domingo, fevereiro 17, 2013

Domingo, 17.
Outro dia, com o Simão, não sei a que propósito, falámos de Yeats. Logo no meu cérebro aconteceu um clarão que eu tentei trazer à conversa e se referia ao verso gravado na lápide do poeta, em Rosse´s Point, e que hoje descobri:

Cast a cold eye
On death, on life,
Horseman pass by.

que poderá significar mais ou menos isto: Deita um olhar gélido sobre a morte, sobre a vida, e passa cavaleiro.

- Ontem passei uma parte do dia em Setúbal junto do grupo que costuma encontrar-se à roda dos livros do Simão. Estes encontros são sempre muito animados, porque todos comungamos do amor aos autores, aos livros e à sua interpretação. Dispersado, acabei por almoçar na praça du Bocage com o meu amigo livreiro com quem é sempre um prazer conversar e estar. Tornado a casa, logo levantei amarras para ir ao encontro do Pedro e da Maria José com quem, de resto, esta semana havia estado a admirar a conclusão das suas quinze esculturas encomenda de uma Via-Sacra não me lembro para onde. Jantámos. Pedro veio fazer uma conferência sobre as grutas primitivas da Quinta do Anjo, mas o serão foi um atropelo delicioso de assuntos. De regresso a casa, fazia frio e aqui estava-se na Sibéria. Para meu azar, não tinha sono e apetecia-me compensar o dia de vadiagem e trabalhar um pouco. Simplesmente tudo estava em pane: o ar condicionado da cozinha, a falta de lenha no salão, e por isso tive que me cobrir da cabeça aos pés com mantas. Quem me visse, diria estar perante um monge vivendo num convento varrido pelos ventos frios e as sombras negras de vultos transfigurados. O facto é que senti prazer neste rigor conventual, neste desconforto de um tempo ido. Costumo dizer que gosto do conforto e dispenso o luxo – nunca esse grado me foi tão justo como no serão de ontem.

- A escrita tem para mim um lado curativo. O Público de hoje resume o grosso da sua leitura nesta frase de Paolo Mantegazza (1831-1010): Entre dois, entre três, entre muitos médicos bons, escolhei sempre o que tiver mais coração. Sem conhecer o autor, faço minhas as suas palavras. Quantas vezes digo eu algo de semelhante ao meu médico de família! Ele risse. Eu deixo-o rir. Reparem. Há dias lastimei-me ter perdido o meu sono de criança. Pois bem. A partir do dia em que trouxe aqui esse lamento, voltei a dormir como um anjo sete/oito horas seguidas. Já agora, na linha do escritor do séc. XIX, acrescento: escolham também aquele que menos tendência tenha para vos intoxicar de medicamentos.

- Não largando o Público. Li com agrado a entrevista a Juliette Gréco que tinha por perto a fadista Mísia. É dela que extraio a seguinte afirmação: Quando dizemos que somos fortes (falavam dos artistas), muitas vezes não querem ver que somos frágeis. É mais fácil não o perceberem. Dizem que não precisamos de ninguém, mas como o podem saber? Precisamos de toda a gente. Se refiro esta frase, é para lhe dar razão. Eu mesmo escuto a certos amigos esta proposição: “Não preciso de te falar, porque te leio todos os dias. Sei que estás bem.” Que idiotas de amigos!

- Restam os leitores. E esses são cada vez mais numerosos. Por vários canais sinto que não só gostam destas pinceladas anárquicas, como – desculpem a impudicícia – as acham obrigatórias quotidianamente. Em certos momentos, penso em pôr fim a esta exposição. Não só porque me rouba tempo para o romance, mas ainda porque me obriga a estar atento ao vasto universo social e político que detesto cada vez mais. Mas por eles vou prosseguir. Não escondo que saboreio as suas palavras como água fresca num dia tórrido de calor. Se grosso modo não escrevo para ninguém, é verdade, contudo, se há alturas em que penso no seu destinatário é quanto me sento para escrever estas linhas. Portanto…

- Um meteoro caiu na região russa de Cheliabinsk causando milhares de feridos atingidos pelas partículas desfeitas à entrada na Terra. Não houve mortes, nem feridos graves. Mas os prejuízos atingem 25 milhões rublos.

- Outro estranho fenómeno aconteceu no Vaticano. Quando o Papa Bento XVI pronunciava a alocução de renúncia, um relâmpago atingiu a cúpula da Basílica de S. Pedro. Eu não ponho em causa se trate de um vulgar fenómeno da natureza. O que gostava que me explicassem é porquê naquele dia, àquela hora e naquele lugar.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Sexta, 15.
Lincoln o filme de Spielberg não é propriamente um trabalho notável. É talvez um documento interessante sobre o homem que em 1865 batalhou para a abolir a escravidão, e podia ser menos que isso não fora o excelente trabalho e o estudo da personagem do actor Daniel Day-Lewis. Permanece por descobrir o enigma do 16º presidente dos EUA que no filme aqui e ali sobressai sem, contudo, se desvendar. À parte isso, naquilo que o filme é mais maçador mantém-se até aos nossos dias: a corrupção, o jogo de interesses partidários entre a classe política. O que mudou foi os padrões de vida, melhor dizendo, o train de vie daqueles que por vias ínvias se apoderam do poder e na sua posse constroem a personagem que melhor pensam servir a posteridade. O que antes havia nos dirigentes em simplicidade e humanismo, cresce agora em prepotência, luxo, riqueza e distanciamento. Se falei de enigma relativamente a Abraham Lincoln, foi porque o homem no seu envolvimento familiar e social, na forma como governou e como se relacionou com os seus concidadãos, os seus pares, os filhos, a mulher, transportou um fascínio que os seus súbitos silêncios, as suas dores, a parábola que empregava em momentos de tensão, são o oposto aos incultos e arrogantes saloios que hoje têm em mãos os destinos de milhões de pessoas. Estes possuem, talvez, um mérito – podemos detectar facilmente ao que vêm. Com um punhado de notas apeamo-los do pedestal que os levou ao topo.

- O grande faits divers do momento foi as palavras do ex-secretário da Cultura e autor de romances, Francisco José Viegas. O endiabrado escritor, disse que se fosse abordado por algum fiscal à saída dum café ou restaurante perguntando-lhe se trazia a respectiva factura, ele o mandaria (sic) “tomar no cu”. Bravo! Adoro gente desbragada! O problema que se põe é se o funcionário lhe responde: “Com muito gosto senhor secretário de Estado!” E num arrojo de desespero, acrescenta: “Seria a melhor coisa que me podia acontecer, atendendo aos anos de penúria que por aqui vão.” Que responderia o homem que foi de Passos Coelho e Portas?

- Ontem enquanto esperava no Corte Inglês pelo Simão com quem fui ao cinema à sessão da noite, li de uma assentada 50 páginas do livro de Christopher Isherwood Mister Norris Muda de Comboio que comprei na livraria. Trata-se da continuação de Adeus a Berlim, antes, portanto, da consumada cavalgada de Hitler pelo poder. Que mundo! Que cidade! Dir-se-ia que a decadência convive bem com a morte e esta com o fortuito.

