Sexta, 21.
A falta de respeito e a consideração devida aos cidadãos por um Governo à deriva de si mesmo está nas repartições de finanças. Com uma simples tecla de computador, dispararam para a rua milhões de notificações a obrigar o cidadão pagador e obediente a liquidar o chamado imposto de selo, não só do corrente ano como o de há muitos anos para trás. Foi um gesto cego, sem ter em conta as consequências práticas e pessoais. As primeiras com o entupimento das repartições, as segundas com as demoras, castigos e stress infligido a milhares de contribuintes que de um dia para o outro se tornaram funcionários públicos ao passarem dias inteiros nas longas filas de espera. Eu fui lá três vezes e fugi tal a multidão de revoltados à porta das Finanças aqui da vila. Minto. A última, hoje, sexta, 21, bati com o nariz na porta porque durante a noite as instalações foram atingidas por vários tiros. Contei pelo menos cinco buracos nas vidraças das janelas. A GNR estava a instaurar o processo e a dependência fechada.
- Passos Coelho disse outro dia que não tinha medo do povo. Eu se fosse a ele acautelava a língua e precavia o corpinho. A acção acima descrita pode ser o indício que muita coisa está a mudar naquilo a que os políticos chamam “o povo de brandos costumes”. Se fôssemos pessoas normais, os Passos, os Sócrates, os Portas, os Gaspares, e tantos outros que nos saíram na Farinha Amparo há muito que não saíam à rua e tinham descido do pedestal empurrados pela multidão em fúria.
- Como o milhão que continua nas ruas do Brasil. O Governo já desceu o preço dos transportes, mas eles querem mais: querem a dignidade que o dinheiro dá àqueles que o têm em excesso. No seu caso não serem tratados como coisas descartáveis. O que mais me surpreende num país de adoradores de ídolos futebolísticos é a súbita percepção daquilo que eu ando aqui a dizer há anos – a consciência da manipulação doentia que o futebol exerce sobre os espíritos simples. Eles perceberam – gostava de acreditar para sempre – que não devem fazer como fizeram os portugueses sem cheta a construir estádios que hoje estão às moscas e ainda por pagar enquanto o país precisa de hospitais, escolas, um nível de vida digno, maior justiça social e fiscal, sem a manápula daqueles que os escravizam e alienam. O planeta do futebol, irreal e fantasioso, onde tudo é permito, onde a corrupção não tem controlo, os ordenados não são deste mundo, as diferenças fiscais e a participação do Estado naquela loucura é grande. Acresce que aquela gente está transformada em gurus disto e daquilo, com opinião sobre isto e aquilo, servindo-se de uma língua dum classicismo luminoso, pleno de ideias e ideais, arrogantes servidores do consumo, moda, automóveis, casas faustosas, tudo exibido, escancarado nas ventas da multidão dos desgraçados que ainda por cima aspiram a ser como eles, pobres ricos saloios montados na importância da riqueza como os políticos na cadeira do poder.
- Não sei por que desceu tão baixo um jornalista da craveira de Cymerman. Já a entrevista a José Eduardo dos Santos percebeu-se que era um frete. Não satisfeito, continuando em Angola, insiste em entrevistar uns pobres coitados que se vê terem sido escolhidos para louvar o soba no poder há quase quarenta anos. A menos que a SIC tenha interesses que a razão desconhece…
sexta-feira, junho 21, 2013
terça-feira, junho 18, 2013
Terça,
18.
O meu olhar sobre o mundo que me cerca não é dos melhores. Vejo toda a gente triste, preocupada, infeliz. Muitos por sua própria culpa, a maioria por ter a infelicidade de ter nascido português. O fantasma de Salazar que nunca deixou de pairar por este rectângulo, estende hoje os tentáculos a um país que nunca o abandonou. Os seus métodos estão estampados nas atitudes dos governantes, nos sistemas do fisco, nas escolas, saúde, justiça, administração pública em geral e, pior ainda, nas mentalidades. O desprezo que todos os governos pós-25 de Abril nutrem pelos cidadãos é disso prova, a par da lavagem ao cérebro via União Europeia. Somos manipulados, reduzidos a coisas, e com o empobrecimento transformados em lixo. Querem-nos obedientes, amorfos, pagantes. Enquanto isso, o Estado aumenta impostos, taxas, coimas, as grandes empresas de energia, água, estradas, bancos, são protegidas e continuam a enriquecer espezinhando toda a gente. Somos hoje nada. E desse ponto de vista, quando interiorizarmos que não possuindo um chavo somos mais livres, reconquistamos o poder, tornamo-nos opulentos e capazes de enfrentar aqueles que a cobiça enlouquece e reduz a escravos.
O meu olhar sobre o mundo que me cerca não é dos melhores. Vejo toda a gente triste, preocupada, infeliz. Muitos por sua própria culpa, a maioria por ter a infelicidade de ter nascido português. O fantasma de Salazar que nunca deixou de pairar por este rectângulo, estende hoje os tentáculos a um país que nunca o abandonou. Os seus métodos estão estampados nas atitudes dos governantes, nos sistemas do fisco, nas escolas, saúde, justiça, administração pública em geral e, pior ainda, nas mentalidades. O desprezo que todos os governos pós-25 de Abril nutrem pelos cidadãos é disso prova, a par da lavagem ao cérebro via União Europeia. Somos manipulados, reduzidos a coisas, e com o empobrecimento transformados em lixo. Querem-nos obedientes, amorfos, pagantes. Enquanto isso, o Estado aumenta impostos, taxas, coimas, as grandes empresas de energia, água, estradas, bancos, são protegidas e continuam a enriquecer espezinhando toda a gente. Somos hoje nada. E desse ponto de vista, quando interiorizarmos que não possuindo um chavo somos mais livres, reconquistamos o poder, tornamo-nos opulentos e capazes de enfrentar aqueles que a cobiça enlouquece e reduz a escravos.
- Por todo o lado, não só pela pena
dos escritores, os sinais são visíveis. A tomada de consciência daqueles que a
nova ordem mundial pretende calar, ergue-se sob a forma violenta que é aquela
que os escravos do dinheiro mais teme e dizem ser anti-democrática. Veja-se o
Brasil, Turquia, Egipto, Grécia, Tunísia. Suportam a carga policial e não
arredam pé. Adquiriram a liberdade porque não estão presos à loucura que nunca
satisfaz do ter, do possuir, do gastar. As centrais de corrupção que minam tudo
principalmente o futebol e vivem numa galáxia nos confins do universo e
trabalham a alienação como ninguém, estão hoje confrontadas com a multidão dos
pobres que nas ruas os cotejam, os enfrentam e equacionam as somas astronómicas
que movimentam em países cujos povos morrem à fome ou são cativos da vilania
constante.
segunda-feira, junho 17, 2013
Segunda, 17.
Fui abordado na piscina por um homem em cólera que dizia ter-lhe eu ficado a dever “o dinheiro da placa da casa”. Olhei-o de todos os ângulos e juro que nunca vi tal sujeito pensando tratar-se de um engano. Peço explicações, mas o tresloucado devolve-me insultos, nomes feios, ameaças. Acontece que a primeira reconstrução desta casa ocorreu há trinta anos e essa parte do prédio não possui placa. A parte nova foi construída por uma empresa e levou placa sob orçamento total que paguei até ao centavo e ocorreu há dezasseis anos. Cena canalha. Não vou dizer que a apreciei, mas que representou para mim uma salutar lição de humilhação, lá isso…
Fui abordado na piscina por um homem em cólera que dizia ter-lhe eu ficado a dever “o dinheiro da placa da casa”. Olhei-o de todos os ângulos e juro que nunca vi tal sujeito pensando tratar-se de um engano. Peço explicações, mas o tresloucado devolve-me insultos, nomes feios, ameaças. Acontece que a primeira reconstrução desta casa ocorreu há trinta anos e essa parte do prédio não possui placa. A parte nova foi construída por uma empresa e levou placa sob orçamento total que paguei até ao centavo e ocorreu há dezasseis anos. Cena canalha. Não vou dizer que a apreciei, mas que representou para mim uma salutar lição de humilhação, lá isso…
domingo, junho 16, 2013
Domingo, 16.
Ontem à noite fui desafiado pelo Príncipe e dois outros amigos para o teatro O Bando onde tinha lugar uma sessão de poesia ao ar livre. Quando cheguei surgiu uma actriz a oferecer-me uma manta para os joelhos e logo me deixei seduzir ante o inusitado conforto que se veria a revelar imprescindível. Já lá vamos. Poesia ao Ar assim se chamava o espectáculo dos actores do Vale dos Barris que reunia debaixo de uma majestosa figueira não só a trupe residente como a população convidada. Pelo que percebi, dias antes, tinha havido ensaios com gente anónima de forma a treiná-la para dizer poesia de autores “lusófonos”, de Al Berto a Sophia passando por João Cabral de Melo Neto e Almeida Garrett. A sessão como eu esperava começou titubeante. Sobretudo porque corria um vento gélido e o frio a pouco e pouco tornara-se insuportável. Eu próprio passei a manta a um dos meus amigos e cobri-me (a cabeça incluída) com um edredão acolchoado e assim refastelado na cadeira de lona deixei-me ir na corrente poética que desemperrara e semeara na noite as vozes dos poetas vencida a indecisão dos presentes. A tal ponto que a dada altura também me levantei para dizer de cor poemas de Sophia, Garrett e Pessoa. Claro que tudo aquilo aos olhos das gentes citadinas e dondoqueiras (curiosamente havia muitos lisboetas vindos da capital), parecia um espectáculo de amadores de província. Mas era precisamente esse lado espontâneo, com aquela graça simples suportada por uma cultura vibrante, que mais me seduziu e acabou por me arrastar. Todos liam os poemas, mas eu não fora preparado para isso e debitei de cabeça solta poemas que me puseram no centro do espectáculo com direito a palmas e cumprimentos da trupe de actores e público anónimo. Por volta da meia-noite, transidos de frio, bebeu-se Moscatel e viemos depois cá a casa aquecermo-nos com um chá de menta aqui da quinta, muita conversa e risada. Deitei-me pelas duas da madrugada.
- Olha quem se apresentou aí a cantar à desgarrada: dois melros e um cuco. Emociona-te até às lágrimas e não tenhas vergonha!
- Os professores disseram de sua justiça ontem com manifestação de 50 mil a descerem do Marquês aos Restauradores. Bonito! É preciso fazer frente à serie de desajeitados ministros que desde o tempo de Guterres semearam urtigas no caminho já de si tortuoso do ensino.
Ontem à noite fui desafiado pelo Príncipe e dois outros amigos para o teatro O Bando onde tinha lugar uma sessão de poesia ao ar livre. Quando cheguei surgiu uma actriz a oferecer-me uma manta para os joelhos e logo me deixei seduzir ante o inusitado conforto que se veria a revelar imprescindível. Já lá vamos. Poesia ao Ar assim se chamava o espectáculo dos actores do Vale dos Barris que reunia debaixo de uma majestosa figueira não só a trupe residente como a população convidada. Pelo que percebi, dias antes, tinha havido ensaios com gente anónima de forma a treiná-la para dizer poesia de autores “lusófonos”, de Al Berto a Sophia passando por João Cabral de Melo Neto e Almeida Garrett. A sessão como eu esperava começou titubeante. Sobretudo porque corria um vento gélido e o frio a pouco e pouco tornara-se insuportável. Eu próprio passei a manta a um dos meus amigos e cobri-me (a cabeça incluída) com um edredão acolchoado e assim refastelado na cadeira de lona deixei-me ir na corrente poética que desemperrara e semeara na noite as vozes dos poetas vencida a indecisão dos presentes. A tal ponto que a dada altura também me levantei para dizer de cor poemas de Sophia, Garrett e Pessoa. Claro que tudo aquilo aos olhos das gentes citadinas e dondoqueiras (curiosamente havia muitos lisboetas vindos da capital), parecia um espectáculo de amadores de província. Mas era precisamente esse lado espontâneo, com aquela graça simples suportada por uma cultura vibrante, que mais me seduziu e acabou por me arrastar. Todos liam os poemas, mas eu não fora preparado para isso e debitei de cabeça solta poemas que me puseram no centro do espectáculo com direito a palmas e cumprimentos da trupe de actores e público anónimo. Por volta da meia-noite, transidos de frio, bebeu-se Moscatel e viemos depois cá a casa aquecermo-nos com um chá de menta aqui da quinta, muita conversa e risada. Deitei-me pelas duas da madrugada.
- Olha quem se apresentou aí a cantar à desgarrada: dois melros e um cuco. Emociona-te até às lágrimas e não tenhas vergonha!
- Os professores disseram de sua justiça ontem com manifestação de 50 mil a descerem do Marquês aos Restauradores. Bonito! É preciso fazer frente à serie de desajeitados ministros que desde o tempo de Guterres semearam urtigas no caminho já de si tortuoso do ensino.
sábado, junho 15, 2013
Sábado, 15.
Cavaco Silva processou um pobre alentejano que lhe chamou aquilo que milhares de portugueses não se cansam de apregoar por onde quer que ele e os da sua laia surjam. O provincianismo da criatura não tem paralelo com as origens humildes que o deviam ter preparado para ser mais condescendente. Isto sem contar com o muito que ele e o Governo que sustem trouxeram de nocivo à sociedade portuguesa. Os métodos são pidescos, autoritários e distantes. Já não falta muito para voltarmos às mesmas técnicas repressivas de então. Veja-se o caso de Passos Coelho que pretende alterar a lei da greve só porque os professores ganharam em todas as frentes nas reivindicações que os opõem ao ministro da respectiva pasta, ou na prepotência ou revanchismo que o leva mais uma vez a investir sobre os funcionários públicos e os reformados adiando para Novembro o pagamento do subsídio de férias.
- Foram descobertos na América os diários de Rosenberg. Tenho para mim que se trata de uma das mais importantes descobertas pós-Segunda Grande Guerra, tendo em conta a personalidade do seu autor. A sua crença na pureza da raça, o seu ódio profundo aos judeus, a sua falta de confiança relativamente a Hitler que nunca o considerou como ele desejava, preferindo Goring com quem ele não se dava bem, a sua inteligência e complexidade humanas, o facto de ter estado na origem do fenómeno nazi, de ter ocupado pastas na cultura mesmo antes de Adolfo Hitler subir ao poder, fazem dele um elemento essencial que atravessa todo o bárbaro período da construção e implementação do nazismo. Fervo de curiosidade em ler os vários volumes descobertos. Creio que muita coisa vai ser esclarecida à luz de um pensamento obsessivo, dirigido para o mal, de um pensador que pecava por falta de estratégias pessoais, doente de certa maneira devido à paralisação que o seu cérebro operava quando era chamado a compreender a liberdade de Goethe, por exemplo, relativamente à raça judaica. Alfred Rosenberg era um ideólogo e quando queria provar a sua obcecação pela raça Ariana, portanto, pela superioridade alemã, costumava dar os exemplos de Wagner, Goethe, Schiller, Beethoven ou Schopenhauer.
- Ontem almocei com o Simão no nosso restaurante. Simão que está de partida mais uma vez para a sua adorada italiana de quem fala quase nada. Ironizei: “Tens sorte estar a Itália aqui tão perto. – Se fosse uma chinesa iria à China.” Não lho disse, mas pensei: “Também eu andei uma vida inteira num desassossego de viagens razão pela qual encontro-me hoje esgotado do from-from…” Assim que nos sentámos ele disse: “Tas muito magro.” Respondi: “Faço por isso.” Chegado a casa fui pesar-me: 64 quilos. Para 1,71 não estamos mal. Depois medi a tensão: 13-7. Para a semana vou avaliar o colesterol para saber se dou definitivamente razão ao Tó ou – como penso – somos o que comemos.
- Nas línguas do mundo anda Edward Snowden, antigo funcionário da CIA, que revelou que os Estados Unidos fiscalizam milhões e milhões de cidadãos não só na América como no Japão, China, Europa numa autêntica caça às bruxas que Orwel previu há meio século. A razão é sempre a mesma: protegerem-se contra ataques terroristas e em nome da democracia. Que dá para tudo, até para prenderem o rapaz que teve de fugir para Hong Kong.
- Por cá retorna o velho tema da família tão cara aos políticos e à Igreja. Só que esta está pelas ruas da amargura e há muito que deixou de ser a sacrossanta instituição que todos aprisionavam. Mais uma tragédia aconteceu para os lados de Loures. Um homem de vinte a tal anos, esperou a mulher à saída da escola onde costumava levar a filha e matou-a a ela e a uma amiga para depois pôr termo á vida.
