro uniu-se num imenso afecto.  

         - O número de vítimas mortais no Nepal aumentou para mais de 600 e 2426 pessoas estão desaparecidas. É incrível a prontidão da China a remediar os prejuízos e a retomar o quotidiano. O Nepal, orgulhosamente, dispensou ajudas estrangeiras, embora com menos recursos que a vizinha China. 

         - O taralhouco que dirige os EUA, com o seu marcador, rubricou a mudança de o Lago Ontário no Canadá, para Lago América. Muitos são os países, para além do visado, por exemplo, a Alemanha, que rejeitam a alteração. A pesporrência do homem ofende a dignidade de todos e da cada um. Que tipo foleiro e ordinário! Como é possível que uma tal criatura dirija o maior país do mundo! 

         - Retomei a leitura de Génesis (volume VI de Bíblia na tradução de Frederico Lourenço) e O século dos imbecis de Valter Hugo Mãe. 


sexta-feira, agosto 28, 2026

 Sexta, 28.

Ainda não retomei o ritmo, mas vou-me afeiçoando à vida tal qual a vivia quando os dias se abriam esfuziantes de pequenos nadas, restos de recordações, olhares perdidos na imensidão do passado, circuitos de luz, sombras rastejantes, silêncios espessos, horizontes suspensos que me abraçavam e me comoviam e me sideravam e me isolavam na eternidade do silêncio ondulante. Ir como ontem fui ao centro comercial Alegro, em Setúbal, é experimentar despir a capa do solitário que os deuses protegem e a vida desempena dos pensamentos aziagos ou abancar no Retiro Azul para alinhar estas linhas, é chamar os dias largos de antes da tragédia e encaixá-los por força da vontade inquebrantável de quem ama profundamente a vida. 

         - Não há ainda um número de vítimas da avalanche de gelo e água no Nepal. Há, contudo, um registo provisório de 400 mortos e 1500 desaparecidos. Julga-se que a maioria de uns e outros, são turistas. Todas estas catástrofes sucedem-se um pouco por todo o lado, como se a terra berrasse: “parem de me agredir”. 

         - Como eu previra quando há um ano se deu o aparatoso desastre no elevador da Glória, ainda não se conhece o desfecho de um acidente que matou 16 pessoas. Os conluios importam mais que a verdade. Foram, todavia, constituídos arguidos o ex-director de manutenção da Carris e o sócio-gerente da empresa externa que assegurava a manutenção dos elevadores de Lisboa. Bom, não sendo nada, é para a justiça deste pobre país, qualquer coisa.