- Lisboa, a minha cidade, aquela que me viu nascer é hoje uma cratera que cospe fogo e raiva. Não se encontra um buraco para estacionar o calhambeque e quando o topamos custa os olhos da cara. Como se pode ser feliz num sítio daqueles! Como se pode ter qualidade de vida (aqui absolutamente tout court) quando é preciso andar a rabear horas e horas para deixar o carro de rabo alçado à mercê daqueles que o Nobel escritor manda tomar no cu. O estabelecimento, pelas nove da noite, borbotava de gente conhecida. Vi Almeida Faria, o meu escritor de culto, muito apaixonado pela mulher, dois palradores de TV, encontrei o meu amigo de infância o ilustre psiquiatra Armando com a Ana Bela, e não sei quem mais. Ao modesto e improvisado repasto, Simão teceu loas ao arrebitado e sacrossanto estado que era o meu. À noite fico assim. Não sei o que se apodera de mim, fico belo, excitado, inconsequente. Muitos amigos, cá e no estrangeiro, assinalam a passagem de estafermo a beau jeune homme. E quando regressei a casa, cantava ao volante do carro árias que o meu cérebro debitava como se lesse uma partitura. Não me apetecia deitar. Estive para vaguear por estes arrabaldes, fazer-me aos infortúnios da noite, entrelaçar-me nos perigos que são quase sempre bem-aventuranças. Ao contrário, como não sou digno de tanto frison, ao entrar o portão pela uma e meia da madrugada, tive um furo que hoje fui consertar ou antes comprar dois pneus que me custaram os olhos da cara: 150 euros.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Quarta, 13.
Cada vez compreendo melhor os amigos que recusam ter televisão: João Carmelino, Conceição, Simão, Lurdes, Maria José e passo. De facto, hoje, por um lado pelo apetite sádico do Governo Gaspar em nos entalar todos os dias mais um pouco e pelo espectáculo da dor apresentado pelas televisões, é melhor viver à parte, sobre os escombros da miséria humana que se reparte por todos os cantos deste infeliz país. Ninguém se revolta. O célebre milhão que saiu à rua quando da TSU, ficou estafado e meteu férias permanentes entregando-se sem honra aos pais que se contorcem para acudir a tanta desgraça. Vem esta parlenda a propósito da machadada do dia. Dizem os nossos simpáticos jornalistas que vamos ter de fiscalizar os donos de cafés, padarias, lojas de bric-a-brac, retrosarias, restaurantes, livrarias, pedicuras, dentistas, médicos de clínica geral e especial, prostitutas, chulos, armazenistas de preservativos, farmácias, os do campo que vendem couves, alfaces, estrume, fruta podre ou de boa qualidade, sapatarias, enfim, tudo o que o cidadão moderno hoje não dispensa e compra à unidade ou por atado, uma hora (caso das quecas) ou uns minutos caso do alívio masturbatório com a vizinha ou o vizinho do rés-do-chão ou a/o do 15º andar no elevador do prédio. O Estado de Gaspar, Coelho e Portas (este deve ter muitas facturas por urgências naturais), quer que sejamos nós a obrigar todo este mundo de dinâmicos fugitivos aos impostos a passar a respectiva factura como se de uma receita médica se tratasse. Mais: se não o fizermos, incorremos numa multa que vai até 2.500 euros!! Oh! Por que não 10 milhões?! Ninguém está de acordo a avaliar pelo fórum desta manhã na TSF. Contudo, a ditadura democrática pode tudo impor, mas com… repressão.

- Repressão idêntica à que utilizou António Salazar multando quem fizesse uso do isqueiro em vez dos fósforos produzidos pela industria nacional. Repressão levada a cabo contra os magistrados no primeiro consulado de José Sócrates e passo. O que quero dizer e reflectir com os meus leitores é o seguinte: pode um Governo aguentar muito tempo pela via da repressão? E porque é que este ou outros governos têm necessidade de utilizar esta via fascista para imporem as suas leis? E estas alguma vez serão eficazes? E que fazemos nós num quadro deste, dentro do país onde nascemos e escolhemos viver?

- Antes do 25 de Abril vivia do jornalismo e conhecia a dava-me com todo esse mundo que hoje se instalou nas diferentes cadeiras do poder e esqueceu para sempre a bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade por que alguns morreram e muitos viveram desgraçadamente ou exilados no estrangeiro. Como já nessa altura possuía um diário, antes de me deitar, anotava à pressa e cansado o essencial do que subterraneamente ia escutando. Para mim era evidente que qualquer coisa estava para acontecer. O como e quando é que me era desconhecido. Quando foi publicado o terceiro volume com o título Nas Margens da Inquietação, a crítica acolheu-o muitíssimo bem. Todavia, uma crítica que faleceu há dois anos duvidou da minha previsão. Acontece que eu não fazia previsão nenhuma. Ia vivendo intensamente o dia-a-dia pendurado na minha observação e na minha intuição social. Enquanto jornalista – e uma vez jornalista, jornalista para sempre – a mim apaixonavam-me desde os faits divers aos acontecimentos quotidianos políticos, sindicais, sociais. Esse bichinho ainda hoje me consome. E é aqui que quero chegar. A mim parece-me que esta Europa do euro, o Portugal de Gaspar/Coelho/ Portas/Seguro, está condenado a uma qualquer aventura, melhor dizendo ditadura. Pode não ser para já, mas que a irá ter isso não tenho dúvida.

- Esta manhã esgotei-me em mil metros de natação. Eu digo porquê. Quando apareci na piscina com o meu caminhar airoso e bamboleante, o meu físico seco e ligeiramente tisnado, os ombros largos e musculado, tinha uma multidão de espectadores distribuídos pelas cadeiras. De imediato, mal assomei à porta, voltaram-se na minha direcção todos aqueles olhares simplórios, numa manifesta admiração pelo personagem que ousava atravessar os 25 metros de comprimento para se descalçar no extremo da box. Confesso que enchi o peito de ar, levantei a cabeça, forcei um pouco mais o andar coxeante e orgulhoso, como se desfilasse numa passarela para modelos híbridos, cheguei às escadas e por elas desci como Zeus sobre as águas do Olímpico. De repente, percebi que aquelas almas anciãs, exigiam de mim que treinasse o melhor possível para os próximos Jogos Olímpicos. E foi isso que fiz com esmero, força e tenacidade tendo, inclusive, os sorrisos doces das crianças que numa parte da piscina cumpriam exercícios ridículos. Ao fim de mais de meia hora, inchado de saúde e prazer, comecei a levitar sobre a água, depois subi um pouco mais, e por fim cheio como um odre, rompi o telhado e desapareci. Deslizei tranquilo pela encosta abaixo e quando aqui cheguei tinha o Black à minha espera que me ofereceu o seu dorso de gato para assentar o meu pé (não foi esse, foi o outro), descer no lounge, abrir a porta e almoçar sob o seu olhar terno e descontraído.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Terça, 12.
Todos sabemos que as pessoas não contam para os fanáticos dos cifrões que nos governam. A prova está no facto de constantemente aparecerem notícias dando conta de centenas de concidadãos explorados no estrangeiro e, muitas vezes, literalmente utilizados como escravos. Pior: um grande número deles são crianças ao serviço de máfias sinistras que as põem a mendigar ou a prostituir. O Observatório do Tráfico de Seres Humanos adiantou que o ano passado o número de portugueses abandonados à sua sorte aumentou. E não só. A Organização Mundial do Trabalho, estima que há no mundo actualmente 21 milhões de pessoas sujeitas a trabalhos forçados, 880 mil delas só na Europa do euro.

- Vi com imenso interesse a série de programas que a SIC apresentou sobre o BPN. Que gentalha! Que ladroagem! Todos ou quase estiveram em governos de Cavaco Silva, Santana Lopes e Durão. Mas não era preciso gastar somas astronómicas em julgamentos – aquelas caras dizem mais do que milhares de sessões judiciais. É por estas e por muitas outras que eu não aceito sejam os portugueses a pagar a crise. A democracia despachada deste modo, é uma forma de ditadura que deixa de fora e às gargalhadas estes sanguessugas que se rebolam de gozo porque sabem que qualquer medíocre advogado pode fazer por eles aquilo que milhões amochando não fazem. Mesmo derrotado, Oliveira e Costa, continua a ter muita força enquanto souber guardar o segredo de muitas vidas iguais à sua.

- A imagem de uma futura governação PS está impressa no último duelo Seguro/Costa. Que se passou? Ninguém sabe. Que vai acontecer? Uma incógnita. Pode o Menino de Ouro voltar a cena política? Pode. Podemos nós todos contar com aqueles tipos? Não podemos.

- Mas não haverá quem cale de vez aquele tipo com ar de nazi, que debita pareceres que ninguém encomendou do alto dos seus escandalosos salários, que não se apresentou a nenhum sufrágio e por isso os portugueses não lhe deram voz para atirar as bacoradas económicas da salsicheira dos brilhantes economistas?