Cavaco Silva processou um pobre alentejano que lhe chamou aquilo que milhares de portugueses não se cansam de apregoar por onde quer que ele e os da sua laia surjam. O provincianismo da criatura não tem paralelo com as origens humildes que o deviam ter preparado para ser mais condescendente. Isto sem contar com o muito que ele e o Governo que sustem trouxeram de nocivo à sociedade portuguesa. Os métodos são pidescos, autoritários e distantes. Já não falta muito para voltarmos às mesmas técnicas repressivas de então. Veja-se o caso de Passos Coelho que pretende alterar a lei da greve só porque os professores ganharam em todas as frentes nas reivindicações que os opõem ao ministro da respectiva pasta, ou na prepotência ou revanchismo que o leva mais uma vez a investir sobre os funcionários públicos e os reformados adiando para Novembro o pagamento do subsídio de férias.
- Foram descobertos na América os diários de Rosenberg. Tenho para mim que se trata de uma das mais importantes descobertas pós-Segunda Grande Guerra, tendo em conta a personalidade do seu autor. A sua crença na pureza da raça, o seu ódio profundo aos judeus, a sua falta de confiança relativamente a Hitler que nunca o considerou como ele desejava, preferindo Goring com quem ele não se dava bem, a sua inteligência e complexidade humanas, o facto de ter estado na origem do fenómeno nazi, de ter ocupado pastas na cultura mesmo antes de Adolfo Hitler subir ao poder, fazem dele um elemento essencial que atravessa todo o bárbaro período da construção e implementação do nazismo. Fervo de curiosidade em ler os vários volumes descobertos. Creio que muita coisa vai ser esclarecida à luz de um pensamento obsessivo, dirigido para o mal, de um pensador que pecava por falta de estratégias pessoais, doente de certa maneira devido à paralisação que o seu cérebro operava quando era chamado a compreender a liberdade de Goethe, por exemplo, relativamente à raça judaica. Alfred Rosenberg era um ideólogo e quando queria provar a sua obcecação pela raça Ariana, portanto, pela superioridade alemã, costumava dar os exemplos de Wagner, Goethe, Schiller, Beethoven ou Schopenhauer.
- Ontem almocei com o Simão no nosso restaurante. Simão que está de partida mais uma vez para a sua adorada italiana de quem fala quase nada. Ironizei: “Tens sorte estar a Itália aqui tão perto. – Se fosse uma chinesa iria à China.” Não lho disse, mas pensei: “Também eu andei uma vida inteira num desassossego de viagens razão pela qual encontro-me hoje esgotado do from-from…” Assim que nos sentámos ele disse: “Tas muito magro.” Respondi: “Faço por isso.” Chegado a casa fui pesar-me: 64 quilos. Para 1,71 não estamos mal. Depois medi a tensão: 13-7. Para a semana vou avaliar o colesterol para saber se dou definitivamente razão ao Tó ou – como penso – somos o que comemos.
- Nas línguas do mundo anda Edward Snowden, antigo funcionário da CIA, que revelou que os Estados Unidos fiscalizam milhões e milhões de cidadãos não só na América como no Japão, China, Europa numa autêntica caça às bruxas que Orwel previu há meio século. A razão é sempre a mesma: protegerem-se contra ataques terroristas e em nome da democracia. Que dá para tudo, até para prenderem o rapaz que teve de fugir para Hong Kong.
- Por cá retorna o velho tema da família tão cara aos políticos e à Igreja. Só que esta está pelas ruas da amargura e há muito que deixou de ser a sacrossanta instituição que todos aprisionavam. Mais uma tragédia aconteceu para os lados de Loures. Um homem de vinte a tal anos, esperou a mulher à saída da escola onde costumava levar a filha e matou-a a ela e a uma amiga para depois pôr termo á vida.
quinta-feira, junho 13, 2013
Quinta, 13.
Anseio por voltar à minha saborosa rotina de todos os dias, ao silêncio, à solidão onde o essencial acontece. É verdade que tanto a Piedade como o Roman são pessoas da minha estima e que me estimam, mas o desarranjo deste dias não me tem permitido regressar à escrita, às leituras, ao sossego propício a actividades que têm no silêncio o leitmotiv. Por isso, decidi suspender o muito que há para fazer aqui. A partir de amanhã estou livre para almoçar com o Simão, vaguear se me apetecer por Lisboa, encontrar-me com amigos, ir aos brocantes de Setúbal, enfim, fazer o que desejar sem o fardo de assistir a estas pessoas indispensáveis. A propósito do Simão com quem ontem ao telefone desabafei acerca dos custos que uma quinta constantemente demanda, ele mostrou-se compreensivo e acrescentou que os seus vizinhos de Paredes costumam dizer que, sendo proprietários de pequenas quintas de vilegiatura, estas os vão “empobrecendo alegremente”. É o meu caso.
- O Governo Grego, sem dar qualquer explicação ao povo e aos funcionários da televisão estatal, como se fosse seu proprietário, desligou as câmaras e fechou a empresa. Invoca para o seu gesto discricionário ordens da troika. A revolta foi imediata não só na Grécia como em toda a Europa. Eu se mandasse teria abandonado no mesmo instante a UE.
Anseio por voltar à minha saborosa rotina de todos os dias, ao silêncio, à solidão onde o essencial acontece. É verdade que tanto a Piedade como o Roman são pessoas da minha estima e que me estimam, mas o desarranjo deste dias não me tem permitido regressar à escrita, às leituras, ao sossego propício a actividades que têm no silêncio o leitmotiv. Por isso, decidi suspender o muito que há para fazer aqui. A partir de amanhã estou livre para almoçar com o Simão, vaguear se me apetecer por Lisboa, encontrar-me com amigos, ir aos brocantes de Setúbal, enfim, fazer o que desejar sem o fardo de assistir a estas pessoas indispensáveis. A propósito do Simão com quem ontem ao telefone desabafei acerca dos custos que uma quinta constantemente demanda, ele mostrou-se compreensivo e acrescentou que os seus vizinhos de Paredes costumam dizer que, sendo proprietários de pequenas quintas de vilegiatura, estas os vão “empobrecendo alegremente”. É o meu caso.
- Sondei durante muito tempo Espinosa como Nietzsche de resto. Yalom, no seu livro, aconselha qualquer pessoa que se interesse pelo polidor de lentes que comece pelo Tratado Político. É o que faço agora, tendo antes lido coisas completamente herméticas para mim e, por isso, impossíveis de me levar ao pensamento do filósofo judeu de origem portuguesa. Acontece porém, que o autor de Ética, está traduzido em Portugal (Circulo de Leitores) por Diogo Pires Aurélio que eu encontrei no Diário de Notícias quando fazia jornalismo. A tradução é feita do latim com introdução e notas do antigo camarada. Que estudo surpreendente! Não esperava tanta eloquência e profundidade de abordagem! Normalmente não confio muito nos hypomnéma filosóficos portugueses. No caso de DPA foi uma agradável surpresa que me tem arrastado de página em página. Espinosa, lá onde se encontre, sabe que o seu discípulo o engrandece. Nec plus ultra.
- Ontem ao fim da tarde, depois do Roman ter saído, fui observar as árvores. Que tristeza! À parte as macieiras e as ameixieiras, tudo o resto não exibe um único fruto. Eu que tinha damascos para dar e vender! Os seis meses de chuva e frio, destruíram esta grande família que todos os anos sustenta de vitaminas um vasto grupo de gente. Procedi até tarde uma tarefa que me repugna: escolher de entre os cachos minúsculos de frutos os que irão sobreviver à morte antecipada.
- O Governo Grego, sem dar qualquer explicação ao povo e aos funcionários da televisão estatal, como se fosse seu proprietário, desligou as câmaras e fechou a empresa. Invoca para o seu gesto discricionário ordens da troika. A revolta foi imediata não só na Grécia como em toda a Europa. Eu se mandasse teria abandonado no mesmo instante a UE.
quarta-feira, junho 12, 2013
Quarta,
12.
Cavaco Silva tem uma tal sofreguidão por se impor entre os melhores economistas internacionais que dispara incongruências típicas do indígena vindo dos confins da savana. Aquela de em Estrasburgo dispensar o FMI é de palmatória. Pergunta-se então para que serve a verba que Portugal envia para a instituição anualmente e se a ajuda que ela por três vezes nos prestou não foi oportuna e gratificante.
- Trabalho sob o ruído ensurdecedor da rebarbadora que o Roman utiliza para substituir os tubos da salamandra da sala de jantar. Desde cedo que estou debaixo de intenso barulho: de manhã da roçadora, à tarde desta máquina infernal. Que seja para bem e beleza deste espaço e do seu frágil proprietário.
Cavaco Silva tem uma tal sofreguidão por se impor entre os melhores economistas internacionais que dispara incongruências típicas do indígena vindo dos confins da savana. Aquela de em Estrasburgo dispensar o FMI é de palmatória. Pergunta-se então para que serve a verba que Portugal envia para a instituição anualmente e se a ajuda que ela por três vezes nos prestou não foi oportuna e gratificante.
- Julien Green não é só um grande
escritor, é também uma personalidade cativante de um humor contagiante. Não
traduzo o texto que encontrei abrindo ao azar o livro La terra est si belle…,
porque espero que os meus leitores compreendam o francês e se deliciem ao invés
da moda do inglês que é quanto a mim uma língua de trapos que me esforço por
não ler. O autor de Chaque homme dans sa nuit acabou de chegar a Edimburgo
com reserva marcada no Borthwick Castle. Chega cansado e no adiantado da noite.
O quarto que lhe foi preparado – diz-lhe o rapaz que o recebe – pertenceu a
Marie Stuart (aconselho a leitura de Maria Stuart de Stefan Zweig cujo
retrato da infeliz rainha é detalhadamente descrito e é fabuloso). Antes de dormir regista: seul,
j´examine le lit. Une petit brochure affirme que c´est le lit même de Marie
Stuart. Je m´efforce de lui voir un air victorien, mais non, il est sans doute
authentique. Vraiment faux, il m´eût tranquillisé. Que ces choses sont
difficiles à dire ! je n´ai aucune envie de dormir dans le lit de la
raine, je ne veux pas qu´elle vienne me demander ce que je fais là. Enfin je me
couche et rabats ma couverture par-dessus l´oreille avant d´éteindre. Marie
Stuart, au nom du ciel, fichez-moi la paix ! Je passe une nuit sans
apparitions, car c´est une dame polie et elle m´a laissé tranquille. Elle a
souffert entre ses murs, mais y a dansé en sautant à la mode du temps dans une
pièce voisine avec le redoutable Bothwell.
- Trabalho sob o ruído ensurdecedor da rebarbadora que o Roman utiliza para substituir os tubos da salamandra da sala de jantar. Desde cedo que estou debaixo de intenso barulho: de manhã da roçadora, à tarde desta máquina infernal. Que seja para bem e beleza deste espaço e do seu frágil proprietário.
terça-feira, junho 11, 2013
Terça, 11.
As águas lodaçais da política andam agitadas. O Dia de Portugal de resto não se fez para outra coisa: charabia, charabia e mais charabia. Este ano é o povo que atrai os media perseguindo em todo o lado com a sua ira os governantes. Estes prestam-se às maiores humilhações porque antes os urros da plebe ao longe que a perda das benesses que o domínio oferece a quem dele se aproxima. “Cães que ladram não mordem”, pensam eles refastelados na cadeira do poder, convencidos que nunca serão destronados. Será?
- Apesar deste tempo maussade as árvores estão em flor, os melros cantam, uma alegria ligeira paira indiferente aos obstáculos à felicidade que se levantam como um muro de cimento armado no nosso horizonte. Não posso deixar de registar estes momentos que abrem na espessura da vida clareiras de luz.
- No Iraque que Bush e Durão Barroso puseram a ferro e fogo, tanto tempo volvido sobre a “libertação” dos americanos, o caos e a morte prossegue o seu caminho para… não sabemos. Todos os dias morre gente em ódios religiosos e tribais. Este mês tem sido trágico em atentados. Os iraquianos foram abandonados à sua sorte depois de lhe terem deixado o país em ruínas, na pobreza e na humilhação.
- É justa nesta altura a greve dos professores? É. Injustiçados e humilhados, não lhes restava outra alternativa depois de promessas não cumpridas, pactos rasgados, e a incrível falta de sensibilidade para perceber uma profissão que é hoje uma das mais difíceis e perigosas. Professores não são políticos ou operários fabris. São docentes que não param de trabalhar e é em casa, pós-laboral, que realizam muito do seu trabalho.
As águas lodaçais da política andam agitadas. O Dia de Portugal de resto não se fez para outra coisa: charabia, charabia e mais charabia. Este ano é o povo que atrai os media perseguindo em todo o lado com a sua ira os governantes. Estes prestam-se às maiores humilhações porque antes os urros da plebe ao longe que a perda das benesses que o domínio oferece a quem dele se aproxima. “Cães que ladram não mordem”, pensam eles refastelados na cadeira do poder, convencidos que nunca serão destronados. Será?
- Apesar deste tempo maussade as árvores estão em flor, os melros cantam, uma alegria ligeira paira indiferente aos obstáculos à felicidade que se levantam como um muro de cimento armado no nosso horizonte. Não posso deixar de registar estes momentos que abrem na espessura da vida clareiras de luz.
- No Iraque que Bush e Durão Barroso puseram a ferro e fogo, tanto tempo volvido sobre a “libertação” dos americanos, o caos e a morte prossegue o seu caminho para… não sabemos. Todos os dias morre gente em ódios religiosos e tribais. Este mês tem sido trágico em atentados. Os iraquianos foram abandonados à sua sorte depois de lhe terem deixado o país em ruínas, na pobreza e na humilhação.
- É justa nesta altura a greve dos professores? É. Injustiçados e humilhados, não lhes restava outra alternativa depois de promessas não cumpridas, pactos rasgados, e a incrível falta de sensibilidade para perceber uma profissão que é hoje uma das mais difíceis e perigosas. Professores não são políticos ou operários fabris. São docentes que não param de trabalhar e é em casa, pós-laboral, que realizam muito do seu trabalho.
domingo, junho 09, 2013
Domingo,
9.
Li com extremo encanto a entrevista do escultor Alberto Carneiro ao Público de hoje. O artista reforçou em mim a certeza que só se é grande quando nos detemos nos pormenores, nas coisas pequenas que atravessam os filamentos da sensibilidade, com mágoa ou alegria, mas sempre penetrantes, capazes de serem tocados pela graça da memória que é a companhia de uma vida do coração. A casa que foi a sua construída com a ajuda do pai no toutiço de uma cerejeira, anos mais tarde cortada pelo progenitor e depois transformada numa escultura pelo filho, é uma maravilhosa parábola que só um artista da sua dimensão consegue traduzir e eternizá-la numa obra de arte recheada de simbolismo e felicidade. Quando lhe perguntam se foi feliz nascido de uma família pobre e sem recursos, ele responde que a riqueza em nada contribui para a alegria de uma criança indo em contra-ciclo com o que hoje obsessivamente se pretende impor. Maravilhosa etapa a velhice. Sobretudo quando amparada pela cultura, o conhecimento constante, a curiosidade, a revolta e o trabalho que consagra e enaltece.
Li com extremo encanto a entrevista do escultor Alberto Carneiro ao Público de hoje. O artista reforçou em mim a certeza que só se é grande quando nos detemos nos pormenores, nas coisas pequenas que atravessam os filamentos da sensibilidade, com mágoa ou alegria, mas sempre penetrantes, capazes de serem tocados pela graça da memória que é a companhia de uma vida do coração. A casa que foi a sua construída com a ajuda do pai no toutiço de uma cerejeira, anos mais tarde cortada pelo progenitor e depois transformada numa escultura pelo filho, é uma maravilhosa parábola que só um artista da sua dimensão consegue traduzir e eternizá-la numa obra de arte recheada de simbolismo e felicidade. Quando lhe perguntam se foi feliz nascido de uma família pobre e sem recursos, ele responde que a riqueza em nada contribui para a alegria de uma criança indo em contra-ciclo com o que hoje obsessivamente se pretende impor. Maravilhosa etapa a velhice. Sobretudo quando amparada pela cultura, o conhecimento constante, a curiosidade, a revolta e o trabalho que consagra e enaltece.
- Já percebi, o correctivo que Passos
Coelho inflige aos gestores especuladores que contribuíram e de que maneira
para estarmos na situação em que nos encontramos, é transferi-los da empresa
que os associa aos swaps para outra onde prosseguem tranquilamente as
suas acções de administradores iluminados e ex-tre-ma-men-te espertos. É o caso
do presidente da Carris que preside agora na Refer onde guardou o “lugar de
recuo”. Ai dos pobres dos donos das sapatarias da Baixa e de milhares de
empresários que todos os dias são obrigados a lutar sem rede.
- A fantochada que nos desgraça a vida
chamada União Europeia não podia estar melhor. Depois de praticarem toda a
sorte de crimes contra os gregos, estenderam na praça pública o lençol
esburacado das suas incompetências. O FMI acusa, em relatório, a Comissão
Europeia de erros crassos e “falhanços notáveis” no primeiro plano de resgate à
Grécia. Todos assinaram o documento, mas nem todos querem assumir a humilhação
que infligiram a um país soberano. E lembrar-me eu do modo como aquele vulgar
ex-presidente da França Sarkozy junto com a senhora Merkel trataram o senhor
Papandreu.
