Outro dia, com o Simão, não sei a que propósito, falámos de Yeats. Logo no meu cérebro aconteceu um clarão que eu tentei trazer à conversa e se referia ao verso gravado na lápide do poeta, em Rosse´s Point, e que hoje descobri:
Cast a cold eye
On death, on life,
Horseman pass by.
que poderá significar mais ou menos isto: Deita um olhar gélido sobre a morte, sobre a vida, e passa cavaleiro.
- Ontem passei uma parte do dia em Setúbal junto do grupo que costuma encontrar-se à roda dos livros do Simão. Estes encontros são sempre muito animados, porque todos comungamos do amor aos autores, aos livros e à sua interpretação. Dispersado, acabei por almoçar na praça du Bocage com o meu amigo livreiro com quem é sempre um prazer conversar e estar. Tornado a casa, logo levantei amarras para ir ao encontro do Pedro e da Maria José com quem, de resto, esta semana havia estado a admirar a conclusão das suas quinze esculturas encomenda de uma Via-Sacra não me lembro para onde. Jantámos. Pedro veio fazer uma conferência sobre as grutas primitivas da Quinta do Anjo, mas o serão foi um atropelo delicioso de assuntos. De regresso a casa, fazia frio e aqui estava-se na Sibéria. Para meu azar, não tinha sono e apetecia-me compensar o dia de vadiagem e trabalhar um pouco. Simplesmente tudo estava em pane: o ar condicionado da cozinha, a falta de lenha no salão, e por isso tive que me cobrir da cabeça aos pés com mantas. Quem me visse, diria estar perante um monge vivendo num convento varrido pelos ventos frios e as sombras negras de vultos transfigurados. O facto é que senti prazer neste rigor conventual, neste desconforto de um tempo ido. Costumo dizer que gosto do conforto e dispenso o luxo – nunca esse grado me foi tão justo como no serão de ontem.
- A escrita tem para mim um lado curativo. O Público de hoje resume o grosso da sua leitura nesta frase de Paolo Mantegazza (1831-1010): Entre dois, entre três, entre muitos médicos bons, escolhei sempre o que tiver mais coração. Sem conhecer o autor, faço minhas as suas palavras. Quantas vezes digo eu algo de semelhante ao meu médico de família! Ele risse. Eu deixo-o rir. Reparem. Há dias lastimei-me ter perdido o meu sono de criança. Pois bem. A partir do dia em que trouxe aqui esse lamento, voltei a dormir como um anjo sete/oito horas seguidas. Já agora, na linha do escritor do séc. XIX, acrescento: escolham também aquele que menos tendência tenha para vos intoxicar de medicamentos.
- Não largando o Público. Li com agrado a entrevista a Juliette Gréco que tinha por perto a fadista Mísia. É dela que extraio a seguinte afirmação: Quando dizemos que somos fortes (falavam dos artistas), muitas vezes não querem ver que somos frágeis. É mais fácil não o perceberem. Dizem que não precisamos de ninguém, mas como o podem saber? Precisamos de toda a gente. Se refiro esta frase, é para lhe dar razão. Eu mesmo escuto a certos amigos esta proposição: “Não preciso de te falar, porque te leio todos os dias. Sei que estás bem.” Que idiotas de amigos!
- Restam os leitores. E esses são cada vez mais numerosos. Por vários canais sinto que não só gostam destas pinceladas anárquicas, como – desculpem a impudicícia – as acham obrigatórias quotidianamente. Em certos momentos, penso em pôr fim a esta exposição. Não só porque me rouba tempo para o romance, mas ainda porque me obriga a estar atento ao vasto universo social e político que detesto cada vez mais. Mas por eles vou prosseguir. Não escondo que saboreio as suas palavras como água fresca num dia tórrido de calor. Se grosso modo não escrevo para ninguém, é verdade, contudo, se há alturas em que penso no seu destinatário é quanto me sento para escrever estas linhas. Portanto…
- Um meteoro caiu na região russa de Cheliabinsk causando milhares de feridos atingidos pelas partículas desfeitas à entrada na Terra. Não houve mortes, nem feridos graves. Mas os prejuízos atingem 25 milhões rublos.
- Outro estranho fenómeno aconteceu no Vaticano. Quando o Papa Bento XVI pronunciava a alocução de renúncia, um relâmpago atingiu a cúpula da Basílica de S. Pedro. Eu não ponho em causa se trate de um vulgar fenómeno da natureza. O que gostava que me explicassem é porquê naquele dia, àquela hora e naquele lugar.