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Segunda, 11.
Bento XVI resignou ao lugar de Pedro. Estupefacção geral na Igreja e no mundo. Os verdadeiros motivos só ele conhece, mas os que foram avançados referem a velhice (oitenta e cinco anos), a doença, o sentir que não está à altura das responsabilidades que a Igreja de hoje exige. A Igreja portuguesa considera a resignação um acto de coragem. Seja. Eu que sempre tive o maior respeito pelo bispo Joseph Ratzinger, enquanto pensador e intelectual, chefe espiritual e ser humano, vejo com mágoa a sua atitude. A velhice não é um mal nem uma incapacidade em si desde que a cabeça continue activa e equilibrada. Gostei de João Paulo II quando, doente e velho, levou até ao fim a sua cruz e desse modo ofereceu ao mundo a totalidade humana que cabe em qualquer um de nós. Para mim, já basta que os velhos saudáveis e activos sejam na sociedade idiota europeia de hoje excluídos (os africanos muito mais evoluídos que nós, respeitam e veneram os anciãos), quanto mais cada velho fazer de si próprio um proscrito da vida.

- Mais um escândalo a sacudir a Europa hoje um continente frágil, à deriva, sem alicerces sólidos que protejam os seus cidadãos. A estes resta-lhes pagar, pagar e pagar com impostos cada vez mais difíceis de suportar, enquanto a avidez do lucro, a coberto do laxismo dos que nos governam, faz de cada um de nós candidato à doença e à morte antecipada. A carne de cavalo ultra-congelada que foi vendida em refeições pré-cozinhadas, é disso exemplo e terror. Não tanto pelos pobres cavalos cuja carne não é má de todo, mas pela cabala permanente a que a sociedade de consumo está sujeita. Bem faço eu que há anos não como carne vermelha, pouco frequento restaurantes, como apenas para poder ler e escrever, não sentindo que a mesa seja forma de “bem viver” de “bem saborear a vida”, de “ter qualidade de vida”. Tal como o Fernando Dacosta diz ficar o dia inteiro a trabalhar numa esplanada com um café, assim a mim basta-me o convívio em torno de uma mesa seja com um copo de três ou um pirolito fresquinho.

- E para me excluir de ripostar, cito Robert de Saint Jean: On parle à l´homme comme s´il n´avait pas de vie intérieure, comme si l´extérieur, autrement dit l´économique et le social, se proposait seul à sa préhension. Journal des temps qui courent, pag. 315, Grasset.

- E já agora para reflexão e fecho esta frase das Carmelitas do antigo convento de Saint-Denis : Le plaisir de mourir sans peine, vaut bien la peine de vivre sans plaisirs. Não concordo nada, mas enfim…

domingo, fevereiro 10, 2013

Domingo, 10.
Não só a sombra, mas também a mão de Sócrates toca o dorso do Partido Socialista naquilo que ele foi e continua ser mestre - a manipular os incautos e os ingénuos. Ao ponto que, visto de fora, o partido que ele dirigiu de uma forma oligárquica possui agora uma apetência à direcção bicéfala.

- A América com queda de neve que em Nova Iorque atinge um metro de altura. Consequência: milhares sem energia, vários mortos, ruas desertas e, inclusive, prisão para aqueles que ousarem saírem de casa.

- Tempo moche. Aproveitei para ler abundantemente, cozinhar, olhar o fogo a papaguear na lareira, pôr em ordem certos papéis, dormir um pouco mais. Porque, sem razão aparente, de repente, deixei de ser o bebé que dormia de uma assentada oito horas. Recuso tomar o que quer que seja, mas enervo-me só de pensar que se foram as minhas sagradas oito horas de sono. Ainda que adormeça de jacto, acordo agora uma ou duas vezes. Talvez a velhice me chegue do lado que me era mais caro e sedutor…

- O Black – nome de baptismo do gato preto – deixou-se finalmente acariciar.

- Tudo o que diz respeito a Espinosa me apaixona. Razão pela qual me precipito sobre o livro de Irvin Yalom O Problema de Espinosa. Não é um ensaio, é um romance escrito por um psicanalista que é filósofo. Um reincida se tivermos em conta Quando Nietzsche Chorou. Lá iremos.

- Annie, outro dia, delirante por causa dos meus limões deficientes. Estivemos uma boa meia hora à conversa sobre estas enfermidades que eu acho poéticas. Annie colocou-os no centro da mesa no salão: um é corcunda, outro tem a forma de um pífaro de três centímetros, um terceiro ostenta uma pança de político socialista bem nutrido (antigamente dizia-se dos abades), ao quarto cresceram-lhe duas adoráveis mamas, o quinto tem a forma de uma panela de três pés. Annie não encontra estes seres em Paris e, por isso, diz-me que não os vais consumir, preferindo olhá-los como se fossem – e são – uma obra de arte da natureza.

sábado, fevereiro 09, 2013

Sábado, 9.
Esta manhã toldado por pensamentos pouco consentâneos com a escrita, decidi fazer-lhe frente pondo-a de lado. Daí ter começado o dia no Mac de Setúbal lendo os jornais e bebendo café como um reformado da vida a quem restam uns dias para morrer. O restaurante estava vazio quando entrei e vazio ficou quando saí. Nesse intervalo de tempo, deslizei por avenidas de silêncio cobertas de um ruído ensurdecedor, que ao meu cérebro chegava em pedaços de coisas imperceptíveis, restos de conversas que sobraram de noites vazias, murmúrios de fontes a coberto de estios e trevas albas, seixos de frases aureoladas pelo suor de medos e fumigações, crostas escuras que em camadas rijas sobrepunham-se em imagens que apareciam e desapareciam, eclipsando a avenida Luísa Todi e as copas das árvores que persistentemente queria admirar como refugio e consolação para a catadupa de mensagens que acudiam e partiam do meu cérebro cansado, litanias vindas dos confins de tempos imemoriais, pautas musicais escritas à mão, salmodiadas por vozes juvenis que imitavam os eunucos de outros séculos, tudo numa desafinação de fugir, baralhada abundante em sintonia com o ruído dos carros no alcatrão da rua, àquela hora quase sem ninguém, um velho trôpego, uma criança mascarada pela mão de uma mulher gorda, sorridente, defendendo os olhos do sol suave do inverno, a esplanada em frente ainda fechada lembrava o fim do verão nas praias ventosas quando os veraneantes partiam rumo ao Outono entalado entre o estio e o inverno, como dois namorados desavindos que trocam entre si as derradeiras palavras de um amor enterrado há anos, um fio finíssimo de dor e desnorte viajava do lado esquerdo para o direito da minha cabeça, como se de repente tivesse sido atacado pelo síndrome de Merimé, coisa estranha que nunca tive, forma de ver o mundo em balanço, em tremuras e desmaios, num contraste sem sentido com o dia real, cheio de sol a jorrar dos poros do firmamento, da pele da atmosfera, ali arfante quando numa qualquer igreja bateram doze badaladas e a avenida de súbito se animou de gente vinda das ruas interiores, fechadas ao astro-rei, onde estiveram árabes e navegantes, pescadores e marinheiros de hábitos e hálitos fortes, corpos tisnados oferecidos a mulheres doidas que se entregavam ao despacho de suspiros, suores, risos, dores e saudades sofridas em noites de desespero, tocadas a álcool, a doenças, à sofreguidão do sexo que tudo liquidifica numa lágrima salgada, ponto final de uma hora esparsa que se arquiva num fado, num poema ou num silêncio magoado, grito que fica a encher a noite e se estende como um braço de mar ao Sado, do outro lado da Luísa Todi, onde há barcos alongados ao sol, e uma nesga de gente enfeitada de olhares perdidos nas águas cujos reflexos cegam, entontecem, obrigam a desviar o olhar para longe onde os romanos ficaram por séculos transitórios, temas esquecidos, enterrados, não obstante as ruas árabes da Baixa nas minhas costas, onde imagino ouvir-se ainda os soluços dos apaixonados, gente de passagem, sem eira nem beira, poetas doidos que levaram a vida a cantar “o fogo que arde sem se ver”, Safo a espreitar nos vãos de escadas de madeira carcomida em buscas de deusas ofuscadas, mulheres desfeitas, gastas pelo amor ocasional, que enterra os sentimentos na vala comum da desgraça, um ar de ópera a romper do outro lado do passeio, quando a tarde começa a desenhar os seus contornos nas empenas dos prédios de azulejo antigo, alinhados nas duas margens da avenida onde o trânsito é agora contínuo e o sol desce vertical das alturas soltas, como um hino à vida que tomou de assalto os espaços da cidade, num consequente formigueiro humano, vindo de uma noite longa, atacada pelos mesmos clamores de há séculos, pregões e salmos, suspiros e cansaços, tudo de repente em transição diante dos meus olhos atónitos, desta cabeça que não pára de receber os impulsos de sobrevivência que vêem de todo o lado desaguar à minha mesa de café para me sacudir da letargia em que estou, peça de um todo encalhada na perturbação, frente à luz clara da tarde de súbito num frémito, sacudindo-me em estremeções, vibrações violentas, obrigando-me a sair para a rua onde a noite se estatelou, os transeuntes se fizeram verdes, amarelos, azuis, alguns dançam alegremente na praça de Bocage aonde agora cheguei, empurrado pela ventania que leva tudo na frente, quando para os lados de Tróia vislumbro raios lindíssimos de sol, figuras de arlequins dançando a contra-luz, rapazes e raparigas nus, suspensos por fios tangíveis que os impedem de cair ao mar, abraçam-se e beijam-se na maior impudência, com a poesia na transparência dos gestos, na silhueta dos corpos, a luz a passar através da pele, vinda do interior do corpo, projectada nas igrejas oitocentistas, nas sombras dos muros e fachadas, no filigrana manuelino de uma exuberância excelsa, a multidão pasmada a olhar o céu a intervalos escuro ou incandescente, um sussurro de águas cristalinas vindo de sítios distantes, ali chegadas por misteriosos canais para alimentar jardins luxuriantes, perdidos em desertos obsidiantes, construídos na minha cabeça transtornada, às primeiras horas deste sábado, quando a escrita desistiu de ser a minha companheira, eu que dependo dela como uma chaga que se alimenta do poder de vastas solidões habitadas de fantasmas, orgias, delírios e secretos mundos, onde pela graça da Arte, enfim, me reencontro, agora que o dia declina e vislumbro os primeiros incêndios da noite, penumbra das horas, paralisação dos sentidos, o silêncio limpo como presença humana a abraçar-me pelas costas, aqui onde estou sentado à minha mesa de trabalho, a lareira acesa, os livros dispersos por mesas e cadeiras, uma leve sensação que me tolha num reflexo exaltado de esperança…