- Por aqui típico dia de inverno. O
chapéu de chumbo enfiado na abobada celeste, traduziu-se numa atmosfera húmida
e fria, desoladora e stressante. Pior está a Europa central, onde chuvas
diluvianas arrastaram casas e carros, destruíram estradas e inundaram extensas
zonas: Alemanha, República Checa, França…
- Quando o Roman apareceu, a primeira
pergunta que lhe fiz foi se já tinha matado um russo. Ele tinha saído daqui há
dois com esse desígnio comum à maioria dos povos eslavos submetidos durante
anos à tirania da ex-URSS: escrever um livro, fazer um filho e matar um russo. Fez
uma filha, imprimiu o livro do pai com a ajuda do irmão, mas quanto ao russo
ficou adiado. O que ele realizou no espaço de dois anos de casado, foi uma
descomunal barriga que se aproxima da do Eugénio. Que pança redonda! Como veio
sem dinheiro e o trabalho não abunda, espero que tire partido da desgraça e
regresse mais leve. Disse-lhe: “Como pode uma mulher gostar disso!” Resposta:
“Sabe, eu sou muito bonito e elas não resistem.”
sábado, junho 08, 2013
Sábado, 8.
Estes dias trabalhei de sol a sol sem tempo para a escrita nem para a leitura. Roman voltou e com ele iniciei um longo trabalho que parece não terminar mais. Acresce que o clima alterou e uma parte desse trabalho teve que ser transferido para dentro de casa onde pequenas grandes coisas exigiam reparo a par de toda sorte de imprevistos e consequentes despesas. Destas não me quero lembrar para não ter um enfarte. Enfatizo o agradável que é ver a quinta asseada, com os espaços livres do mato, agigantar-se por mor disso além dos limites que me são próprios, as árvores respirando melhor, os pequenos répteis ao alcance do Black que lhes faz guarda, a água das chuvas e das regas penetrando na raiz profunda quais alicerces fortalecendo e renovando frutos e folhagem. Estamos numa espécie de Éden luxuriante, com as estrelícias, as hortênsias, os morangos, as maçãs, os agapantos, as gazânias, os bulbines, os arctotis, os jarros, os acantos numa exuberância de acelerar o coração mais calaceiro.
- Não nos iludamos porém. Queiramos ou não, à nossa porta vem bater as desgraças de um mundo surpreendido pelas rachas que se abrem nos muros que nos asseguraram sólidos para o resto da vida. Com amargura e desencanto, verificamos que fomos enganados e tudo o que nos prometeram ou nos suprimem ou fazem-nos pagar com língua de fora e miséria para meio século. Os efeitos colaterais são imensos. Cá dentro como lá fora, nessa Europa do euro empalidecido, a juventude atarantada organiza-se em bandos e mata-se a si própria por um par de óculos de sol, um portátil ou por uma palavra atirada no jorro do ódio como aconteceu em Paris esta semana, os velhos são despejados nas ruas, a fome instala-se, as greves paralisam, a doença alastra nos corpos deslaçados, enfraquecidos pelos problemas quotidianos, egoísta, que despreza os outros e tem medo da hora seguinte, num venha a nós de sobrevivência selvagem que remete para o vazio a solidariedade, a compaixão e o amor. Os Mandamentos de Deus foram rasgados, não só pelos que O imploram apenas para gratificações mesquinhas, como pelos sacerdotes que se misturaram na política e com ela inundaram de lama as crenças milenárias, a fé simples que se manifesta na oração, no recolhimento que não cede à propaganda, ao ritmo a que os pacóvios chamam moderno. Ainda possuímos alguma liberdade. Resta saber até quando.
Estes dias trabalhei de sol a sol sem tempo para a escrita nem para a leitura. Roman voltou e com ele iniciei um longo trabalho que parece não terminar mais. Acresce que o clima alterou e uma parte desse trabalho teve que ser transferido para dentro de casa onde pequenas grandes coisas exigiam reparo a par de toda sorte de imprevistos e consequentes despesas. Destas não me quero lembrar para não ter um enfarte. Enfatizo o agradável que é ver a quinta asseada, com os espaços livres do mato, agigantar-se por mor disso além dos limites que me são próprios, as árvores respirando melhor, os pequenos répteis ao alcance do Black que lhes faz guarda, a água das chuvas e das regas penetrando na raiz profunda quais alicerces fortalecendo e renovando frutos e folhagem. Estamos numa espécie de Éden luxuriante, com as estrelícias, as hortênsias, os morangos, as maçãs, os agapantos, as gazânias, os bulbines, os arctotis, os jarros, os acantos numa exuberância de acelerar o coração mais calaceiro.
- Não nos iludamos porém. Queiramos ou não, à nossa porta vem bater as desgraças de um mundo surpreendido pelas rachas que se abrem nos muros que nos asseguraram sólidos para o resto da vida. Com amargura e desencanto, verificamos que fomos enganados e tudo o que nos prometeram ou nos suprimem ou fazem-nos pagar com língua de fora e miséria para meio século. Os efeitos colaterais são imensos. Cá dentro como lá fora, nessa Europa do euro empalidecido, a juventude atarantada organiza-se em bandos e mata-se a si própria por um par de óculos de sol, um portátil ou por uma palavra atirada no jorro do ódio como aconteceu em Paris esta semana, os velhos são despejados nas ruas, a fome instala-se, as greves paralisam, a doença alastra nos corpos deslaçados, enfraquecidos pelos problemas quotidianos, egoísta, que despreza os outros e tem medo da hora seguinte, num venha a nós de sobrevivência selvagem que remete para o vazio a solidariedade, a compaixão e o amor. Os Mandamentos de Deus foram rasgados, não só pelos que O imploram apenas para gratificações mesquinhas, como pelos sacerdotes que se misturaram na política e com ela inundaram de lama as crenças milenárias, a fé simples que se manifesta na oração, no recolhimento que não cede à propaganda, ao ritmo a que os pacóvios chamam moderno. Ainda possuímos alguma liberdade. Resta saber até quando.
quarta-feira, junho 05, 2013
Quarta, 5.
Eu não tenho prazer nenhum em falar do meu país e muito menos em nele viver. Pelos portugueses sinto um misto de compaixão e raiva; pelos políticos um grande ódio e azedume. Vale-me este refúgio onde a barreira do vento e do silêncio não deixa passar as promessas cínicas desses vendilhões do templo em ruínas. Cá em casa só entra quem eu quero e cada vez deixo menos aproximar-se a vulgaridade, a vanidade e a hipocrisia. Morrei só como nasci na companhia apenas da grande solidão que nos ensina a luta pela dignificação de nós mesmos.
- Mas não consigo nem posso ficar calado perante as injustiças, as falsidades e os atropelos à respeitabilidade humana. Estes tipos têm a mesma sensibilidade de Hitler que ouvia religiosamente Richard Wagner à noite e matava milhares de pessoas durante o dia. Reparem naquela do governador do Banco de Portugal segundo o qual as sapatarias chiques da Baixa não vendem sapatos a toda a gente que passa às suas portas, mas só àqueles que têm dinheiro para os comparar. Este exemplo do inteligentíssimo economista, foi utilizado para reforçar a prática dos bancos que só podem dar crédito a quem o pagar. Esquecendo-se de informar que os bancos praticam toda a sorte de corrupção, desvios de dinheiros, branqueamento de capitais, usurpação, negócios ilícitos e tudo o que lhes apeteça que nunca entram em falência pelo simples facto de que o Estado lá está para os ajudar com o dinheiro dos contribuintes, ao contrário das sapatarias que fecharão as portas se os ricos banqueiros não lhes compararem os chanatos de luxo.
- Aqui como por essa Europa do Euro. Quem me lê com frequência - parece que há muita gente, enfim, orgulho meu… -, recordar-se-á que sempre afirmei que quando chegasse a vez de a França entrar em declínio outro galo cantaria. A União Europeia é uma fantasia que só interessa aos grandes países que a ela se submetem como e quando lhes interessa, reduzindo os pequenos países a meros contribuintes e a laboratórios de experiências sociais e económicas. É o que está acontecer neste momento. Enquanto nós e mais uns quantos agonizam e empobrecem a França, Holanda e Espanha usufruem do alargamento dos prazos de consolidação das contas públicas. Dois pesos e duas medidas! Portugal de chapéu na mão ainda agradece.
- Faz hoje dois anos que o Governo de Pedro Passos Coelho entrou em funções – uma enorme desilusão!
- Cem mil mortos na Síria em três anos de guerra!
Eu não tenho prazer nenhum em falar do meu país e muito menos em nele viver. Pelos portugueses sinto um misto de compaixão e raiva; pelos políticos um grande ódio e azedume. Vale-me este refúgio onde a barreira do vento e do silêncio não deixa passar as promessas cínicas desses vendilhões do templo em ruínas. Cá em casa só entra quem eu quero e cada vez deixo menos aproximar-se a vulgaridade, a vanidade e a hipocrisia. Morrei só como nasci na companhia apenas da grande solidão que nos ensina a luta pela dignificação de nós mesmos.
- Mas não consigo nem posso ficar calado perante as injustiças, as falsidades e os atropelos à respeitabilidade humana. Estes tipos têm a mesma sensibilidade de Hitler que ouvia religiosamente Richard Wagner à noite e matava milhares de pessoas durante o dia. Reparem naquela do governador do Banco de Portugal segundo o qual as sapatarias chiques da Baixa não vendem sapatos a toda a gente que passa às suas portas, mas só àqueles que têm dinheiro para os comparar. Este exemplo do inteligentíssimo economista, foi utilizado para reforçar a prática dos bancos que só podem dar crédito a quem o pagar. Esquecendo-se de informar que os bancos praticam toda a sorte de corrupção, desvios de dinheiros, branqueamento de capitais, usurpação, negócios ilícitos e tudo o que lhes apeteça que nunca entram em falência pelo simples facto de que o Estado lá está para os ajudar com o dinheiro dos contribuintes, ao contrário das sapatarias que fecharão as portas se os ricos banqueiros não lhes compararem os chanatos de luxo.
- Aqui como por essa Europa do Euro. Quem me lê com frequência - parece que há muita gente, enfim, orgulho meu… -, recordar-se-á que sempre afirmei que quando chegasse a vez de a França entrar em declínio outro galo cantaria. A União Europeia é uma fantasia que só interessa aos grandes países que a ela se submetem como e quando lhes interessa, reduzindo os pequenos países a meros contribuintes e a laboratórios de experiências sociais e económicas. É o que está acontecer neste momento. Enquanto nós e mais uns quantos agonizam e empobrecem a França, Holanda e Espanha usufruem do alargamento dos prazos de consolidação das contas públicas. Dois pesos e duas medidas! Portugal de chapéu na mão ainda agradece.
- Faz hoje dois anos que o Governo de Pedro Passos Coelho entrou em funções – uma enorme desilusão!
- Cem mil mortos na Síria em três anos de guerra!
segunda-feira, junho 03, 2013
Segunda,
3.
É pela fresca que agora trabalho no campo. Levanto-me cedo e hoje andei a tratar as macieiras que aqui são nascidas com o nome de riscadinhas. Trata-se de uma qualidade única, que possui perfume, macieza e sumo. Depois de abrir a caldeira arrancando a erva daninha, aplico adubo e rego. Amanhã vou fazer o mesmo aos pessegueiros, às figueiras e por aí a eito. Saio da sessão ainda mais torto, os rins em papa. Que importa! Por sobre as dores renasce o bem-estar, o corpo e a mente solta-se e o dia parece lançado sobre os patins do bem-estar e do dever cumprido. A Natureza encarrega-se de mim e eu zelosamente dela.
É pela fresca que agora trabalho no campo. Levanto-me cedo e hoje andei a tratar as macieiras que aqui são nascidas com o nome de riscadinhas. Trata-se de uma qualidade única, que possui perfume, macieza e sumo. Depois de abrir a caldeira arrancando a erva daninha, aplico adubo e rego. Amanhã vou fazer o mesmo aos pessegueiros, às figueiras e por aí a eito. Saio da sessão ainda mais torto, os rins em papa. Que importa! Por sobre as dores renasce o bem-estar, o corpo e a mente solta-se e o dia parece lançado sobre os patins do bem-estar e do dever cumprido. A Natureza encarrega-se de mim e eu zelosamente dela.
- Somam-se os furacões e os mortos. Em
Oklahoma onde estes fenómenos não param, mais 14 pessoas encontraram a morte à
passagem destes monstros destruidores. Como sempre as imagens que nos chegam à
hora de jantar, são impressionantes. E pensar que mais uma vez só os pobres são
atingidos, porque os ricos têm dinheiro para fazer uma simples cave interior ou
exterior.
- Os tumultos estendem-se a várias
cidades da Turquia. Em Ankara, a capital, uma cidade feiona à excepção do seu
museu que é magnífico, onde está o mausoléu daquele que os turcos chamam o pai
da Turquia moderna, Ataturk, construído à moda das monstruosidades
estalinistas, os confrontos com a polícia tomaram uma violência que parece
indiciar o ajuste de contas com um Governo que pende para o islamismo reduzindo
a grande abertura religiosa e social existente.
- Vou despachar-me para Lisboa. Tenho
um livro a levantar na fnac, um encontro (fugaz) com a Alzira, outro no
Hospital dos Capuchos com o meu oftalmologista. Vou num pé e venho no outro
porque ao fim da tarde devo ter aqui o técnico que vem reparar os skimers.
domingo, junho 02, 2013
Domingo, 2 de Junho.
O primeiro-ministro turco Recep-Erdogan, acaba de comprar uma guerra. Na origem dos violentos confrontos ocorridos em Istambul ontem e anteontem, está a alteração da célebre praça Taksim que eu atravessei muitas vezes sempre fascinado pela sua beleza, grandeza e cheia de árvores frondosas onde os habitantes da capital conversam e sorriem o dia inteiro, para erguer um centro comercial. Todos estão em desacordo com a mudança e despacharam-se para a rua manifestando o seu descontentamento. Como em qualquer regime ditatorial, a polícia a mando do chefe, carregou com violência. O povo enfrentou-a com ódio e raiva, aproveitando para dizer de sua justiça e repetindo que está farto de ser oprimido e controlado.
- Para que não digam que estou sempre contra, aqui vai um elogio (suave) a Passos Coelho. Estou absolutamente de acordo com a responsabilização que ele faz aos gestores das empresas públicas que praticaram a ganância com dinheiro que não lhes pertencia, causando um prejuízo ao Estado de milhares de milhões de euros. Espero que a “responsabilização” chegue aos tribunais. De contrário é como não acontece-se nada e cá estão sempre os mesmos para pagar.
- O que é melhor para uma criança: ser adoptada por um casal gay ou ser atirada para um reformatório?
- Gloriosa manhã de ontem. Durante duas horas, primeiro com a Luísa e depois com o António, passeei na feira dos brocantes na deliciosa Luísa Todi. Luz de um brilho intenso, antes do calor da tarde, sob as árvores e pelo meio das esplanadas, admirando livros velhos, cacos, porcelanas. Nunca saio sem trazer qualquer coisa, porque tudo me atrai, fascina, a começar pelas coisas simples, no caso um cesto antigo.
O primeiro-ministro turco Recep-Erdogan, acaba de comprar uma guerra. Na origem dos violentos confrontos ocorridos em Istambul ontem e anteontem, está a alteração da célebre praça Taksim que eu atravessei muitas vezes sempre fascinado pela sua beleza, grandeza e cheia de árvores frondosas onde os habitantes da capital conversam e sorriem o dia inteiro, para erguer um centro comercial. Todos estão em desacordo com a mudança e despacharam-se para a rua manifestando o seu descontentamento. Como em qualquer regime ditatorial, a polícia a mando do chefe, carregou com violência. O povo enfrentou-a com ódio e raiva, aproveitando para dizer de sua justiça e repetindo que está farto de ser oprimido e controlado.
- Para que não digam que estou sempre contra, aqui vai um elogio (suave) a Passos Coelho. Estou absolutamente de acordo com a responsabilização que ele faz aos gestores das empresas públicas que praticaram a ganância com dinheiro que não lhes pertencia, causando um prejuízo ao Estado de milhares de milhões de euros. Espero que a “responsabilização” chegue aos tribunais. De contrário é como não acontece-se nada e cá estão sempre os mesmos para pagar.
- O que é melhor para uma criança: ser adoptada por um casal gay ou ser atirada para um reformatório?
- Gloriosa manhã de ontem. Durante duas horas, primeiro com a Luísa e depois com o António, passeei na feira dos brocantes na deliciosa Luísa Todi. Luz de um brilho intenso, antes do calor da tarde, sob as árvores e pelo meio das esplanadas, admirando livros velhos, cacos, porcelanas. Nunca saio sem trazer qualquer coisa, porque tudo me atrai, fascina, a começar pelas coisas simples, no caso um cesto antigo.
sexta-feira, maio 31, 2013
Sexta,
31.
Parole, parole, parole como na canção de Dalida. Esta é forma usual de fazer política e iludir os incautos que os burgueses do champanhe e caviar utilizam. Mário Soares reuniu a “esquerda” num comício na Aula Magna sob o desígnio Libertar Portugal da Austeridade. Mas no Parlamento, horas antes, o líder da bancada do PS, propalou a sofreguidão do poder “com a direita ou com a esquerda”. Esta marmelada nauseabunda, diz tudo o que se pode esperar do partido de Sócrates. O que devia estar em análise era o crime cometido por todos os partidos sem excepção que levou o país ao estado calamitoso em que se encontra. Os portugueses com esta democracia não passam de fantoches nas mãos de criaturas odientas e incompetentes, que baranham para voltar a dar a seu favor. Uns saloios na sua maioria. Basta ouvir o discurso do novo homem forte da CGD para se perceber a natureza e as origens desta casta de iluminados.
Parole, parole, parole como na canção de Dalida. Esta é forma usual de fazer política e iludir os incautos que os burgueses do champanhe e caviar utilizam. Mário Soares reuniu a “esquerda” num comício na Aula Magna sob o desígnio Libertar Portugal da Austeridade. Mas no Parlamento, horas antes, o líder da bancada do PS, propalou a sofreguidão do poder “com a direita ou com a esquerda”. Esta marmelada nauseabunda, diz tudo o que se pode esperar do partido de Sócrates. O que devia estar em análise era o crime cometido por todos os partidos sem excepção que levou o país ao estado calamitoso em que se encontra. Os portugueses com esta democracia não passam de fantoches nas mãos de criaturas odientas e incompetentes, que baranham para voltar a dar a seu favor. Uns saloios na sua maioria. Basta ouvir o discurso do novo homem forte da CGD para se perceber a natureza e as origens desta casta de iluminados.
- Parece que a folha Excel do senhor
Gaspar voltou a errar. No primeiro trimestre deste ano o défice ficou nos oito
por cento, apesar de toda a austeridade e sacrifícios impostos pelo incompetente
ministro das Finanças. Porque é que não chamam o jovem estudante de Harvard
Thomas Herndon para verificar a referida folha? Ele fazia melhor figura e por
muito menos arrogância e preço.
- Les beaux esprits se rencontrent. Folgo muito. Tendo
estado só durante anos na apreciação ao trabalho e personalidade do nosso Durão,
vejo agora com surpresa juntarem-se a mim a senhora Merkel e o senhor Hollande.
Uma e outro, não abonam em palavras e actos a inteligência do nosso patrício. Ela
ignora-o, ele não lhe obedece. O homem petit do petit pays que
foi lá posto por conveniência dos dois países, vê-se agora ostracizado e
diminuído na sua importância. Resta-lhe a candidatura a Belém, que a ganhará
porque os portugueses não sendo informados vão pelo faz-de-conta e pelo patuá
que o ilustre português tem em desmesura.
- Passos Coelho não trilhando o mesmo
caminho sinuoso do seu antecessor primeiro-ministro (vejam só o nosso azar
sermos governados por gente que traz quase sempre agarrada a tralha suspeitosa
do passado recente!) aproxima-se dele. Interrogado sobre a célebre empresa que
dirigiu chamada Tecnoforma (só o nome diz tudo!), estar a ser investigada por
desvios de fundos europeus, respondeu como respondem na circunstância todos os
que mais tarde os tribunais revelaram culpados: “Estou tranquilo.” Nós, não.
- A Helena do Werner outro dia ao
telefone citando Lord Byron: “Deus criou o campo, os homens as cidades.”
quarta-feira, maio 29, 2013
Quarta,
29.
A arrogância dos benfiquistas, dos jogadores e do seu treinador caiu na sarjeta. Tendo estado em vários jogos a competir para o título, em todos foram derrubados. A última, para a taça de Portugal, com uma equipa com ordenados em atraso, dificuldades imensas, os jogadores auferindo ordenados que comparados com os do clube da Luz podem-se considerar gorjetas, o Vitória de Guimarães provou que não são as golfadas de euros todos os meses que fazem os grandes desportistas.
A arrogância dos benfiquistas, dos jogadores e do seu treinador caiu na sarjeta. Tendo estado em vários jogos a competir para o título, em todos foram derrubados. A última, para a taça de Portugal, com uma equipa com ordenados em atraso, dificuldades imensas, os jogadores auferindo ordenados que comparados com os do clube da Luz podem-se considerar gorjetas, o Vitória de Guimarães provou que não são as golfadas de euros todos os meses que fazem os grandes desportistas.
- Se falo do assunto é para extrapolar
para a evidência hoje lamentavelmente consensual de uma sociedade de pobres
coitados para quem o dinheiro é a obsessão principal das suas vidas. Inculcou-se
nas mentes frágeis pouco preparadas para a luta, para o estudo, o conhecimento,
vamos lá, para a instrução, que a riqueza é o objectivo de uma vida realizada,
a exemplo daquele pai que instruiu o filho “sem dinheiro não és ninguém”. É
como começar uma casa pelo telhado. Os alicerces do indivíduo devem ser o
conhecimento, o trabalho aturado, e não a obcecação de hábitos patológicos de
consumo e cagança. A riqueza, como na parábola do Evangelho, vem por acréscimo.
A cultura dá ao homem bases, instrumentos, formas únicas para enfrentar os
desastres e viver a felicidade na linha do efémero. O conhecimento ensina-nos a
considerar a vida como algo frágil, onde nada está adquirido, onde tudo nasce e
morre ao sabor dos elementos que se juntam para nos paralisar quando menos
esperamos. O saber é infinitamente mais cativante e criativo que a riqueza.
Porque o saber dá-nos felicidade, realiza-nos, fica connosco nos maus e bons
momentos. Ao contrário da riqueza que nos deixa indefesos, ri-se de nós,
atira-nos para a valeta onde os outros fingem não nos ver ou pura e
simplesmente nos ignoram quando deixamos de ser aquilo que possuímos e
não aquilo que somos. A psicopatologia da vida quotidiana é de tal modo
desarranjada face ao indivíduo onde a moral desapareceu e a política que a
substituiu é impregnada de valores enganosos e áridos, que não resta ao homem outra
alternativa que embarcar desamparado no vazio de numa viagem sem rumo nem porto
de abrigo. Como ligação dos dois textos, pergunto qual das duas equipas é nesta
altura mais feliz: a que ganhou o campeonato lutando pelo título com amor à
camisola e ao desporto ou aquela que com todas as condições materiais, profissionalismo
e convencimento o perdeu? Em que medida os imorais ordenados influíram no
resultado?
- Se fosse entrar no ritmo da Maria
José aceitando todos os seus convites, a minha vida caía desamparada não digo
no vazio, mas numa espécie de vertigem imprópria à concentração e ao trabalho
que a escrita impõe. E de dondoco não tenho nada.
- O romance avança com as maiores
dificuldades não obstante a paragem da semana passada. Estou um pouco perdido,
sentindo que as personagens me conduzem contra minha vontade, num jogo de toca
e foge irritante. Vou ter que imprimir as 200 páginas já escritas para olhar
todo este mundo de longe e perceber quem é quem.
- Escrevo estas linhas no Mac de
Setúbal que ainda não foi invadido pelos adolescentes ruidosos que engolem
carne picada, fritos, sumos e outros alimentos que os farão obesos. Na avenida
Luísa Todi o sol não desceu e o ar é frio e crepuscular. A intervalos, descanso
o olhar nas linhas harmoniosas dos prédios, olho quem passa embrulhado nos
agasalhos de inverno e na esplanada onde estão dois velhos enrugados de frio a
ler o jornal. Este interior sereno, antes da invasão dos bárbaros, é o que me
convém e nele me quedo quando tenho oportunidade.
terça-feira, maio 28, 2013
Terça, 28.
Ontem andou aí um homem a acabar o trabalho do primeiro. Deste modo, a quinta voltou a ser um espaço habitável que sobreleva da beleza das árvores de fruto com sua folhagem verde e luminosa e seus frutos do tamanho de nozes. Choveu um pouco durante a noite e tudo ficou mais próximo congregando os elementos e tornando-os, como dizer, mais aconchegantes. O inverno instalou-se de novo com o seu quadro habitual: vento, frio e chuva.
Ontem andou aí um homem a acabar o trabalho do primeiro. Deste modo, a quinta voltou a ser um espaço habitável que sobreleva da beleza das árvores de fruto com sua folhagem verde e luminosa e seus frutos do tamanho de nozes. Choveu um pouco durante a noite e tudo ficou mais próximo congregando os elementos e tornando-os, como dizer, mais aconchegantes. O inverno instalou-se de novo com o seu quadro habitual: vento, frio e chuva.
- Vou ter que desdizer o que disse sobre a pianista Teresa da Palma Pereira. Ouvi atentamente o seu disco e o que me ficou foi a sensação de um conjunto de sons maçudos, lineares, sem profundidade nem estrutura melódica que me permita reconhecer a atmosfera de Schubert ou de Robert Schumann. Talvez lhe falte ainda muito caminho para andar, embora mantenha que com a sua personalidade forte possa vir a alcançar um lugar como intérprete.
- A História é como a música – depende do intérprete. Eu sou dos que não tenho ilusões e aprendi com a realidade que aquilo que uns condenam na oposição é rigorosamente o que fazem chegados ao poder. O documento que aconselho os meus leitores ler, citado por Rentes de Carvalho, elucida-nos sobre as personagens e os factos de que hoje somos vítimas. A história destes tempos aldrabados, ainda está por fazer. http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2013/05/o-financiamento-da-cia-ao-ps-documento.html
segunda-feira, maio 27, 2013
Segunda, 27.
Sem caneta peço ao empregado angolano do velho e soberbo Café Arcada que me empreste a sua e aqui estou embora tenha saído de Palmela com o propósito de pôr a escrita de lado. Perante a emoção que a Praça do Giraldo, da catedral, desta atmosfera que aqui se vive, do hotel onde me hospedei, deste linguarejar lento e cantado, deste rumor romano que por aqui se quedou séculos, desta acalmia que me robustece o sistema nervoso, deste recordar em lenta ladainha íntima um passado de descobertas sentimentais e literárias, deste calor sufocante e às fortes chuvadas que me detinham à janela do Planície a olhar extasiado a chuva a cair sobre os telhados onde a história foi acumulando o húmus de que hoje alimentamos não só a esperança como a raiva que escorre das goteiras dos edifícios históricos abandonados à sua sorte, aqui me encontro a estender o lençol das palavras em quadradinhos de guardanapos, diante das janelas largas onde estão na esplanada turistas de muitas nações e onde não cessa de passar os alentejanos que por aqui se quedam no seu labor quotidiano. Os sinos das muitas igrejas dardejam como pombos no ar quente da tarde. Passei-me de mim. Estou agora assentado num outro que paralisou diante de Diana para deixar entrar o mistério das ruas silenciosas onde desce suavemente a noite. Percorro as arcadas que atravessam a praça, sigo entontecido atrás dos fantasmas que de capuz escondem o rosto acossado pelo desejo incontido de virem a ser anjos quando as catedrais se abrirem e nelas entrar a luz abrasadora de eternidades esquecidas sob os escombros onde dormem as corujas e os pássaros negros que depenicam os restos das palavras salmodiadas nas sombras antes do cântico de vésperas quando o dia é uma massa leitosa a planar no ar. Estou pela primeira vez este ano de camisa aberta, mangas arregaçadas, lento de raciocínio e de passos, abismado em mim, como se este mundo combinado para me enlouquecer operasse em mim o sortilégio de me movimentar sem sair desta cadeira, deste café com sua porta giratória, seu balcão modernizado, adormecido na penumbra, quando lá fora a intervalos intermitentes se desloca uma multidão de seres aparentemente sem rumo, fechados em rumores, que não os largam porque os tempos vão difíceis e a matéria do equilíbrio é feita das estalactites de esperança roubada à desgraça e por isso consubstancial ao frémito que se espraie pela cidade onde os deuses conjuram pelas ruas e becos no abafado da tarde quase noite… Quando as trevas se instalarem e as artérias desaparecerem debaixo dos candeeiros de luz frouxa vaguearei só, os olhos em brasa, as unhas raspando os muros centenários como demarcação dos lugares e sítios onde o amor foi vivido, quando me fervia o sangue de tantos encontros fechados em gélidas noites mudas, atiradas fora do tempo que me coube registar em sémen e lágrimas, silêncios e alegrias surdas, temores e falhanços, como se viver fosse uma simples movida nocturna, um mergulho desequilibrado, a abarrotar de coisa nenhuma. Estou de repente instalado num daqueles dias escuros, chove trombas de água, as ruas estão desertas e dos beirais rotos pingam em fios grossos e gélidos as gotas sujas dos telhados. Olho a cidade quando o vento canalha acabou de a atravessar e emociono-me porque em vez de estragos trouxe uma luz luminosa que realça os ocres das casas e as pedras antigas passadas a pedras tumulares, resplandecentes e brancas, cintilantes de gotas translúcidas, e através delas os mortos sorriem com um sorriso solto e leve de eternidade prazenteira. Grito: aleluia! Derrubam-se em volta nesse momento transformando-se em cacos os monumentos que pareciam sólidos e eram porque tinham corrido séculos, passando de mão em mão, impregnados dos suores frios da morte e dos desejos acabados na carne fria enrugada pela desistência, pela quotidianidade irmã da rotina e os mistérios voaram para lugares insatisfeitos e prosseguem a guerra contra os submissos e os quedos espíritos puritanos, salvaguardados pela hipocrisia que tudo destrói, amassa, enrodilha, espezinha. Tilintam cadeiras para mulheres espessas se sentarem, cotovelos nos tampos da mesa, pernas abertas, mortas de vazio. São velhas e novas, mas em todas vejo o mesmo desgaste, aquela fenda que se abre entre o olhar que nada vê, que vai e volta ao fundo do estabelecimento, e depois cansado fica hirsuto no espaço. Há nele uma consumação que nunca saberemos como se formou, nem que linha tomou desde que as rugas o orientam transversalmente pelas sombras que são tapumes que não deixam ver as margens. Desfolham entre si, utilizando a linguagem gestual como se fossem surdas-mudas e o seu mundo estivesse fechado numa caixa chinesa de onde foram retirados os lenços com monogramas perfumados a alfazema. Observo-as para entender o que dizem quando mexem os lábios, mas é nas mãos que não param quietas que melhor enxergo o que dizem. Que gente é esta que descobre os braços, bebe pela garrafa, calça ténis e fica parada no tempo como pedras carcomidas que escoram os templos. Visivelmente há um martírio sepultado atrás da fachada pintada de muitas cores, um martírio sobreposto em anos estúpidos de clamores, secos silêncios da cor da espiga quando o vento a queimou e a pouco e pouco fez-se palha nas mãos calejadas… (Interrompido. Chegou o Príncipe.)
- Na volta de Badajoz banhada pela mais profunda e marcante crise, parámos no Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Príncipe não conhecia e a mim permanecia o desejo de o voltar a visitar. Noutra ocasião já escrevi sobre a maravilha que foi a recuperação do edifício e a sua devolução à cidade. Contudo, pelo que percebi, os três andares não têm propriamente um acervo fixo. Pelo contrário, a aposta vai no sentido de haver rotatividade de exposições das mais variadas, o que confere ao museu um lugar vivo de que aproveitam os velhos e as crianças. Pena que desta vez como da anterior, pelas vastas salas só andássemos nós vigiados por um batalhão de miúdas e miúdos, ao todo 25, que bocejam pelos cantos. Nem tudo me agradou, mas a pintura dos anos 80 e 90 – salvaguardando as imprevistas instalações -, pareceu-me interessante.
- Um dia o Príncipe veio buscar-me ao hotel para jantarmos. Levou-me à Adega do Alentejano, frequentada pelos seus ilustres colegas da universidade. O restaurante tem duas ou três salas vastas e numa delas encontravam-se os professores que tinham acabado de chegar do lançamento do livro escrito por um deles. Nós não nos juntámos, preferindo uma mesa à entrada. Comida pesadona, difícil de digerir. Mas para aquela gente já de ventres impositivos não obstante a pouca idade, estar à mesa não é só uma necessidade é também uma forma de vida. Não havendo muito por onde fugir, em que ocupar o tempo remansoso, é a enfardar que as pessoas seroam. Deixam-se ficar por ali à conversa, bebendo e comendo até chegar a hora de deitar. Pelas dez horas não se vê quase ninguém nas ruas. A Praça do Giraldo fica vazia, as mesas levantadas, é chegada a hora dos pequenos drogados abancarem no chão ou na fonte de mármore. Toda a cidade enche-se de mistério e abre campo de gatunagem. Para o interior histórico, abundam as esplanadas, os pequenos bares e cafés. Respira-se um ar renascentista com as fachadas de mármore e as pequenas praças abrigadas. Os hoteles tão em moda, são a nova aldrabice para pacóvios. Turista pobre acolhe-se lá, mas não sai satisfeito. Há demasiado barulho e pouca privacidade a preços altos. Ainda por cima sem condições de acesso, em casas antigas impreparadas para tal negócio. Visitei três, fiquei ao corrente. No fundo não passam de quartinhos alugados ao dia. Prefiro os mesmos quartos em casas de doces donas de casa, com lençóis de linho e cestas de fruta à cabeceira.