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Quinta, 7.
Retomando o tema acima abordado. A mim o que me dava jeito é que a esquerda (PCP e BE) discutissem, por exemplo, porque é que o senhor Ulrich ganha 60 mil euros/mês, o senhor Espírito Santo uns oito milhões/ano na companhia de uns quantos génios mais, quando há seres humanos que trabalharam toda a vida de sol a sol e não chegam a auferir 100 euros por mês. O senhor Ulrich contra-atacou debitando que Jesus (não se trata do Filho de Deus, mas de um bacoco que dirige uns quantos bacocos que correm como loucos atrás da bola), ganha muitíssimo mais do que ele, senhor doutor, brilhante sabedor, o maior banqueiro do mundo que só teve a pouca sorte de ter nascido português de uma família boa cepa, unida à Igreja que – diz – ensinou-lhe os bons princípios. Pena que não tivesse aprendido que a inveja é um dos pecados condenados pela Santa Madre Igreja. E por hoje não quero sujar estas páginas com o facto de ele pertencer a uma classe de tipos odienta que levaram a Europa e o mundo ao estado em que se encontra, não se conhecendo nenhum banqueiro atrás das grades entre nós e apenas um ou dois em todo o mundo.

- Eu acredito muito pouco na juventude que caminha como zumbis por esta terra abandonada por Deus. Contudo, às vezes, destacando-se do continente, uma ilha de esperança faz-me acreditar que nem tudo é um seixo largado no chão contaminado de erva daninha. Como o exemplo daquela jovem espanhola que esteve aí na reunião socialista esta semana. Alto e bom som, no meio daqueles ilustres socialistas que não dormem, choram e desesperam pelos miseráveis deste mundo, disse esperar mais de reuniões daquele tipo. Para ela o encontro não passou de uma festa de família que custou uma fortuna a montar, com viagens e hotéis de cinco estrelas, gastos sumptuosos numa altura em que muitos espanhóis, gregos e portugueses passam fome. Que a voz não lhe doa nem se aburguese com a idade! Que o seu coração continue vertical para que renasça em nós a confiança no futuro! Eu sou dos que não acredito nas massas populares. Pelo contrário, fujo delas. Prefiro a voz isolada, com o poder sublime da solidão, e o sentimento de pregar no deserto. É daí que eu sou, é aí que encontro as minhas raízes e vislumbro a certeza das minhas razões.

- Voltar a Matzneff é sempre para mim vivificante. Gosto da sua língua afiada, do seu espírito livre, da sua inteligência, da sua cultura, da sua dietética de vida. Desta vez por causa de um ensaio antigo que encontrei esquecido nas estantes de Chez Gibert do Quartier Latin, La Diététique de Lord Byron. O seu mestre é de pronto apresentado desta forma que sintetiza também a lucidez e camaradagem de uma vida: La diététique, ce ne sont pas seulement les regimes alimentaires qui furent, dès son adolescence, une des obsessions de lord Byron, mas aussi sa philosophie de l´existence, et son art de vivre: le comportement qu´avait en face de l´amour, de la criation littéraire, de la société, de Dieu, ce pessimisme allègre, cet égoisme généreux, ce gourmand frugal, ce sceptique passionné, ce grand seigneur nonchalant que fut un révolutionnaire actif, ce nordique fasciné par l´Orient, ce tempérament de droite aux idées de gauche, ce pédéraste couvert de femmes, ce disciple d´Epicure qu´habitait la peur de l´enfer chrétien, cet adversaire de la vie, cet ami des Turcs qui est mort pour la liberté du peuple grec, ce poète à la réputation sulfureuse et au cœur pur… resumindo Gabriel Matzneff.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Quarta, 6.
Às vezes a presença física dos entes queridos desaparecidos é tal, que tenho vontade de os sacudir e perguntar-lhes onde estão, que foi feito deles, em que mundo vivem sem mim. Mesmo sendo o diálogo ininterrupto entre nós e uma saudade imensa cubra de nostalgia o espaço da memória onde permanecemos juntos para sempre, são-me penosos esses instantes cobertos do vazio da sua ausência.

- Terminei um capítulo com 25 páginas. Seguiu-se um esgotamento cerebral que me levou a ficar horas ao sol debaixo do telheiro. Ora rachava lenha, ora lia. Mas o cérebro não despegava do mundo onde Maria Gordulha impera, senhora de si e dos seus dons que levava o meu saudoso amigo Alexandre Ribeirinho (as primeiras páginas entretanto destruídas datam de há mais de vinte anos) a perguntar: “Então, Hélder, madame Juju já aluga quartos?” Acontece que este romance começou por ser um diário, que enquanto tal não desemperrava devido ao vocabulário da minha heroína, depois escrevi uma centena páginas na forma romance que me decepcionaram, por fim, como aqui já contei, estando em Roma com o Simão há dois anos e tendo-lhe narrado parte da história, decidi-me a retomá-la na versão actual.

- Aquilo foi ontem. Hoje fui ao CAM da Gulbenkian com a Conceição ver a exposição de Narelle Jubelin. Já conhecia alguns dos seus trabalhos, mas estes que hoje admirei excedem pela excelência e o trabalho em petit point. Mas é também muito do pouco. Se excluirmos a forma como os tapetes estão expostos, o que mais me atraiu foram as maquetes da entrada de um trabalho de formiga, belíssimo, minucioso, pensado segundo julgo para a casa da Austrália de onde é originária. De igual modo, o vídeo que nos mostra a forma como as tribos africanas constroem as suas casas – eu sempre fui apaixonado pela arquitectura – e que pela temática se incorpora no trabalho de Narelle Jubelin, a solidariedade, a ideia dos negros de que a casa é um lugar de santificação, de partilha, de convívio harmonioso. E… pelo menos desta vez, um aleluia à instalação de Alberto Carneiro que me encheu de jubilo e se encontra à esquerda de quem entra.