- Do que eu mais gostei em Évora e quero repetir, é daquela vidinha risonha onde o tempo sobra em abraços e cócegas. Há uma calma amplíssima a encher o corpo e a mente, uma disponibilidade para a vadiagem, descer e subir as ruas cheias de juventude ligeira que se sente senhora dos passeios e vielas. Antes do calor se abater nas pedras da praça, a atmosfera é fresca e convida ao remanso das horas num dolce far niente. O Café Arcada é o meu preferido. Gosto daquela soturnidade, daquele constante entrar e sair de gente de todas as condições, daquele vazio por intervalos, daquele friso de empregados simpáticos, todos negros, que exibem uma fileira de dentes alvos e segredam entre si coisas que não são audíveis e a minha imaginação monta com precisão. Dali vê-se a lindíssima Praça do Giraldo com a sua igreja de Santo Antão do século XVI, e no extremo oposto o edifício da Câmara. Para um lado e para o outro, abrem-se longos percursos pedestres sob arcadas estreitas, ao longo das quais desfraldam-se lojas antigas e modernas, com coisas que não se encontra em mais lado nenhum, tudo exposto à maneira pós-moderno que é o que já existiu revestido pelos olhos dos contemporâneos armados em artistas singulares. Dentro dos seus muros é possível medir a temperatura que faz lá fora. Basta sentir na pele a vibração do sol que bate na fachada em frente ou levar com o bafo de quem entra. Arrepia-se-nos a cútis de prazer ao olharmos aqueles rostos a escorrer de suor, os olhos piscos quando batem na semi-escuridão do interior. Logo à entrada, sobre a curva do balcão, lambemos com o palato os doces regionais, em formas e feitios sedutores a que é difícil resistir. A generosidade da província, permite-nos ficar toda a manhã a sonhar, extraviados para trás de nós, num diálogo secreto que se amplia à medida que somos tocados pela magia do tempo largo, larguíssimo, que ali nos é oferecido a troco de uma bica e um suspiro ou seja 1,40 euro. Quando decidi ali permanecer, era para ocupar o meu tempo com tempo raso, respirar a atmosfera que traz o ar rarefeito expandido para lá de mim. Como se eu ficasse por dias suspenso, remetido para um mundo árido, perfumado pelo passado e como ele perdido dos olhos dos transeuntes, dos edifícios cansados de contar a história que os amortalhou. Podia permanecer num lugar qualquer, no caso o Café Arcada, porque é nele que arquivei uma parte da minha história pessoal e da minha felicidade imortal. À memória, sem que eu fizesse por isso, veio a obra emotiva de Vergílio Ferreira. Foi ela que me lá levou em tempos idos, por ele e por ela escrevi mentalmente o meu destino pessoal hoje. Não nos esqueçamos: o futuro não existe. O que existe é o passado e o presente. Um e outro se nos descuidamos, são as traves onde se enforca o futuro.
Sem caneta peço ao empregado angolano do velho e soberbo Café Arcada que me empreste a sua e aqui estou embora tenha saído de Palmela com o propósito de pôr a escrita de lado. Perante a emoção que a Praça do Giraldo, da catedral, desta atmosfera que aqui se vive, do hotel onde me hospedei, deste linguarejar lento e cantado, deste rumor romano que por aqui se quedou séculos, desta acalmia que me robustece o sistema nervoso, deste recordar em lenta ladainha íntima um passado de descobertas sentimentais e literárias, deste calor sufocante e às fortes chuvadas que me detinham à janela do Planície a olhar extasiado a chuva a cair sobre os telhados onde a história foi acumulando o húmus de que hoje alimentamos não só a esperança como a raiva que escorre das goteiras dos edifícios históricos abandonados à sua sorte, aqui me encontro a estender o lençol das palavras em quadradinhos de guardanapos, diante das janelas largas onde estão na esplanada turistas de muitas nações e onde não cessa de passar os alentejanos que por aqui se quedam no seu labor quotidiano. Os sinos das muitas igrejas dardejam como pombos no ar quente da tarde. Passei-me de mim. Estou agora assentado num outro que paralisou diante de Diana para deixar entrar o mistério das ruas silenciosas onde desce suavemente a noite. Percorro as arcadas que atravessam a praça, sigo entontecido atrás dos fantasmas que de capuz escondem o rosto acossado pelo desejo incontido de virem a ser anjos quando as catedrais se abrirem e nelas entrar a luz abrasadora de eternidades esquecidas sob os escombros onde dormem as corujas e os pássaros negros que depenicam os restos das palavras salmodiadas nas sombras antes do cântico de vésperas quando o dia é uma massa leitosa a planar no ar. Estou pela primeira vez este ano de camisa aberta, mangas arregaçadas, lento de raciocínio e de passos, abismado em mim, como se este mundo combinado para me enlouquecer operasse em mim o sortilégio de me movimentar sem sair desta cadeira, deste café com sua porta giratória, seu balcão modernizado, adormecido na penumbra, quando lá fora a intervalos intermitentes se desloca uma multidão de seres aparentemente sem rumo, fechados em rumores, que não os largam porque os tempos vão difíceis e a matéria do equilíbrio é feita das estalactites de esperança roubada à desgraça e por isso consubstancial ao frémito que se espraie pela cidade onde os deuses conjuram pelas ruas e becos no abafado da tarde quase noite… Quando as trevas se instalarem e as artérias desaparecerem debaixo dos candeeiros de luz frouxa vaguearei só, os olhos em brasa, as unhas raspando os muros centenários como demarcação dos lugares e sítios onde o amor foi vivido, quando me fervia o sangue de tantos encontros fechados em gélidas noites mudas, atiradas fora do tempo que me coube registar em sémen e lágrimas, silêncios e alegrias surdas, temores e falhanços, como se viver fosse uma simples movida nocturna, um mergulho desequilibrado, a abarrotar de coisa nenhuma. Estou de repente instalado num daqueles dias escuros, chove trombas de água, as ruas estão desertas e dos beirais rotos pingam em fios grossos e gélidos as gotas sujas dos telhados. Olho a cidade quando o vento canalha acabou de a atravessar e emociono-me porque em vez de estragos trouxe uma luz luminosa que realça os ocres das casas e as pedras antigas passadas a pedras tumulares, resplandecentes e brancas, cintilantes de gotas translúcidas, e através delas os mortos sorriem com um sorriso solto e leve de eternidade prazenteira. Grito: aleluia! Derrubam-se em volta nesse momento transformando-se em cacos os monumentos que pareciam sólidos e eram porque tinham corrido séculos, passando de mão em mão, impregnados dos suores frios da morte e dos desejos acabados na carne fria enrugada pela desistência, pela quotidianidade irmã da rotina e os mistérios voaram para lugares insatisfeitos e prosseguem a guerra contra os submissos e os quedos espíritos puritanos, salvaguardados pela hipocrisia que tudo destrói, amassa, enrodilha, espezinha. Tilintam cadeiras para mulheres espessas se sentarem, cotovelos nos tampos da mesa, pernas abertas, mortas de vazio. São velhas e novas, mas em todas vejo o mesmo desgaste, aquela fenda que se abre entre o olhar que nada vê, que vai e volta ao fundo do estabelecimento, e depois cansado fica hirsuto no espaço. Há nele uma consumação que nunca saberemos como se formou, nem que linha tomou desde que as rugas o orientam transversalmente pelas sombras que são tapumes que não deixam ver as margens. Desfolham entre si, utilizando a linguagem gestual como se fossem surdas-mudas e o seu mundo estivesse fechado numa caixa chinesa de onde foram retirados os lenços com monogramas perfumados a alfazema. Observo-as para entender o que dizem quando mexem os lábios, mas é nas mãos que não param quietas que melhor enxergo o que dizem. Que gente é esta que descobre os braços, bebe pela garrafa, calça ténis e fica parada no tempo como pedras carcomidas que escoram os templos. Visivelmente há um martírio sepultado atrás da fachada pintada de muitas cores, um martírio sobreposto em anos estúpidos de clamores, secos silêncios da cor da espiga quando o vento a queimou e a pouco e pouco fez-se palha nas mãos calejadas… (Interrompido. Chegou o Príncipe.)
- Na volta de Badajoz banhada pela mais profunda e marcante crise, parámos no Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Príncipe não conhecia e a mim permanecia o desejo de o voltar a visitar. Noutra ocasião já escrevi sobre a maravilha que foi a recuperação do edifício e a sua devolução à cidade. Contudo, pelo que percebi, os três andares não têm propriamente um acervo fixo. Pelo contrário, a aposta vai no sentido de haver rotatividade de exposições das mais variadas, o que confere ao museu um lugar vivo de que aproveitam os velhos e as crianças. Pena que desta vez como da anterior, pelas vastas salas só andássemos nós vigiados por um batalhão de miúdas e miúdos, ao todo 25, que bocejam pelos cantos. Nem tudo me agradou, mas a pintura dos anos 80 e 90 – salvaguardando as imprevistas instalações -, pareceu-me interessante.
- Um dia o Príncipe veio buscar-me ao hotel para jantarmos. Levou-me à Adega do Alentejano, frequentada pelos seus ilustres colegas da universidade. O restaurante tem duas ou três salas vastas e numa delas encontravam-se os professores que tinham acabado de chegar do lançamento do livro escrito por um deles. Nós não nos juntámos, preferindo uma mesa à entrada. Comida pesadona, difícil de digerir. Mas para aquela gente já de ventres impositivos não obstante a pouca idade, estar à mesa não é só uma necessidade é também uma forma de vida. Não havendo muito por onde fugir, em que ocupar o tempo remansoso, é a enfardar que as pessoas seroam. Deixam-se ficar por ali à conversa, bebendo e comendo até chegar a hora de deitar. Pelas dez horas não se vê quase ninguém nas ruas. A Praça do Giraldo fica vazia, as mesas levantadas, é chegada a hora dos pequenos drogados abancarem no chão ou na fonte de mármore. Toda a cidade enche-se de mistério e abre campo de gatunagem. Para o interior histórico, abundam as esplanadas, os pequenos bares e cafés. Respira-se um ar renascentista com as fachadas de mármore e as pequenas praças abrigadas. Os hoteles tão em moda, são a nova aldrabice para pacóvios. Turista pobre acolhe-se lá, mas não sai satisfeito. Há demasiado barulho e pouca privacidade a preços altos. Ainda por cima sem condições de acesso, em casas antigas impreparadas para tal negócio. Visitei três, fiquei ao corrente. No fundo não passam de quartinhos alugados ao dia. Prefiro os mesmos quartos em casas de doces donas de casa, com lençóis de linho e cestas de fruta à cabeceira.
- Do que eu mais gostei em Évora e quero repetir, é daquela vidinha risonha onde o tempo sobra em abraços e cócegas. Há uma calma amplíssima a encher o corpo e a mente, uma disponibilidade para a vadiagem, descer e subir as ruas cheias de juventude ligeira que se sente senhora dos passeios e vielas. Antes do calor se abater nas pedras da praça, a atmosfera é fresca e convida ao remanso das horas num dolce far niente. O Café Arcada é o meu preferido. Gosto daquela soturnidade, daquele constante entrar e sair de gente de todas as condições, daquele vazio por intervalos, daquele friso de empregados simpáticos, todos negros, que exibem uma fileira de dentes alvos e segredam entre si coisas que não são audíveis e a minha imaginação monta com precisão. Dali vê-se a lindíssima Praça do Giraldo com a sua igreja de Santo Antão do século XVI, e no extremo oposto o edifício da Câmara. Para um lado e para o outro, abrem-se longos percursos pedestres sob arcadas estreitas, ao longo das quais desfraldam-se lojas antigas e modernas, com coisas que não se encontra em mais lado nenhum, tudo exposto à maneira pós-moderno que é o que já existiu revestido pelos olhos dos contemporâneos armados em artistas singulares. Dentro dos seus muros é possível medir a temperatura que faz lá fora. Basta sentir na pele a vibração do sol que bate na fachada em frente ou levar com o bafo de quem entra. Arrepia-se-nos a cútis de prazer ao olharmos aqueles rostos a escorrer de suor, os olhos piscos quando batem na semi-escuridão do interior. Logo à entrada, sobre a curva do balcão, lambemos com o palato os doces regionais, em formas e feitios sedutores a que é difícil resistir. A generosidade da província, permite-nos ficar toda a manhã a sonhar, extraviados para trás de nós, num diálogo secreto que se amplia à medida que somos tocados pela magia do tempo largo, larguíssimo, que ali nos é oferecido a troco de uma bica e um suspiro ou seja 1,40 euro. Quando decidi ali permanecer, era para ocupar o meu tempo com tempo raso, respirar a atmosfera que traz o ar rarefeito expandido para lá de mim. Como se eu ficasse por dias suspenso, remetido para um mundo árido, perfumado pelo passado e como ele perdido dos olhos dos transeuntes, dos edifícios cansados de contar a história que os amortalhou. Podia permanecer num lugar qualquer, no caso o Café Arcada, porque é nele que arquivei uma parte da minha história pessoal e da minha felicidade imortal. À memória, sem que eu fizesse por isso, veio a obra emotiva de Vergílio Ferreira. Foi ela que me lá levou em tempos idos, por ele e por ela escrevi mentalmente o meu destino pessoal hoje. Não nos esqueçamos: o futuro não existe. O que existe é o passado e o presente. Um e outro se nos descuidamos, são as traves onde se enforca o futuro.
domingo, maio 26, 2013
Domingo, 26.
Só hoje, lendo os jornais, me recentrei na mesquinhez dos temas políticos que são sempre os mesmos: crise, futebol, pobreza e desta vez também a promoção ao livro de Miguel Sousa Tavares via Presidência da República. O escritor que detesta os leitores que a sua escrita atrai, chamou “palhaço” a Cavaco Silva. Este, sentindo-se ofendido, pediu à Procuradoria-Geral que abrisse inquérito. Temos, portanto, de novo o senhor-professor-doutor-presidente protegendo o senhor Silva ou conluiados os dois transformados em abadessas apudoradas. Salazar subsiste em cada político (de direita ou de esquerda) que até chateia. Tal está a moenga, hei!
- Estamos feitos! Então não é que até na civilizada Suécia a violência saiu às ruas para alastrar em motins, carros e uma esquadra incendiados, paulada e confrontos com a polícia! Tudo porque um imigrante português, curiosamente de nome Lenine, foi abatido pela polícia num dos muitos bairros pobres da periferia do Estocolmo. E nós que somos ricos a pensar que a pobreza só a nós batia à porta!
- Ausente com o propósito de me afastar da escrita. Por isso, tendo andado por Évora, Arraiolos, Elvas, Badajoz fiz questão em não me deslocar com o “tricô” na mochila viajando apenas com o necessário à higiene pessoal e dois trapos de substituição. De resto, absolutamente compatível com o calor sufocante que encontrei tanto no Alentejo como em Espanha. Não estou ainda como Nietzsche que, sendo nómada, possuía só um fato que vincava com as mãos todas as noites para se manter apresentável.
Só hoje, lendo os jornais, me recentrei na mesquinhez dos temas políticos que são sempre os mesmos: crise, futebol, pobreza e desta vez também a promoção ao livro de Miguel Sousa Tavares via Presidência da República. O escritor que detesta os leitores que a sua escrita atrai, chamou “palhaço” a Cavaco Silva. Este, sentindo-se ofendido, pediu à Procuradoria-Geral que abrisse inquérito. Temos, portanto, de novo o senhor-professor-doutor-presidente protegendo o senhor Silva ou conluiados os dois transformados em abadessas apudoradas. Salazar subsiste em cada político (de direita ou de esquerda) que até chateia. Tal está a moenga, hei!
- Estamos feitos! Então não é que até na civilizada Suécia a violência saiu às ruas para alastrar em motins, carros e uma esquadra incendiados, paulada e confrontos com a polícia! Tudo porque um imigrante português, curiosamente de nome Lenine, foi abatido pela polícia num dos muitos bairros pobres da periferia do Estocolmo. E nós que somos ricos a pensar que a pobreza só a nós batia à porta!
- Ausente com o propósito de me afastar da escrita. Por isso, tendo andado por Évora, Arraiolos, Elvas, Badajoz fiz questão em não me deslocar com o “tricô” na mochila viajando apenas com o necessário à higiene pessoal e dois trapos de substituição. De resto, absolutamente compatível com o calor sufocante que encontrei tanto no Alentejo como em Espanha. Não estou ainda como Nietzsche que, sendo nómada, possuía só um fato que vincava com as mãos todas as noites para se manter apresentável.
terça-feira, maio 21, 2013
Terça,
21.