- Durante o almoço no restaurante do museu, traçámos em linhas gerais a temática que a Conceição vai criar para o muro do meu alpendre. Eu descobri, tarde, o seu grande talento de pintora, e tudo o que vi encheu-me de vontade de admirar, possuir, desfrutar. Ela, como todos os grandes artistas, desenha muito bem, tem escola, mão e sensibilidade. Reservo para mim a parte colorida e só não começamos já porque não a quero submeter ao frio franciscano que o monge suporta com alegria e para remissão dos seus pecados que são muitos e caudalosos…

- Fernando Ulrich disse o que disse sobre os sem-abrigo. A esquerda que ouviu mal ou não sabe português (refiro-me ao português de antes do acordo Sócrates), anda por aí a gritar contra o homem forte do BPI. Eu estou do lado do banqueiro. De facto, Portugal – aos olhos do Governo e foi isso que ele quis dizer – ainda pode hoje e sempre suportar mais austeridade. O problema desta esquerda piegas e desonesta, é que quando chega ao poder, além de se abotoar como pode, ainda edita regras tão ou mais ruinosas para os pobres que a direita. Contudo… sempre sob a batuta do bem-fazer aos coitadinhos dos pobrezinhos.

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Terça, 5.
Estamos transformados numa multidão de escravos que labuta apenas para o Estado, sem direito a sobras nem tempo para limpar o suor. A república e a democracia tomaram dos sistemas concentracionários os valores de servidão e de humilhação fazendo de cada um de nós uma coisa descartável, obediente e submissa, sem direitos nenhuns inclusive o da dignidade que é de todos aquele que o ser humano mais devia prezar. Vem isto a propósito do que ontem observei nas finanças aqui de Palmela. Fui lá como tantas outras pessoas, para responder ao que o ministro Gaspar, habituado a viver e a trabalhar pelas altas instâncias da sua querida União Europeia, decretou. E o que ele ordenou foi, uma vez mais, que os contribuintes fossem empregados do Estado levando de casa o trabalho que devia ser feito pelos funcionários das Finanças. Acontece que é muito fácil governar sentado nos gabinetes aquecidos dos ministérios, decretando sem a mínima atenção aos outros, sem perceber peva do que são as estruturas e disponibilidade das pessoas, dos organismos e da matéria que se requer dos contribuintes, no caso a caderneta, o ano de construção da habitação, a planta e tudo o mais que se mostre susceptível de ser cotado em bolsa do Estado sôfrego e cruel. Resultado: da entrada ao primeiro andar, encontrei uma floresta de gente vestida de negro, apalermada, revoltada, na sua maioria homens e mulheres do campo, de papéis nas mãos trémulas, encostados às paredes, ao corrimão da escada, olhares suplicantes a questionar o que lhes estava a acontecer. Fui até à repartição e aí não havia um espaço. Corpos uns contra os outros como latas de sardinha fora de prazo tal o cheiro nauseabundo que ondulava no ar. Atrás do balcão quatro funcionários a transpirar, assustados com a multidão em fúria, faziam o que podiam, isto é, quase nada devido à complexidade dos processos. Regressei a casa revoltado. Acalmei e ao fim da tarde mandei por e-mail os elementos que me foram pedidos por carta com quinze dias apenas para a reposta esperando não ter que lá voltar. Dito isto, a mim quer-me parecer que é tudo uma questão de tempo. Todos os governos pós-25 de Abril têm andado a gozar com o povo, maltratando-o, achincalhando-o, impondo-lhe impostos sobre impostos, retirando-lhe direitos primários, desrespeitando acordos de muitos anos, empobrecendo-o enquanto os iluminados que o têm (des)governando foram rapidamente enriquecendo aos olhos de toda a gente, numa cumplicidade de mafiosos, que se protegem entre si, organizam-se para prosperar à custa dos infelizes, dos simples, dos que trabalham arduamente. O que ontem vi foi passado a papel químico do que presenciei quando José Sócrates ordenou aos reformados se apresentassem nas repartições da Segurança Social para “fazer prova de vida”. É toda esta prepotência, este marimbar para as pessoas, este laxismo que um dia dará as boas-vindas ao primeiro ditador do século XXI. Ou outra coisa ainda pior, o afrontamento popular na recusa em pagar impostos, em aceitar ser governado por esta cambada de corruptos, de novos-ricos, arrogantes e amantes do dinheiro. Em tempus fatorum dictum.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Segunda, 4.
Estou no final da leitura de Moins cinq. Verdadeiramente o livro é o retrato de Julien Green na sombra. Robert de Saint Jean que foi um jornalista notável e um escritor ou memorialista fascinante, deixa-se apagar para trazer à luz da posteridade o amigo de uma vida. Amizade platónica segundo Green alguns anos antes de morrer “por falta de atractivo físico”, mas que, não obstante, lhes trouxe aos dois muitos amargos de boca. Nomeadamente, com François Mauriac, estranho católico, casado, que possuía uma quinta em Malagar para não falar de Morand. Um dia disse ao autor de Moira que gostava de o convidar a lá ir para uns dias, mas Robert… Comentário de Julian Green no último volume do Diário aos 98 anos: J´aurais voulu aller et François Mauriac m´y avait d´abord invité, mais il y avait Robert qui voulait lui aussi être du voyage. François Mauriac, comme tout le monde, a confondu une amitié platonique avec une liaison et m´a dit : « Vous comprenez, ce n´est pas possible… » En effet, cher François, vous receviez des hommes parfaitement irréprochables à vous yeus, Gide, Martin du Gard et j´en passe. Si vous aviez su, vous auriez d´abord compris qu´il fallait deux chambres et non pas se spectre pour vous d´un lit conjugal. Excelente resposta.

- Mauriac que na juventude andou pelos mesmos caminhos e depois viveu em duplo. Green teve mais personalidade, foi mais coerente e aguentou as consequências. Quem não conhece o célebre poema de François Mauriac dedicado a son petit Jean (Cocteau) e os irritants baisers de tes lèvres gercées com quem viveu uma paixão! Eu conheço criaturas idênticas a Mauriac, vivendo uma vida escondida e outra desgraçada ao lado da mulher e dos filhos. São eles que mais se exacerbam contra os homossexuais pela simples razão que estes são mais felizes afinal encarando o seu destino e condição, que eles miseráveis pais de família com um olho na honorabilidade e outro na braguilha de quem passa perto.

- A propósito de Julien Green. Outro dia abri ao acaso um dos Diários (La bouteille à la mer) e dou com uma entrada sobre o doloroso naufrágio do Titanic. Quando os passageiros felizes entravam no navio, um dos recepcionistas diz a um dos felizardos: “Mesmo Deus não consegue afundar o Titanic.” Comentário do diarista: Le défi a été relevé.

- Falemos agora das coisas relevantes que entopem os cérebros dos ilustres políticos da nossa praça. O tema apaixonante do dia é a investidura de um tipo muito conhecido na fossa da alta finança, para secretário de Estado no ministério da Economia e que esteve ligado ao BPN. Todos dizem (a tropa do Governo) ser impoluto e competentíssimo. Tão competente e fiel que, sabendo das maroscas que nos arruinaram, achou por bem dizer... nada

sábado, fevereiro 02, 2013

Sábado, 2.
Só me sinto verdadeiramente alguém quando mergulho na escrita e me deixo arrastar no caudal das palavras e das emoções. Ultimamente tenho voltado ao McDonald de Setúbal, um lugar até ao meio-dia silencioso, propicio ao estudo, abrigo secreto da memória dos dias, espaço onde me perco por desertos incomensuráveis, reflexões e sonhos de que é fértil o meu interior. Não há vez que lá entre que não recorde Matmatu. As manhãs delirantes na sua companhia, a depressão saborosa que me paralisou, os meses de convívio com uma personagem que não tinha a noção da sua importância, a vida jogada – apetecia-me dizer - atirada borda fora de si como coisa sem importância, ao jeito de quem joga na roleta dos sentimentos numa transumância de acasos que os seus vinte anos ofuscantes sintetizam-se nestas palavras de Al Berto: o pior veneno para o coração é estares aqui, quase a tocar-te, e saber-te ausente (Diários, pag. 272, ed. Assírio & Alvim).

- Fr. Hélcio com quem almocei um destes dias no Corte Inglês telefonou ontem à noite. A dada altura perguntei-lhe o que era feito do “escândalo” dos pedófilos do hospital onde trabalha. “Como te disse, eu nunca ouvi falar disso. Deve ser mais uma das muitas ferroadas que alguns senhores são useiros e vezeiros a proferir.”

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Sexta, 1 de Fevereiro.
Por todo o lado a classe política não passa de um bando de gatunos e malfeitores. Quando eles clamam que é “por patriotismo e ajuda à nação” que decidem ser presidentes da república ou primeiros-ministros ou deputados ou presidentes de câmara ou até de junta de freguesia é certo e sabido que já deitaram a mão ao erário público ou enriqueceram por subterrâneos mundos de corrupção, compadrio e latrocínio. É tudo uma questão de esperar alguns meses para vermos esparramados nas capas dos jornais o rol dos crimes que nenhuma justiça algum dia julgará. Quantos políticos entre nós ou por essa Europa miserável, corrompida e alienada estão atrás das grades? Nenhum. Um dia que não vem longe, serão presos todos os honestos os homens e mulheres que constroem a vida com trabalho e honradez. Agora está na berlinda Rajoy, aquele que pela força impôs um plano de austeridade que atirou para o desespero milhões de espanhóis, eles que, como nós, nada fizeram para destruir a economia. Segundo o El País, Rajoy recebeu 25.200 euros anuais em doze anos camuflados numa contabilidade paralela de que se encarregaram os tesoureiros do PP Álvaro Lapuerta e Luís Bárcenas. Que moral pode estes gangsters invocar para impor as medidas que têm implementado tocadas a repressão, fome e miséria, quando eles são os primeiros a actuar fora da lei, eternamente protegidos pelo clã, o partido, a banca e todos os subservientes do poder.

- A OCDE diz que Portugal (leia-se Gaspar/Coelho/Portas), cortou na saúde o dobro que a troika dizia ser necessário. Se as baronesas socráticas não fossem o que são, só com este tema poderiam afrontar o Governo sem ficarem reféns do famigerado Acordo que assinaram.

- Enquanto o primeiro-ministro se ufana com a mendicidade virtual, o desemprego voltou a crescer situando-se agora nos 16,5%.

- Notre personnalité social est une création de la pensée des autres. Marcel Proust.

- Digam-me se souberem : o que há de tão sólido entre Relvas e Coelho que este não consegue cortar o cordão umbilical que os une? Estanho. Cala-te boca…

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Quarta, 30.
Pobres socialistas! Depois de terem andado ao murro e à peixeirada à boa maneira de Sócrates, vêm agora falar de unidade em torno de António Seguro. O actual secretário-geral surpreendeu-me agradavelmente com a estratégia de confronto com a clique socrática que depois do chefão ter voltado ao país não pára de conspirar. Passos Coelho nunca esteve tão seguro no poder. Não é com tipos destes que Portugal algum dia poderá vencer do analfabetismo, do obscurantismo, da pobreza franciscana. Vivem obcecados pelo poder, pela intriga, pelos jobs for the boys, pelo dinheiro e não se dão conta da miséria humana que reside em cada um deles. Por agora as baronesas socráticas arrepiaram caminho. Até quando?

- Dias luminosos e felizes os derradeiros. O sol de inverno regressou à terra e a natureza acolheu-o de braços preguiçosos erguidos ao Criador. Longas horas ao sol debaixo do alpendre em leituras ou curvado no jardim. As árvores estendem já os ramos florescentes, os coelhos deixaram as tocas, os sardões trepam às janelas e este mundo que parecia morto, ressuscita com mais flor, mais seiva, mais beleza. A própria poesia risca no ar um salmo cuja melodia sei de cor. As chaminés fungam um perfume que a atmosfera absorve e deixa em aromas contínuos por todo o lado. O chão da terra cobriu-se de um tapete verde de uma intensidade brilhante. Os sons distantes foram-se a pouco e pouco aproximando e todos os elementos antes dispersos encontram em harmonia o seu lugar. Que a morte fosse isto, este ressurgimento, esta alegria breve, este encontro com o mistério que só tem paralelo com a nascença.

- Pronto. Desta vez vou levar até ao fim o monumental hino à memória dos sentimentos finitos que é A la recherche du temps perdu. Comecei pelo primeiro volume Du côte de chez Swann, impresso pela Gallimard em 1975, que foi por onde eu espreitei Proust pela primeira vez. Conheço a obra espaçadamente, lendo este e aquele livro, mas agora quero saboreá-la de uma ponta à outra. E espero entrar em transe como aconteceu com Cervantes e o seu D. Quixote quando o li de fio a pavio.

- Outro dia estive a ler a resposta que D. João IV deu aos temerosos inquisidores do Santo Ofício que se queixaram do padre António Vieira por tudo ter feito para defender os cristãos-novos e integrá-los na sociedade portuguesa. O jesuíta conseguiu, inclusive, do Vaticano a suspensão por cinco anos do sinistro tribunal. Facto, entre muitos, que o Santo Ofício não lhe perdoou, acabando por queixar-se ao soberano do rancor que a Companhia de Jesus lhe tinha. D. João IV, temendo a influência dos inquisidores, nas tintas para o muito que António Vieira fizera por ele e por Portugal, tendo sido inclusivamente orientador espiritual de D. Teodósio e defensor muitas vezes à parvoíce do monarca, este, apesar de tanto, não hesitou em humilhá-lo apoiando deste modo a Inquisição: “(…) e saberei que me descontento mesmo de ver que no tempo do meu império se acrescentem contraditores ao Santo Ofício, ao qual, como à mais importante coluna da fé nestes meus reinos, hei-de sempre amparar e defender, sem que me atalhe nenhuma afeição nem respeito humano. (percebe-se a facada…) E particularmente vos digo, hei-de consentir que pessoa alguma alcance a isenção daquele tribunal, nas matérias que lhe tocam, como me dizem se pretende, posto que não o acabo de crer.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Terça, 29.
Aconteceu há dias um triste acidente com uma camioneta espanhola que transportava clientes numa excursão ao Norte e do qual resultaram vários mortos. Uma parte dos feridos fora encaminhada para o hospital de Coimbra, outra parte para o de Portalegre. Esfomeados de sangue, aquelas meninas e meninos formados na Casa dos Segredos ditos repórteres, apressam-se junto das vítimas e perguntar o que sentem, se dói muito, o que recorda do desastre. Eu gostava de ver o que respondiam quando a entrevistada lhe dissesse “olhe, estou óptima, foi excitante, estou muito feliz”. De igual modo, as ditas jornalistas, inquirem junto do médico de serviço sobre o estado dos acidentados. Este, antes de responder ao que se lhe pedia, começa por tecer laudas aos serviços do seu hospital, informando que todos foram bestiais e que o socorro foi o melhor de toda a Europa. Desloca-se a câmara para o hospital de Portalegre e logo escutamos antes de mais do colega de serviço a mesma lengalenga. O que me ocorre saber é: se os clínicos cantam o fado de convencimento à desgarrada ou se querem enviar recados ao ministro da respectiva pasta. Seja como for, aproveitarem-se dos doentes e das aflições dos familiares, perece-me uma conduta a todos os títulos reprovável. Mas é evidente que o jornalismo que se pratica hoje é abaixo da trampice, é canalha e de terceiro mundo.

- Que se passa com as famílias portuguesas antes pilar de todas as virtudes. Numa semana um pai mata a tiro a mulher e a filha, ontem dois rapazes de 12 e 13 anos apareceram mortos num carro abandonado ao que tudo indica envenenados. A mãe assassina foi encontrada morta a uns metros dali. O mais fácil de concluir e agrada a esquerda, é que se trata dos resultados da austeridade que leva à miséria. A mim parece-me que o problema é bem mais profundo e vasto e entronca num leque de situações que têm pouco a ver com a pobreza.