Não há como a doença para nos demolir da grandeza e da arrogância e lembrar-nos a fragilidade da nossa condição. Exemplo disso é a saída de Mário Soares ontem do bolorento Conselho de Estado.
Não há como a doença para nos demolir da grandeza e da arrogância e lembrar-nos a fragilidade da nossa condição. Exemplo disso é a saída de Mário Soares ontem do bolorento Conselho de Estado.
- O esplendor do oásis Mac de Setúbal
entre as 9 e as 11 da manhã com as suas grandes vitrinas abertas para a beleza
da avenida Luísa Todi! Gostava de morrer sentado na segunda mesa à direita junto
à parede de quem entra, banhado do silêncio e da paz que aí reina a essas horas
– se possível a escrever.
- Um violento tornado com ventos de 320
km/hora, varreu do mapa a localidade de Moore no Oklahoma. Não se sabe quantas
vítimas fez, mas as imagens que nos chegam são de um horror indescritível. Numa
vastíssima zona poucas casas se vêem de pé numa panorâmica dantesca do fim do
mundo.
- No Iraque que é a vergonha dos
americanos e dos europeus incluindo os portugueses, não há dia nenhum que
facções rivais não se defrontem. Hoje morreram mais dez inocentes. Na semana
passada 200.
- Já não estou só. Há muito tempo que
venho questionando o facto de Portugal aceitar sem qualquer remorso nem
interesse pela proveniência o dinheiro da menina Isabel. A partir de hoje tenho
um companheiro: o líder da UNITA, Sr. Isaías Samakuva.
segunda-feira, maio 20, 2013
Segunda,
20.
Esta casa é a cópia da cabana de Ali Baba. Há dias, arrumando um armário, vi uma caixa indiana muito bonita, toda trabalhada. Abri e que encontro eu? Nada mais, nada menos de que dez cartas de Vergílio Ferreira, muitas outras do Alexandre Ribeirinho, Alexandre Cabral, Fernando Dacosta, Luís Pinheiro de Almeida com o logo da Lusa, do erudito professor de Ponta Delgada Jorge Gamboa Vasconcelos, Urbano T. Rodrigues, da Annie e mais de não sei quem que me não dou ao trabalho de ir ver. As cartas do autor de Para Sempre estão até muito mal tratadas, porque escrevinhei nelas coisas que a cabeça no momento não suportava reter. Apenas li uma e nela V. F. responde à observação que eu havia feito num dos volumes do meu Diário segundo a qual teria compreendido melhor Sartre pelos seus escritos que pela cabeça dele Vergílio Ferreira. Dito isto, não me lembrava de ter recebido tantas e tão gratas missivas do escritor que muitos dos meus amigos diziam ser altaneiro e não escrever a ninguém. Muitas outras andam por aí dentro de livros. Que teria ele visto em mim para me dar tanta importância? Mistério.
- O que é calamitoso é ver a populaça agredida na sua dignidade, ser atacada de todos os lados dia-a-dia, haver milhão e meio de desempregados e, como se nada disto existisse, continuar pelas madrugadas em delírio só porque uns quantos maduros meteram um golo numa baliza que em nada conta para aligeirar as penas e as dores dos humilhados. Em paralelo, sobre dezenas de palanques incluindo a rádio e TV, cada português retira da cartola do seu imenso conhecimento as postas de leitura fantasiosa do que no campo se passou. Este é o Portugal que a esquerda de antigamente dizia que Salazar com maléficas intenções alienou. O futebol, ontem como hoje, é a cultura dos analfabetos.
Esta casa é a cópia da cabana de Ali Baba. Há dias, arrumando um armário, vi uma caixa indiana muito bonita, toda trabalhada. Abri e que encontro eu? Nada mais, nada menos de que dez cartas de Vergílio Ferreira, muitas outras do Alexandre Ribeirinho, Alexandre Cabral, Fernando Dacosta, Luís Pinheiro de Almeida com o logo da Lusa, do erudito professor de Ponta Delgada Jorge Gamboa Vasconcelos, Urbano T. Rodrigues, da Annie e mais de não sei quem que me não dou ao trabalho de ir ver. As cartas do autor de Para Sempre estão até muito mal tratadas, porque escrevinhei nelas coisas que a cabeça no momento não suportava reter. Apenas li uma e nela V. F. responde à observação que eu havia feito num dos volumes do meu Diário segundo a qual teria compreendido melhor Sartre pelos seus escritos que pela cabeça dele Vergílio Ferreira. Dito isto, não me lembrava de ter recebido tantas e tão gratas missivas do escritor que muitos dos meus amigos diziam ser altaneiro e não escrever a ninguém. Muitas outras andam por aí dentro de livros. Que teria ele visto em mim para me dar tanta importância? Mistério.
- Para Cavaco Silva vale tudo, até
invocar o nome da Virgem de Fátima em vão.
- Este fim-de-semana foi arrasante.
Mereci bem as nove horas seguidas de sono da noite passada. Cortei a relva em
volta da casa e da piscina, esta foi esvaziada e limpa, aproveitando a água
para regar árvores e jardim, tratei da casa e fiz um bolo de chocolate, um
prato de coelho, assei maçãs, fui ao mercado bio do Pinhal Novo, estendi a
roupa que a máquina lavou e a Piedade passará a ferro… Fiquei uma papa e ainda
não estou salvo das dores de rins nem da tristeza de ter sido obrigado a pôr a
leitura de parte. Mas… c´est fait, n´en parlons plus.
- Esta manhã antes de ir à piscina,
terminei Guerre des Gaules de Júlio César. O grosso volume conta a
epopeia sangrenta de um homem complexo, de um estratega que ganhou prestígio de
armas na mão. Mas acima de tudo do líder que soube pela persuasão e o talento oratório
arrastar exércitos e esmagar um continente dividido por dezenas e dezenas de povos que
os romanos chamavam selvagens. Pena que o seu fim tivesse sido tão trágico.
- O que é calamitoso é ver a populaça agredida na sua dignidade, ser atacada de todos os lados dia-a-dia, haver milhão e meio de desempregados e, como se nada disto existisse, continuar pelas madrugadas em delírio só porque uns quantos maduros meteram um golo numa baliza que em nada conta para aligeirar as penas e as dores dos humilhados. Em paralelo, sobre dezenas de palanques incluindo a rádio e TV, cada português retira da cartola do seu imenso conhecimento as postas de leitura fantasiosa do que no campo se passou. Este é o Portugal que a esquerda de antigamente dizia que Salazar com maléficas intenções alienou. O futebol, ontem como hoje, é a cultura dos analfabetos.
domingo, maio 19, 2013
Domingo,
19.
Hoje lembrei-me daquela tarde abafada quando cheguei a Micenas exausto, a rua entre muros que tive de palmilhar para o único hotel que penso existe no local onde a morte ainda hoje vagabundeia e a tristeza se pega à pele e rebola pelos horizontes clivosos e ameaçadores. Depois de deixar o saco no quarto que me foi destinado, com varanda voltada para o local do crime onde num túmulo de trevas está enterrado Agamon, despachei-me para conhecer o mundo maléfico que a antiga Grécia nos deixou e que Eschyle tão bem conta. Lá no alto, duas espécies de grutas destruídas e ainda a cheirar a sangue, aguardam o visitante. O silêncio é total e paralisa-nos. Quase não tenho ninguém por companhia. Os turistas não se interessam pela história tenebrosa do tesouro de Atridas ou do túmulo de Agamon como é conhecido. O vento que naquela tarde quente vinha da planície e dos montes em redor, queimava. Hesito em entrar porque vejo nos visitantes o horror que espelham os seus rostos lívidos. Não muito longe, no outro lado da montanha, está enterrada a criminosa, numa sepultura mais modesta que a do seu esposo. Através de Richard Stauss que pela imaginação recriou em Electra este mundo de ódios sufocantes, somos transportados à cena da rainha afogada em sangue. Mais longe, numa sepultura sóbria, está o cúmplice Egiste. Três lugares que nos tocam por os sentirmos presentes, envolvidos na tragédia que a Grécia antiga nos deixou. À noite, depois do jantar no restaurante do hotel, recolhi ao quarto. Não quis sair para a noite fria para não me encontrar com nenhum dos terríveis criminosos. Bastou a tristeza infinda do hotel onde apenas me alojava eu e um homem muito velho acompanhado de um rapaz muito novo. Ambos, durante a refeição, não trocaram uma palavra. Cada um transportava um tédio de morte. Visivelmente tropeçaram num equívoco ou num proveito que pela sua natureza poderia acabar enterrado ali. Não preguei olho em toda a noite porque a atmosfera era asfixiante, irrespirável.
Hoje lembrei-me daquela tarde abafada quando cheguei a Micenas exausto, a rua entre muros que tive de palmilhar para o único hotel que penso existe no local onde a morte ainda hoje vagabundeia e a tristeza se pega à pele e rebola pelos horizontes clivosos e ameaçadores. Depois de deixar o saco no quarto que me foi destinado, com varanda voltada para o local do crime onde num túmulo de trevas está enterrado Agamon, despachei-me para conhecer o mundo maléfico que a antiga Grécia nos deixou e que Eschyle tão bem conta. Lá no alto, duas espécies de grutas destruídas e ainda a cheirar a sangue, aguardam o visitante. O silêncio é total e paralisa-nos. Quase não tenho ninguém por companhia. Os turistas não se interessam pela história tenebrosa do tesouro de Atridas ou do túmulo de Agamon como é conhecido. O vento que naquela tarde quente vinha da planície e dos montes em redor, queimava. Hesito em entrar porque vejo nos visitantes o horror que espelham os seus rostos lívidos. Não muito longe, no outro lado da montanha, está enterrada a criminosa, numa sepultura mais modesta que a do seu esposo. Através de Richard Stauss que pela imaginação recriou em Electra este mundo de ódios sufocantes, somos transportados à cena da rainha afogada em sangue. Mais longe, numa sepultura sóbria, está o cúmplice Egiste. Três lugares que nos tocam por os sentirmos presentes, envolvidos na tragédia que a Grécia antiga nos deixou. À noite, depois do jantar no restaurante do hotel, recolhi ao quarto. Não quis sair para a noite fria para não me encontrar com nenhum dos terríveis criminosos. Bastou a tristeza infinda do hotel onde apenas me alojava eu e um homem muito velho acompanhado de um rapaz muito novo. Ambos, durante a refeição, não trocaram uma palavra. Cada um transportava um tédio de morte. Visivelmente tropeçaram num equívoco ou num proveito que pela sua natureza poderia acabar enterrado ali. Não preguei olho em toda a noite porque a atmosfera era asfixiante, irrespirável.
sexta-feira, maio 17, 2013
Sexta,
17.
Um atentado suicida matou 15 pessoas e feriu dezenas em Cabul. O ataque foi perpetrado pelos taliban e teve por alvo as forças internacionais da NATO. O eterno Afeganistão onde diversos exércitos estrangeiros em muitos anos não conseguiram repor a paz e onde estão ainda cem mil soldados.
Um atentado suicida matou 15 pessoas e feriu dezenas em Cabul. O ataque foi perpetrado pelos taliban e teve por alvo as forças internacionais da NATO. O eterno Afeganistão onde diversos exércitos estrangeiros em muitos anos não conseguiram repor a paz e onde estão ainda cem mil soldados.
- Tempo bizarro. Depois de alguns dias
de calor intenso, a chuva retornou com o frio agarrado. Ontem adormeci a ouvir
o choro do vento e da chuva na janela e acordei hoje com o seu murmúrio
ininterrupto. A neve cai lá para o norte e as pessoas trazem agarrados ao corpo
os agasalhos de inverno. Não sei se é por isso ou pelo excesso de trabalho,
ando com a cabeça num desatino. Ontem não consegui escrever uma linha no
romance não dando razão a George Sand que dizia le travail guérit de tout.
- Esta manhã, como é frequente,
encontrei-me com o António no Mac, em Setúbal. Inopinados momentos falando sobre
sonhos ou mais precisamente pesadelos. Que nenhum de nós consegue
interpretá-los: os meus sensuais que me fazem acordar feliz, com um recorrente que
me obriga a saltar da cama aflito; um dele persistente que o leva a vaguear em
pijama em pleno dia sendo noite. Os psiquiatras têm a pretensão de os
interpretar servindo-se da mesma matriz que leva os médicos das outras áreas a
receitar drogas sem cuidar das especificidades de cada organismo. A medicina
hoje utiliza pareceres divulgados pelos laboratórios que fabricam medicamentos
os mais abrangentes possíveis. Ao doente não é dado levantar dúvidas ou
obstáculos. O senhor doutor é quem sabe e portanto chiu. António é o contrário
do que afirma La Bruyère – como Pascal - segundo o qual tout notre mal vient
de ne pouvoir être seul.
- Eu estou a morrer de desgosto por o
Benfica não ter ganho a taça. Mas ao mesmo tempo, que me desculpem os
aficionados, instalou-se dentro de mim uma litania que me traz enroscado de
contentamento. O país já tem tanto ruído à roda da TSU para os reformados, a
crise, os professores desempregados, o ministro a passar por aquele vexame da
risada pública, e mais isto e aquilo, que se juntarmos as lágrimas dos
benfiquistas o petit pays fica inabitável. Portanto…
quarta-feira, maio 15, 2013
Quarta,
15.
A sacrossanta mentira dos senhores da União Europeia acerca dos depósitos bancários não convence ninguém. É evidente que se trata de um roubo que eles pretendem institucionalizar e um atentado às economias e ao trabalho das pessoas. Eles que estão na lista dos que mais roubam, mais utilizam a corrupção, mais depressa enriquecem, possuem grossas somas em offshore e paraísos fiscais como demonstra contra a sua vontade os factos provados. Como é que países com séculos de história e sofrimento se deixaram enganar por um punhado de choldras ao serviço de máfias políticas que manipulam e submetem! Que nós com os políticos medíocres e pequeninos que temos sejamos sujeitos à mentira e ao engano vá que não và. Mas grandes nações, com padrões culturais elevados e personalidade vincada, sejam arrastadas no mesmo turbilhão de embuste é que me espanta.
A sacrossanta mentira dos senhores da União Europeia acerca dos depósitos bancários não convence ninguém. É evidente que se trata de um roubo que eles pretendem institucionalizar e um atentado às economias e ao trabalho das pessoas. Eles que estão na lista dos que mais roubam, mais utilizam a corrupção, mais depressa enriquecem, possuem grossas somas em offshore e paraísos fiscais como demonstra contra a sua vontade os factos provados. Como é que países com séculos de história e sofrimento se deixaram enganar por um punhado de choldras ao serviço de máfias políticas que manipulam e submetem! Que nós com os políticos medíocres e pequeninos que temos sejamos sujeitos à mentira e ao engano vá que não và. Mas grandes nações, com padrões culturais elevados e personalidade vincada, sejam arrastadas no mesmo turbilhão de embuste é que me espanta.
- Com a vitória do Paris SG uma
multidão de selvagens invadiu o Trocadero chique e lançou o pânico num bairro
selecto que eu conheço bem. Partiram montras, incendiaram carros, arremessaram
barras de ferro, atiraram pedras à polícia, muitos ficaram feridos ou foram
parar à prisão. Um pandemónio que começou nos Campos Elísios e dá que pensar. Por
cá e por toda a parte quanto custa a protecção destes brutamontes? Porque raio
tenho eu que pagar com os meus impostos para os estragos, o tempo da polícia, o
material que esta precisa, os estragos na via pública? Não seria mais lógico
serem os clubes de futebol que são ricos e os jogadores que ganham fortunas a
custear os prejuízos! Quantos milhões se gastam do erário público com um
desporto tão tonto? Boa pergunta, não é?
- Esta tarde, na gare de comboios de
Sete Rios, aquele casal de miúdas muito jovens que se beijavam sofregamente na
boca perante os olhares dos passantes que riam e cochichavam. Modernices.
terça-feira, maio 14, 2013
Terça,
14.
Este país é sui generis. Enquanto por um lado as ameaças à dignidade dos portugueses não cessam de nos estarrecer, por outro os campos de futebol enchem com 60 mil fanáticos e 10 mil deslocam-se até a Holanda atrás dos seus ídolos. Não admira que os eurocratas do interior dos seus gabinetes luxuosos, nos obriguem a mudar de vida com regras dolorosas e supressão de independência. A inconsciência dos nossos concidadãos é tal que ninguém os leva a sério quando se insurgem contra as novas medidas de austeridade que repõem nos carris este principio simples: não vivas acima das tuas posses. E apesar de a Europa do euro estar decadente e arrastar para a pobreza milhões de pessoas, o povo português e esse universo fantasioso que é o futebol, prosseguem como se nada acontecesse.
Este país é sui generis. Enquanto por um lado as ameaças à dignidade dos portugueses não cessam de nos estarrecer, por outro os campos de futebol enchem com 60 mil fanáticos e 10 mil deslocam-se até a Holanda atrás dos seus ídolos. Não admira que os eurocratas do interior dos seus gabinetes luxuosos, nos obriguem a mudar de vida com regras dolorosas e supressão de independência. A inconsciência dos nossos concidadãos é tal que ninguém os leva a sério quando se insurgem contra as novas medidas de austeridade que repõem nos carris este principio simples: não vivas acima das tuas posses. E apesar de a Europa do euro estar decadente e arrastar para a pobreza milhões de pessoas, o povo português e esse universo fantasioso que é o futebol, prosseguem como se nada acontecesse.
- Desci a pé da Estrela ao Marquês
para ir à eléctrica chinesa reclamar o que me roubaram. Eu conto. Em Julho do
ano passado esteve aí um técnico chinês a verificar o contador bi-horário e
chegou à conclusão (que eu sabia há anos) que o aparelho estava adiantado hora
e meia. Ao abrigo da lei, esperei sentado pelas contas e consequente retorno do
que me é devido. Até que perdi a paciência e, como bom português que sabe que
nasceu num país onde é preciso lutar todos os dias contra os abusos do Estado e
das multinacionais, fui travar-me de razões. O funcionário, pelo sorrisinho e
pelo silêncio, compreendeu o meu gesto e lavrou relatório resultante. Há pouco na
TSF percebi a razão pela qual os chineses defendidos por aquele que abriu uma
garrafa de vinho de champanhe como nos contou o amigo Álvaro, recusa devolver
aos consumidores o que lhes é devido. O homem entende ser ilegal a ordem e ameaça
levar o Estado português a tribunal. Nesse entretanto, como sempre, quem se
lixa é o mexilhão.
- Sebastião Fortuna é patético. Depois
de ter perdido o espaço que construiu com arte e abnegação aqui na vila, quer
agora sem dinheiro adquirir um outro adiante da Quinta do Anjo com quatro
hectares e para isso pediu à Câmara parceria. Ontem telefonou-me a rogar fosse
esta tarde à reunião com os vereadores. Gostando dele como gosto, não recusei
embora tudo aquilo me pareça trágico. Com oitenta anos não desiste e, como
acontece com muitas pessoas do género que eu conheço, está-se nas tintas para os
desastres e as loucuras que sobram em sacrifícios para a mulher e filhos. Ele
acredita que move montanhas com o sonho. Não vou dizer que seja pateta, afirmo
que o sonho a dormir não é o mesmo do sonho acordado. Para além de a Câmara ter
tido um prejuízo de oito milhões de euros!
- Acabo de saber que o Governo
português encomendou um relatório (mais um!) económico à OCDE. Como os
precedentes, este diz aquilo que outros relatórios de outras instituições
estrangeiras já disseram e que se resume nisto: se Portugal quiser ser alguém,
arreie nos trabalhadores e reformados, poupe os bancos, as grandes empresas, os
especuladores. Esta conclusão já todos a conhecemos. Mas Passos Coelho como
qualquer bimbo nacional, precisa do parecer do estrangeiro para se dignificar e
se fazer acreditar. No séc. XIX já era assim.
domingo, maio 12, 2013
Domingo,
12.
Li não sei onde que o Governo vai impor o limite de cinco mil euros como reforma. Acho muito bem. Desde que não mexa nas reformas abaixo desse montante. Já aqui disse muitas vezes que o país não produz o suficiente para pagar os balúrdios que eu sei aufere políticos, gestores, primeiros-ministros, deputados, PDGs, autarcas, presidentes da República, e todo o parasitário administrativo que por aí campeia. Mas não estou certo que Passos Coelho tenha coragem de o fazer. Ele, tal como José Sócrates, governa contra os mais fracos e a favor dos mais fortes. Então não é verdade que poucos políticos têm apenas uma reforma!
- Estive a reler alguns dos
sublinhados que fiz no livro de Jacques Maritain quando o li há uma data de
anos Príncipes d´une politique humaniste. Na página 202 (edições de La Maison Française),
nem a propósito, esta anotação: Le succès en politique n´est pas le pouvoir
matériel, ni la rechesse matérielle, ni la domination du monde, mais
l´accomplissement du bien commun, avec les conditions de prospérité matérielle
qu´il implique.
Li não sei onde que o Governo vai impor o limite de cinco mil euros como reforma. Acho muito bem. Desde que não mexa nas reformas abaixo desse montante. Já aqui disse muitas vezes que o país não produz o suficiente para pagar os balúrdios que eu sei aufere políticos, gestores, primeiros-ministros, deputados, PDGs, autarcas, presidentes da República, e todo o parasitário administrativo que por aí campeia. Mas não estou certo que Passos Coelho tenha coragem de o fazer. Ele, tal como José Sócrates, governa contra os mais fracos e a favor dos mais fortes. Então não é verdade que poucos políticos têm apenas uma reforma!
- João é dos privilegiados que
consegue fazer férias em Israel. Antes de partir, almoçámos no Pérola da Serra
onde ficámos pelo adiantado da tarde à conversa. Praticamente só commérages
a que a idade nos vai convertendo e que, digam o que disserem, são a delícia
das delícias. Sobretudo por esta altura em que nos aproximámos mais não só porque
ele veio para aqui morar, ainda pelo facto de ter virado mais à esquerda do que
eu. Está transformado num monárquico comunista. Um chique!
- A praga dos comentadores. Só tomo
contacto com o conteúdo que eles pregam na televisão pelos jornais. Hoje o
Público diz aquilo que eu desde o começo previ: que o agora presbítero José
Sócrates foi a grande decepção. Ele é de todos os da sua confraria o que menos
audiência possui. A mim o que me surpreende é como esta gentinha, depois de
terem feito o que fizeram, pensam por um segundo que do púlpito conseguem
aquilo que não foram capazes de fazer pela narrativa da acção. Detesto
Passos Coelho e Portas e Gaspar e se alguma simpatia tenho por algum membro do
Governo é pelo nosso Álvaro que, de todos, me parece um outsider que
convictamente pretende fazer as coisas certas e até acho injusto que
seja o bombo da festa. Mas foi ele que se pôs a jeito.
- Esta manhã, no mercado mensal de
Pinhal Novo, uma vendedeira discutia com a cliente a diferença de um euro. A mulher
argumentava: “Querida (linguagem daquelas tipas e tipos da televisão) com um
euro compro três pacotes de leite.” Responde a vendedora: “Ó filha (expressão
das mulherzinhas que animam as manhãs e tardes televisivas) a gente também não
pode pensar só em comer.”
sábado, maio 11, 2013
Sábado,
11.
Os elementos acumulados ao longo dos interrogatórios descobriram um facínora e um assassino. As três mulheres que ele manteve durante dez anos em cativeiro, foram todas acorrentadas, violadas, tiveram filhos que o energúmeno matou a soco e a pontapé na barriga das infelizes para que os fetos fossem expelidos. Uma, contudo, deu à luz a filha nas traseiras da casa e o parto ocorreu dentro de uma bacia. Com a criança passaram a quatro as vítimas do algoz Ariel Castro. Os outros dois irmãos inicialmente suspeitos como estando no mesmo barco criminoso, foram ilibados.
Os elementos acumulados ao longo dos interrogatórios descobriram um facínora e um assassino. As três mulheres que ele manteve durante dez anos em cativeiro, foram todas acorrentadas, violadas, tiveram filhos que o energúmeno matou a soco e a pontapé na barriga das infelizes para que os fetos fossem expelidos. Uma, contudo, deu à luz a filha nas traseiras da casa e o parto ocorreu dentro de uma bacia. Com a criança passaram a quatro as vítimas do algoz Ariel Castro. Os outros dois irmãos inicialmente suspeitos como estando no mesmo barco criminoso, foram ilibados.
- Do outro lado do mundo, no
Bangladesh onde os escravos dos têxteis, na fábrica sem qualquer segurança que
ardeu, apesar dos inúmeros apelos há anos das ONG, morreram mais mil operários.
As grandes empresas ocidentais e americanas fazem como os meninos do norte com
a morte do camarada morto no assalto a uma das tendas da queima das fitas,
lamentam, choram lágrimas de crocodilo, mas a vida, isto é, os negócios, os
lucros e a especulação tem que continuar.
- Quinta-feira encontrei-o na Baixa.
Estava magro, triste, desfeito. Sem trabalho, dois filhos de 15 e 9 anos,
disse-me que devia sair do país no próximo mês. Fiquei sem jeito ao vê-lo assim
abandonado à sua sorte. É uma excelente criatura, trabalhador, cordial, sério.
Um diamante como já pouco se encontra nos dias de hoje. Hesitei em o convidar
para almoçar com receio de o magoar. Tomámos, todavia, um café e penso que o
reconfortei com as palavras que me saíram contra minha vontade e a fraqueza à
despedida dos meus olhos a engolirem as lágrimas. Que merda de país!
- Por estes dias terminei um longo
livro de seiscentas e muitas páginas, Les aventuriers de l´art moderne
(1900-1930) de Dan Franck. Não é um estudo exaustivo sobre a arte, é antes
uma pincelada sobre um período fértil do princípio do século passado que, vá-se
lá saber porquê, criou de uma assentada uma plêiade de génios que dizimou até
hoje todos os pretensos artistas seus sucessores. Por muitos anos, vamos
assistir aos filhotes ilegítimos destes vultos sagrados a fazer coisas saídas
dos ventres desarranjados que a Europa antes do euro e da estabilidade
financeira, do apregoado nível de vida e do consagrado dinheiro que os pacóvios
artistas dos nossos dias se afadigam a ganhar com os traços em ziguezague e o
copianço descarado daqueles que no sofrimento, no ostracismo, na pobreza,
registaram para durar um século, uma eternidade a originalidade e a
criatividade que marcou o nosso imaginário. Poucos depois deles inovaram,
criaram uma matriz original. A grande massa dos chamados pintores, não passa de
uns pobres diabos que à sombra do casual e da chamada modernidade, em suma, du
n´importe quoi, conseguem enganar os saloios e com isso arredondar as
miseráveis reformas que este miserável país faz o favor de conceder àqueles que
trabalham no duro uma vida inteira.
quarta-feira, maio 08, 2013
Quarta,
8.
Três irmãos mantiveram sequestradas três mulheres durante dez anos, em Cleveland, Estados Unidos. Um inquérito está em marcha, mas aparentemente os irmãos Castro não violaram nenhuma das raparigas, nem as maltrataram. O mistério reside em saber porque as detiveram presas tanto tempo. Perante acontecimentos destes, pergunto-me sempre se ainda haverá quem se surpreenda com as histórias que os romancistas contam. Os homens levavam uma vida normal, davam-se com a vizinhança, tinham trabalho e a casa até já tinha sido espiolhada pela polícia chamada por um caso vulgar.
Três irmãos mantiveram sequestradas três mulheres durante dez anos, em Cleveland, Estados Unidos. Um inquérito está em marcha, mas aparentemente os irmãos Castro não violaram nenhuma das raparigas, nem as maltrataram. O mistério reside em saber porque as detiveram presas tanto tempo. Perante acontecimentos destes, pergunto-me sempre se ainda haverá quem se surpreenda com as histórias que os romancistas contam. Os homens levavam uma vida normal, davam-se com a vizinhança, tinham trabalho e a casa até já tinha sido espiolhada pela polícia chamada por um caso vulgar.
- Para que serve um gato? Para dormir e
comer. Não serve para mais nada a não ser talvez saltar sobre as ratazanas e os
coelhos que desapareceram desde que sua excelência o Black se instalou.
- Benditos quatrocentos euros que eu
dei pelo corta-relva! Sem ele não teria terminado o trabalho que começou às
oito e foi até às dez da manhã. Hoje consegui concluir a parte de baixo do
relvado à volta da piscina. Fiquei arrasado, mas satisfeito. Nada a ver com o
dia de ontem tão sombrio. A transpirar em bica e misteriosamente sem uma dor,
sentei-me no lounge e tomei um sumo de mirtilos natural. Depois fui
fazer mil metros de natação e voltei para o almoço, li duas horas Caius Julius
César (Livro VII) e só então fui admirar aquilo que levou semanas a cuidar e
onde agora descanso o olhar com um misto de dever cumprido e prazer simples. Enfim,
labor omnia vincit improbus a que me apetecia juntar porque é a verdade
que cumpro todos os dias, esta máxima de qualquer presbitério: laborare et
orare. Infelizmente, o monge que aqui mora e plana nas alturas quando é
surpreendido por um rosto belo, também comete os seus pecadilhos. Oh! cala-te
boca. A próxima etapa vai ser esvaziar a piscina, procurar um pedreiro que betume
o fundo, dar um salto a Badajoz para comprar as tintas, enchê-la e usufruir
dela como o desportista depois de uma longa maratona. Roman telefonou a dizer
que vem este mês. Só não explicou se matou um russo porque o filho já fez e
também já plantou uma árvore. O homem é perfeito em tudo o que toca e excelente
criatura. Por isso vou esperar por ele. Que mais? O trabalho está longe de
estar completo. Como despedi o tractorista que aí andou por me ter apercebido a
meio da tarefa que era muito caro, fiquei com a quinta metade careca e outra
metade cabeluda. Bref. Mudando de assunto. Ontem ao deitar li o texto de
Colette sobre Proust quando jovem. A escritora que amava os gatos, fala de uma
personagem que eu não consigo trazer para a Obra que ele posteriormente
escreve. A mim ficou-me a ideia de um diletante, com uma leve semelhança com M.
Charles Swann. Mas atrevido para a época. De resto, todo o livro da senhora
Willy é uma graça que patenteia às mil maravilhas o seu talento.
terça-feira, maio 07, 2013
Terça, 7.
Prossigo nas arrumações, na classificação de papéis e assim. Verifico que fui sempre muito desajeitado a conservar aquilo que me deu gosto receber e ler. Há cartas de Vergílio Ferreira, Sophia, Urbano e mais recentes esquecidas dentro de livros que decerto lia na altura, como outras de amor que não me parecem de todo ridículas hoje. As do meu amigo Alexandre Ribeirinho paralisam-me porque a sua partida ainda permanece como uma mágoa dentro de mim. Sinto a falta do homem conversador, culto, largo de espírito, que me enriquecia imenso e que noto pelas suas missivas talvez não tenha estado presente como ele mereceria. Esta, por exemplo:
Estimado HELDER,
Peço-lhe que esqueça os livros cujo empréstimo eu lhe solicitei (ao qual pensei juntar mais 2, um do seu falecido amigo Al Berto – embora não goste especialmente de Poesia, como sabe – e outro do Guilherme de Melo – pareceu-me que escreve razoavelmente e com grande facilidade -, acaso tivesse evidentemente). É que correria o risco de, vendo-nos tão pouco como passámos a ver-nos, retê-los por tempo demasiado. Não quereria, de modo algum, que isso viesse a acontecer.
A nossa possível ida ao cinema, veio a juntar-se ao almoço que tinha sido apalavrado no seu refúgio de Palmela. Ora o Hélder não pode, ora sou eu. Os desencontros que vão somando semanas, meses. Inexoravelmente.
Desisti de pensar no Vítor (um dia destes falarei deste meu antigo colega hoje professor na Católica) como um Amigo. O seu eclipse é por demais eloquente. Há silêncios e afastamentos que falam melhor do que todas as palavras. Estarei a ser mau julgador?! Vou ficando com os que vão ficando.
Disse-me o António Mourão (o novo CD em preparação parece-me razoavelmente bom: aos 60 ninguém tem a voz que teve aos 30 ou 40) que o meu e dele, estimado Marques Calado morreu, para nós inesperadamente (e já lá vão 2 anos). (O Mourão fazia parte dos amigos que privavam connosco e lembro-me do disco em causa, magnifico, onde a voz dos 60 não se nota.) É desolador ver partir quem um dia estimámos.
Escrevi à máquina como sempre me tem pedido (o Alexandre tinha uma letra ininteligível), mas que nem sempre é possível, como tenho dado disso exemplo.
Com um afectuoso abraço,
o Alexandre
- Em Moins cinq… Robert de Saint Jean narra um serão em sua casa com o seu amigo de toda a vida: Julien Green. Nessa altura viviam ambos no mesmo imóvel, julgo que na rue Varenne, Green com a irmã, Robert, só, no andar de baixo. Nos conversations commencent le matin vers neuf heures, ou le soir, après mon retour du bureau, alors que je dîne. J´entends claquer la porte du quatrième, et sais qu´il descend l´escalier pour venir au troisième, je devine ses pas, je saisis le léger díclic de la clef toounant dans la serrure… Le voici. Eu conheci em S. Marçal durante anos este clima calmo, doce, reconfortante. Depois…
- Tout diariste fait reculer la mort. – Robert de Saint Jean.