- Quando da invasão das tropas holandesas à ilha do Ceilão, os portugueses bateram-se como se sabe heroicamente. Apesar de o molengão D. João IV governar para sua glória e ter, inclusive, a dada altura  querido entregar Portugal a Espanha por via do casamento do filho D. Teodósio com a infanta de Castela, filha de Filipe IV, e não obstante o desinteresse que manifestou pela defesa da Índia, entregando-a a um punhado de fidalgos que só lá estavam para se governar e causaram sofrimento e mortes desnecessárias a milhares de índios, pretos e nativos, não obstante tanto sofrimento, dizia, os portugueses lutaram  galhardamente. Diz o conde da Ericeira, citado por Pinheiro Chagas, que na defesa de Colombo, o padre Damião Vieira era “um dos mais estrénuos defensores da cidade, quando não matava holandeses, convertia-os. E acrescenta: Essa ocupação evangélica era o seu entretenimento das horas vagas.”

- Estive a dispor uma fila de alhos seguindo os ensinamentos de Rosa Guilherme no Público de sábado. Depois de cavar e estrumar a terra, enterrei duas dúzias de dentes e depois deitei por cima as cinzas da lareira do serão de ontem. Agora, aliviado do esforço, resta-me esperar pelos resultados se, bem entendido, os coelhos não apreciarem o cheiro a alho…

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Segunda, 28.
No Brasil do sul, pelos menos 250 jovens foram mortos numa discoteca. Um horror para aqueles infelizes. Tudo começou quando o grupo que actuava no palco, utilizando labaredas de fogo na sua performance, ateou fogo ao tecto construído com substâncias inflamáveis. A maioria morreu sufocada pelo fumo.

- A moda agora, sobretudo na família futebolística que como sabemos é da mais culta, é falar-se a propósito de tudo e de nada, em “alma”. A alma disto e daquilo, o tipo tal que a possui aos quilos, este que a tem generosa e assim. Mesmo alguns políticos que estão em cultura ao mesmo nível dos jogadores, também vêm convencer-nos que põem alma nos sentimentos com que nos protegem, nos falam, connosco se solidarizam e alguns não tenho dúvida até põem alma quando nos roubam. Depois da palavra “humildade”, esta fecha a nomenclatura do homem parlapatão que se diz moderno entre nós. Pascal para quem “é o coração que sente Deus, e não a razão”, se escutasse estes piedosos seres, abriria um sorriso de piedade pela patetice portuguesa.

- Sócrates que detesta o rigor e o estudo, aligeirou não só a forma de roubar como a língua portuguesa. Vejam no que deu. Na televisão o jargão é mais ou menos assim: “Decorridos que sejam… Há sete anos atrás… Vou colocar-lhe uma questão… Os automobilistas aderentes…” e tantas outras bacoradas que o ex-primeiro-ministro e engenheiro formado ao domingo houve por bem instaurar.

- Ontem fui atacado pela saudade de George Harrison. Tenho o seu derradeiro trabalho, All Things Must Pass, um triplo álbum, que comprei em Paris quando saiu era eu adolescente. Trata-se, portanto, de uma primeira edição para fazer a comparação com os livros. São três discos soberbos, inspirados, profundos, varridos pelo leve sentimento da despedida. Gosto de todas as músicas, mas sobretudo da que dá título ao trabalho. Contudo, o último LP, todo ele instrumental, transporta-me, leva-me por imensidões de sons e deixa-me plantado num deserto de sensações, beleza e mistério que finalmente caracteriza o álbum todo.

domingo, janeiro 27, 2013

Domingo, 27.
António Costa numa atitude muito pouco ética – o que eu lamento pois conheço aquela família que é gente impecável -, ainda nem secretário-geral do Partido Socialista é, e já numa directa ao ex dos Açores acena com emprego que muitos diriam tacho. Além de que acho a entrada do senhor Sócrates na liça extemporânea, maligna a fazer soltar a Passos Coelho gargalhadas de contentamento, numa semana que ele, Coelho, publicita a todos os títulos gloriosa. Por outro lado, entendo que, enfim, Seguro esteve à altura da investida atacando sem demora. (Anoto isto ao correr do dia, porque nada destas sacanices daqui a um mês tem importância e, se um dia este diário for publicado, desaparecerá como coisa inútil e sem história como, de resto, centenas de outras entradas.)

- Robert mandou-me entusiasmado por e-mail um texto de Romain Rolland sobre a Nona Sinfonia de Beethoven que eu já conhecia do livro Vie de Beethoven escrito em 1903. Foi, aliás, em Vaseley, em casa de Jules Roy, que vimos juntos uma exposição patente na altura na cave, do autor de Jean-Christophe. Transcrevo algumas linhas da sobre a obra sinfónica que se apoia aliás no poema de Schiller Hino à Alegria: La Joie descend du ciel, enveloppée d´un calme surnaturel: de son soufflé lèger elle se glisse dans le cœur convalescent, qu´ainsi que cet ami de Beethoven, “on a envie de pleurer, en voyant ses doux yeus”. Lorque le thème passe ensuite dans les voix, c´est à la basse qu´il se prèsente d´abord, avec un caractère sérieux et un peut oppressé. Mais peu à peu la Joie s´empare de l´être. C´est une conquête, une guerre contre la douleur. Et voici les rythmes de marche, les armées en mouvement, le chant ardent et haletant du ténor, toutes ces pages frémissantes, où l´on croit entendre le souffle de Beethoven lui-même, le rythme de sa respiration et de ses cris inspirés, tandis qu´il parcourait les champs, en composant son œuvre, tranporté d´une fureur démoniaque, comme un vieux roi Lear au millieu de l´orage. A la joie guerrière succède l´extase religieuse ; puis une orgie sacrée, un délire d´amour. Toute une humanité frémissante tend les bras au ciel, pousse des clameurs puissantes, s´élance vers la Joie, et l´étreint sur son cœur. E já agora se me permitem : esqueçam a interpretação e direcção de Karajan. Ouçam a de Kurt Masur com a Gewandhausorchester de Leipzig e verão que planam lá no alto entre querubins e estrelas e o Compositor estará convosco nos firmamentos sonoros eternos.

- Como é que é possível pensar que uma economia que não cresceu nada com a moeda única e que se endividou brutalmente consiga agora, não sei por que milagre, começar a crescer? – pergunta João Ferreira do Amaral. Mais um que é dos meus. Tratando-se de alguém com experiência – ele trabalhou com o FMI em 1984 e 1987 quando a Instituição veio em nosso auxílio – não tenho dúvida que estou bem acompanhado. Ele tal como eu, advoga a saída da União Europeia sob o controlo e apoio da organização e não unilateralmente como eu também aqui tenho dito.