Prossigo nas arrumações, na classificação de papéis e assim. Verifico que fui sempre muito desajeitado a conservar aquilo que me deu gosto receber e ler. Há cartas de Vergílio Ferreira, Sophia, Urbano e mais recentes esquecidas dentro de livros que decerto lia na altura, como outras de amor que não me parecem de todo ridículas hoje. As do meu amigo Alexandre Ribeirinho paralisam-me porque a sua partida ainda permanece como uma mágoa dentro de mim. Sinto a falta do homem conversador, culto, largo de espírito, que me enriquecia imenso e que noto pelas suas missivas talvez não tenha estado presente como ele mereceria. Esta, por exemplo:
Estimado HELDER,
Peço-lhe que esqueça os livros cujo empréstimo eu lhe solicitei (ao qual pensei juntar mais 2, um do seu falecido amigo Al Berto – embora não goste especialmente de Poesia, como sabe – e outro do Guilherme de Melo – pareceu-me que escreve razoavelmente e com grande facilidade -, acaso tivesse evidentemente). É que correria o risco de, vendo-nos tão pouco como passámos a ver-nos, retê-los por tempo demasiado. Não quereria, de modo algum, que isso viesse a acontecer.
A nossa possível ida ao cinema, veio a juntar-se ao almoço que tinha sido apalavrado no seu refúgio de Palmela. Ora o Hélder não pode, ora sou eu. Os desencontros que vão somando semanas, meses. Inexoravelmente.
Desisti de pensar no Vítor (um dia destes falarei deste meu antigo colega hoje professor na Católica) como um Amigo. O seu eclipse é por demais eloquente. Há silêncios e afastamentos que falam melhor do que todas as palavras. Estarei a ser mau julgador?! Vou ficando com os que vão ficando.
Disse-me o António Mourão (o novo CD em preparação parece-me razoavelmente bom: aos 60 ninguém tem a voz que teve aos 30 ou 40) que o meu e dele, estimado Marques Calado morreu, para nós inesperadamente (e já lá vão 2 anos). (O Mourão fazia parte dos amigos que privavam connosco e lembro-me do disco em causa, magnifico, onde a voz dos 60 não se nota.) É desolador ver partir quem um dia estimámos.
Escrevi à máquina como sempre me tem pedido (o Alexandre tinha uma letra ininteligível), mas que nem sempre é possível, como tenho dado disso exemplo.
Com um afectuoso abraço,
o Alexandre
- Em Moins cinq… Robert de Saint Jean narra um serão em sua casa com o seu amigo de toda a vida: Julien Green. Nessa altura viviam ambos no mesmo imóvel, julgo que na rue Varenne, Green com a irmã, Robert, só, no andar de baixo. Nos conversations commencent le matin vers neuf heures, ou le soir, après mon retour du bureau, alors que je dîne. J´entends claquer la porte du quatrième, et sais qu´il descend l´escalier pour venir au troisième, je devine ses pas, je saisis le léger díclic de la clef toounant dans la serrure… Le voici. Eu conheci em S. Marçal durante anos este clima calmo, doce, reconfortante. Depois…
- Tout diariste fait reculer la mort. – Robert de Saint Jean.
segunda-feira, maio 06, 2013
Segunda,
6.
Morreu num assalto às instalações da Queima das Fitas do Porto um estudante de vinte e quatro anos. Os colegas diante das câmaras de televisão lamentaram a morte, mas acrescentaram que a festa tinha de continuar. Todos sabemos que as bestas não possuem sentimentos e o pragmatismo é a cultura dos políticos. Felizmente eu não tenho nenhuma ilusão quanto à juventude e por consequência também nenhuma desilusão.
Morreu num assalto às instalações da Queima das Fitas do Porto um estudante de vinte e quatro anos. Os colegas diante das câmaras de televisão lamentaram a morte, mas acrescentaram que a festa tinha de continuar. Todos sabemos que as bestas não possuem sentimentos e o pragmatismo é a cultura dos políticos. Felizmente eu não tenho nenhuma ilusão quanto à juventude e por consequência também nenhuma desilusão.
- Paulo Portas falou. Falou como
primeiro-ministro habilitando Portugal com três chefes de Governo: Cavaco,
Coelho e Portas. Três refinados cínicos, três figuras de terceiro plano, três
vendedores de banha de cobra. A prova é o estado do país – um só banqueiro ou gestor
das multinacionais sabe mais a dormir que os três acordados.
- O Rés-do-Chão de Madame Juju.
Depois de na semana passada nada ter escrito, esta manhã fechei com relativa
facilidade mais um capítulo.
- Tempo impregnado da pureza dos dias. Se
as primeiras horas da manhã são preenchidas em trabalhos no campo, a tarde é
dedicada à leitura na delícia do lounge onde o Black tomou o hábito de
dormitar encostado a mim.
sábado, maio 04, 2013
Sábado,
4.
Nesta altura por aqui trabalho não falta. Ontem transpirei em bica a utilizar pela primeira vez o corta-relva que comprei em Janeiro. Comecei pelas sete da manhã e às nove ainda não tinha conseguido pôr o brinquedo a funcionar. Foi preciso vir o simpático empregado da loja que detectou o óbvio: as máquinas não trabalham sem gasolina. Decididamente eu e as máquinas, eu e os combustíveis…
Nesta altura por aqui trabalho não falta. Ontem transpirei em bica a utilizar pela primeira vez o corta-relva que comprei em Janeiro. Comecei pelas sete da manhã e às nove ainda não tinha conseguido pôr o brinquedo a funcionar. Foi preciso vir o simpático empregado da loja que detectou o óbvio: as máquinas não trabalham sem gasolina. Decididamente eu e as máquinas, eu e os combustíveis…
- Na América uma criança de quatro
anos matou a tiro a irmã de dois. Por lá, os lóbis do armamento, vão ao ponto
de fabricar armas para kids, com pormenores macabros: as das meninas
cor-de-rosa, as dos meninos azuis e com efeitos.
- Não me sai da cabeça os escravos dos
têxteis no Bangladesh. São já às centenas os feridos. Salário de cada um destes
infelizes: 29 euros mensais!
- Passos Coelho falou. Falou para
dizer mais do mesmo, isto é, mais impostos, mais recessão, mais miséria, menos
democracia, em suma. É tão fácil ser contabilista assim! A resposta veio pronta
da boca de Seguro para dizer que não aceita consensos. Também ninguém esperava
um tal acto nobre e útil a Portugal por parte do PS. Pois se até a esquerda,
PCP, BE, e personalidades independentes não conseguem vencer a barreira dos
fantasmas do tempo da outra senhora e entenderem-se num projecto comum!
- Ando a arrumar papéis. De resto com
a convicção de que não vou ter tudo organizado antes de morrer. No meio dos
documentos algumas cartas. Esta do meu saudoso amigo Alexandre Ribeirinho
datada de 1998, onde se fala de Madame Juju. Se bem me lembro, dei-lhe a ler
umas cem páginas do romance que atravessou muitas hesitações ao ponto de só o
ano passado o ter retomado.
HELDER, meu Estimado Amigo,
Eu lhe agradeço a maçada e o tempo que
perdeu com a “disquette” onde registou o meu Conto. Gostarei de o guardar. Para
tanto, fico a aguardar a oportunidade de nos encontrarmos. Já vai longe o tempo
em que nos encontrarmos para dois dedos de conversa (eu mudei-me
definitivamente para Palmela, deixando assim a casa de S. Marçal onde o
encenador me procurava com frequência), era um pequeno acontecimento. Dias e
sobretudo noites que ficaram gravados na memória; das referências que eu gosto
de evocar, o Hélder “anos 80” ocupa um lugar cimeiro. Porém, “tout passe, tout
lasse, tout se remplace” outros mais interessantes do que eu, ocuparam o meu
lugar que não era de todo para o resto dos nossos dias.
O velho resistente (Julien Green),
também ele cedeu como todos os mortais (Green morreu naquele ano). A lei
da vida é inexorável, mas no caso dele deixa Obra que facilmente passará à
posteridade. Um Autor, na verdadeira acepção da palavra, goza desse privilégio.
E se ele foi um Autor, caramba!
Recomende-me, por favor, à mme. Juju.
E diga-lhe da minha parte que já vai sendo tempo de deixar de receber às 5as. feiras
“senhores de posição”. A idade não perdoa, embora ainda possa fingir com alguma
convicção. É tempo de assumir os seus provectos 70 e muitos anos!
Abraço-o com afeição, o amigo ao
dispor.
quarta-feira, maio 01, 2013
Quarta, 1 de Maio.
Aqui o dia foi de trabalho intenso. Encontrei, enfim, um homem com um pequeno tractor que andou aí o dia todo a fazer renascer a quinta do caos. Simpático, conversador, com um apelido romanesco: Fatela. No meu tempo de Coimbra, esta palavra circulava entre a maltosa e designava um gajo porreiro, pacholas. Cândido de Figueiredo aponta tipo da Ilha das Flores o que também é giro. Enquanto isso, a Piedade e eu, limpámos o lounge impregnado de humidade. Depois de ela ter saído, apliquei-me a dar um produto na tijoleira que a protegerá (esperemos!) em futuros invernos.
Aqui o dia foi de trabalho intenso. Encontrei, enfim, um homem com um pequeno tractor que andou aí o dia todo a fazer renascer a quinta do caos. Simpático, conversador, com um apelido romanesco: Fatela. No meu tempo de Coimbra, esta palavra circulava entre a maltosa e designava um gajo porreiro, pacholas. Cândido de Figueiredo aponta tipo da Ilha das Flores o que também é giro. Enquanto isso, a Piedade e eu, limpámos o lounge impregnado de humidade. Depois de ela ter saído, apliquei-me a dar um produto na tijoleira que a protegerá (esperemos!) em futuros invernos.
- A lição do dia porém, chegou quando faltando-me mais duas latas para acabar o trabalho, me desloquei ao Jumbo de Setúbal. Chegada a minha fez, meti-me com a rapariga da caixa: “Então trabalha no seu dia? - Que remédio! Se os clientes recusassem fazer compras hoje… - Não precisa de dizer mais - atalhei. A lição está aprendida”, conclui com um grande sorriso.
- Francamente: que tem o povo a ver com a tragédia que se abateu sobre os seus ombros! Os factos aí estão a demonstrar que ele é vítima de uma classe horrorosa, inepta, corrupta, falsa, que até abre champanhe para comemorar a exploração e a submissão de dez milhões de almas abandonadas à sua sorte. Eu não me calo e com as palavras levantarei o machado de guerra que as circunstâncias exigem. Que cada um à sua maneira e com os recursos que achar apropriados, também não deixe que o país fique entregue a meia dúzia de bastardos. Um simples olhar sobre a directiva da dívida mostra quanto a aldrabice e os jogos de poder são mais importantes que o resultado concreto da sua solução. A austeridade vai em crescendo reduzindo Portugal a uma sucursal de experiências internacionais, com um breve intervalo: 2015. Porquê? Porque é ano de eleições!
- O número de mortos na fábrica de escravos ao serviço das multinacionais dos trapos no Bangladesh, aumentou para 400.
- O Papa Francisco assinalou o Dia do Trabalhador pensando nos milhões de desempregados na Europa que “uma visão económica da sociedade fundada no lucro egoísta, para além das regras de justiça social” atirou para o desespero. Só em Portugal um milhão e meio de pessoas está sem trabalho. Mas Gaspar/Coelho continuam a pensar que é assim que o país vai sair da crise.
terça-feira, abril 30, 2013
Terça,
30.
A foto de Manu Brabo, prémio Pulitzer deste ano, não me sai do coração. Um pai debruçado de dor, chorando sobre o corpo do filho morto num ataque na Síria, uma criança de uns 10 anos, que segura nos braços. O miúdo está ensanguentado e descalço, a cabeça pende para o lado do seu progenitor. O homem calça umas chancas rotas, as calças estão sujas de sangue e o conjunto lembra Cristo nos braços de Maria tal como o descreveram os homens de fé da Idade Média. É um quadro revoltante e terno.
- Fechado o livro de Jean Chalon, Journal d´un arbre, que li palavra a palavra, duzentas e tal páginas de xaropada sem interesse nenhum, retive esta frase que decerto só deve dizer respeito ao seu autor: Vieillir, c´est n´avoir plus à se déshabiller que pour son médecin, ou son masseur.
A foto de Manu Brabo, prémio Pulitzer deste ano, não me sai do coração. Um pai debruçado de dor, chorando sobre o corpo do filho morto num ataque na Síria, uma criança de uns 10 anos, que segura nos braços. O miúdo está ensanguentado e descalço, a cabeça pende para o lado do seu progenitor. O homem calça umas chancas rotas, as calças estão sujas de sangue e o conjunto lembra Cristo nos braços de Maria tal como o descreveram os homens de fé da Idade Média. É um quadro revoltante e terno.
- Depois de ter feito 1.000 metros de
natação numa piscina vazia, regressei a casa, almocei, li duas horas e comecei
a arrancar o mato à mão que cobre o relvado em frente à casa. Este ano não me
liberto de tanta erva. Em verdade, toda esta propriedade não é mais que um
denso matagal que vou limpando à força de pernas e rins. O homem que costuma cá
vir com o tractor fresar a terra, recusou devido à altura do prado. Portanto, a
máquina sou eu. A joy for ever.
- Decidi rebaptizar o velho vizinho de
José Tormentoso. Chamava-se Alves e passou a chamar-se Lascas. Isto porque o
empregado da Fertagus que me vendeu o bilhete de acesso a Lisboa ontem tinha
este divertido apelido. Quem disse que a realidade não se imiscui na ficção!
- Dia tocado pela graça: fecundo,
sereno, intenso, alguns metros acima do chão de poeira onde gosta de jornadear
o povoléu.
- Fechado o livro de Jean Chalon, Journal d´un arbre, que li palavra a palavra, duzentas e tal páginas de xaropada sem interesse nenhum, retive esta frase que decerto só deve dizer respeito ao seu autor: Vieillir, c´est n´avoir plus à se déshabiller que pour son médecin, ou son masseur.
segunda-feira, abril 29, 2013
Segunda,
29.
A António Seguro falta-lhe não só carisma como credibilidade. Não me refiro ao seu ar de seminarista de província, mas àquele modo de fazer política cavalgando no charabia, no vazio das ideias. Talvez eu não conheça os meus contemporâneos, mas ainda assim arrisco a dizer que tão de pressa os socialistas não montam o cavalo do poder. Não se esquece o desastre de Sócrates e por muito que ele tenha assumido sozinho a sua defesa, o seu reinado está ainda demasiado sofrido em cada um de nós. Eu não o ouço como não escuto as homilias televisivas dos aposentados da política caseira. Esta é mais uma das tipicidades nacionais – a pregação daqueles que destruíram o país e não aceitam democraticamente regressar ao anonimato. Esta questão, quer-me parecer, prende-se com o facto de nunca terem sido julgados senão nas urnas. Os negócios ruinosos, a corrupção, o compadrio partidário, a mentira, a negligência à frente das empresas do Estado, as leis mal feitas, em certos casos o roubo puro, todo esse rosário de incompetência e desleixo não foi apurado e condenado no sítio certo – a justiça imparcial e soberana. Sócrates destruiu a imagem do Estado e Passos Coelho aniquilou os princípios constitucionais ao ser mais papista que o papa. Ambos são arrogantes, prepotentes, indiferentes à dignidade do povo. Mas a grande política faz-se de ódios rasteiros, mensagens envenenadas. À frente desta vil situação está o católico apostólico romano Cavaco Silva. Aquele homem expele asco, rancor, vingança e foi dos que soube muito bem como suplantar as origens humildes e pobres. Não há coisa pior para um país que ter à frente pessoas que se dignificam consonante o património pessoal. Sua excelência é uma delas.
A António Seguro falta-lhe não só carisma como credibilidade. Não me refiro ao seu ar de seminarista de província, mas àquele modo de fazer política cavalgando no charabia, no vazio das ideias. Talvez eu não conheça os meus contemporâneos, mas ainda assim arrisco a dizer que tão de pressa os socialistas não montam o cavalo do poder. Não se esquece o desastre de Sócrates e por muito que ele tenha assumido sozinho a sua defesa, o seu reinado está ainda demasiado sofrido em cada um de nós. Eu não o ouço como não escuto as homilias televisivas dos aposentados da política caseira. Esta é mais uma das tipicidades nacionais – a pregação daqueles que destruíram o país e não aceitam democraticamente regressar ao anonimato. Esta questão, quer-me parecer, prende-se com o facto de nunca terem sido julgados senão nas urnas. Os negócios ruinosos, a corrupção, o compadrio partidário, a mentira, a negligência à frente das empresas do Estado, as leis mal feitas, em certos casos o roubo puro, todo esse rosário de incompetência e desleixo não foi apurado e condenado no sítio certo – a justiça imparcial e soberana. Sócrates destruiu a imagem do Estado e Passos Coelho aniquilou os princípios constitucionais ao ser mais papista que o papa. Ambos são arrogantes, prepotentes, indiferentes à dignidade do povo. Mas a grande política faz-se de ódios rasteiros, mensagens envenenadas. À frente desta vil situação está o católico apostólico romano Cavaco Silva. Aquele homem expele asco, rancor, vingança e foi dos que soube muito bem como suplantar as origens humildes e pobres. Não há coisa pior para um país que ter à frente pessoas que se dignificam consonante o património pessoal. Sua excelência é uma delas.
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