- Chove. Um tule de água finíssimo fecha o horizonte. Chove desde Novembro quando cheguei de França. E em contraste com o ano passado que tivemos seis meses de seca.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Sexta, 25.
A luta pelo poder acelerou-se no PS. É a mão do oligarca manipulador José Sócrates que, farto de estudar Ciência Política e francês de França, pretende tomar o comando na primeira leva através dos seus peões de brega e depois, publicitada a sua inocência, ele de peito inchado como muitas vezes (demasiadas) o vimos. Eu disse aqui desde antes da sua nomeação, que António Seguro não era a pessoa certa para o lugar, sobretudo depois dos crimes cometidos pelo seu antecessor. Mas o rebanho socialista, o mesmo que meses antes tinha aplaudido o Menino de Ouro, quando nos tribunais se multiplicavam as suspeitas sobre a sua governação, o compadrio expandido por toda a administração pública, as negociatas ruinosas, a desagregação financeira e económica, o desvario de toda a ordem, o mundo socialista a ir diariamente responder em processos nos tribunais, o poder exercido arrogantemente, como se o país fosse o seu couto e ele não devesse explicações a ninguém, enfim, o Estado pelas ruas da amargura. Não gosto de Passos Coelho não tanto por aquilo que ele vem fazendo, mas pela forma como o faz. Mas substitui-lo por um qualquer lacaio socialista a mando do ex, é enterrar a cabeça na areia e seguir por caminhos tão ou mais perigosos, coisa que Portugal não deve fazer. A mim o que mais me irrita nos políticos e particularmente nos socialistas, é venderem gato por lebre. Eu posso não suportar a política liberal e toda deitada para o lado dos mercados e do grande capital de Passos Coelho, mas ao menos ele não me engana, não se faz passar por aquilo que não é. Ao passo que os socialistas, vendem a ideia de solidariedade e humanidade, untam de bênçãos os pobrezinhos, as franjas da sociedade, e depois numa incoerência insuportável, chegados ao poder, instauram uma política muitas vezes mais ousada e contra-natura, à revelia dos seus alicerces sociais. Exemplos não faltam entre nós e noutros países onde a direita, alcançado o poder, aproveitou e lhes deu jeito as desgraças instituídas pelos queridos socialistas. Quanto a Seguro, era claro que ele como Passos Coelho e a sua equipa de resto, não tinha preparação, não estava à altura dos desafios que o momento actual pede. Mas isso é outra conversa que vem na sequência da génese dos partidos entre nós.

- Às oito da manhã apresentava-me na piscina da vila para os meus 500 metros de natação. Coisa que não voltará a acontecer. Nos balneários, deparei com um punhado de velhos barrigudos, deformados fisicamente pelos excessos, lentos nos gestos e no caminhar, alguns pareceram-me até apalermados, que de boinas na cabeça se precipitavam para a água. Que espectáculo tão degradante, meu Deus! Eram todos eugénios, quero dizer fisicamente iguais ao Eugénio, todos portuguesinhos, bonacheirões, um sorrisinho pateta a aflorar no rosto redondo. Perante o que via, ocorreu-me, mentalmente, perguntar: “Mas haverá alguma mulher que goste disto!” Pelos visto há. Porque à excepção do único miúdo suspeito (cala-te boca) que encontrei nos balneários no meio daqueles potes, todos exibiam a aliança de felicidade e ternura que os acarinha no ocaso da vida.

- Dir-me-ão olha para ti. Ao que eu respondo: não há comparação possível. A mon âge estou intacto: seco de carnes, desenvolto, magro, activo, que digo eu, esbelto… Isto apesar da minha perna sim-pa-ti-quí-ssi-ma, do meu caminhar tranquebancas. Não é que as pessoas não possam ser gordas, podem ser tudo o que quiserem. Mas a mim tudo na vida é uma tese de estética e ao largo uma questão de saúde. Eu conheço gordos que não gostaria de os ver emagrecer. A personalidade de cada um, conta. É verdade. Há magros horrorosos. Simplesmente, o que há nos portugueses é um desleixo que eles tomam por algo magnífico e sublime. O “viver a vida” que tanto escuto, é passar horas à mesa a servir-se de chispe, febras, molotov e carrascão. Para eles felicidade é isso. O espírito não conta, o conhecimento muito menos, e se depois de uma “boa almoçarada” vier um jogo de futebol, então temo-los prontos para abraçar com alegria a morte. As mulheres andam pelo mesmo trilho. Sobretudo as das ditas classes baixa ou média. São quadradas, mamalhudas, baixotas e eu pergunto: “haverá homem que goste daquilo?” Há. Porque o casamento é a união que se compadece nos limites justapostos. Eles quando casaram decerto não eram assim. Porque, salvo os casos anormais, todos eram magros. Com o tempo, como um imano, um e outro ajustou-se à imagem que foram construindo e usufruindo. O homem de tão gordo não vê o que antes fazia dele o macho apetecido; a mulher encontrou na sua adiposidade o atractivo sensual que despoletou no outro a aberração que solta os sentidos e recentra a formosura tal como era apreciada no séc. XIV. Mas tudo isso do meu ponto de vista é aceite porque ambos desistiram do seu corpo, criaram no desleixo a supremacia do inevitável. Oh! longo vai o derrame intelectual. Fiquemos por aqui até nova soltura…

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Quinta, 24.
O ministro da Finanças japonês (eles são todos iguais), disse publicamente que os idosos doentes devem “morrer rapidamente” e referindo-se si próprio “eu iria acordar sentindo-me incrivelmente mal por saber que o tratamento era totalmente pago pelo Governo”. A besta tem 72 anos e, portanto, que a cova comece a ser aberta e que o despejem lá para dentro. Se possível hoje mesmo.

- Aquela “coisa” como dizia Saramago chamada Berlusconi, correu com alguns dos seus correligionários por corruptos e suspeitos de associação criminosa. Olha-me este! Ele que é o maior criminoso dentre todos, exerce a moral de cosmética a ver se convence o povo a dar-lhe os votos nas eleições de Fevereiro. Que se associe ao nosso Vale Azevedo. São muito parecidos.

- Sócrates sempre ele pelos mais nobres motivos. Então não é que Luís Figo que sempre negou ter apoiado o engenheiro de domingo nas legislativas de 2009, vem agora instaurar um processo para receber a última tranche de 212 mil euros! Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. Mas atenção, o trafulha anda por aí.

- Ainda os resquícios do muito que sobra do “engenheiro”. Fernando Charrua que foi excluído da DREN por ofensas ao Menino de Ouro, vai agora receber 12 mil euros de indemnização do Estado. A sentença é justa e aponta conotações políticas.

- O movimento que pôs na rua um milhão de portugueses em Setembro do ano passado, convocou de novo os cidadãos para 2 de Março em protesto contra as medidas de austeridade. A ver vamos se os portugueses compreendem o alcance da convocatória.

- Ontem no Corte Inglês, estava uma dessas figuras ditas públicas, a consultar avidamente o Correio da Manhã na página… de sexo. O seu olhar apontava para a letra R.

- Igualmente, ontem, cruzei-me aos pés de D. José, na Praça do Comércio, com dois trintões franceses calvos, que se beijavam sofregamente na… boca. O ministro sonolento que devia assistir àquela desbunda das janelas do seu ministério, devia ter feito descer um lacaio a cobrar o imposto devido. .

- Disse-me o Simão que António Guerreiro foi despedido do Expresso. Não me espanta. Eu há anos que não leio o semanário. Mas conheço o seu trabalho e considero-o um dos melhores e mais sérios críticos da nossa praça das Letras. Poucos como ele são autênticos defensores dos valores da palavra e das ideias a par de um espírito livre. Quem perdeu não foi o ensaísta/jornalista, mas o Expresso. Se calhar para o seu lugar, entrou uma dessas cucurbitáceas que não sabem pensar, mas dão jeito porque se deixam levar na onda do patrão.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Quarta, 23.
Victor Gaspar anda a pregar de contentamento porque vai voltar aos mercados. Isto parece sermão de gente louca. Então o país vai contrair mais dívida e isso é causa de júbilo! No meu entender de atrasado mental, mal comparado, é como aquela família que tendo dívidas, vai pedir empréstimo sobre empréstimo para as liquidar. Dou de barato que o mundo é hoje uma enorme fraude virtual. Todavia, como se tem visto ao longo dos anos, quem paga é sempre o mesmo. E aqui é que a porca torce o rabo.

- Hoje levantei-me pelas oito. Uma vergonha com o muito que tenho para fazer! Enquanto tomava apressado o duche, fartei-me de uivar de raiva lembrando-me dos milhares de pessoas que àquela hora ia a caminho do trabalho e outros tantos já laboravam. Dormi demais o que raramente me acontece. Até porque chegado à cama é tiro e queda.

- Enfim, uma boa notícia. Os súbditos de sua Majestade, que têm ao leme um homem que começou titubeante, David Cameron, acabam de ouvir do seu primeiro-ministro a promessa de haver um referendo caso ganhe as próximas eleições quanto à permanecia na União Europeia. Repudio que seja como uma espécie de chantagem. Ainda assim, sendo eles tão independentes, espero que sejam coerentes e votem pela saída. De qualquer modo, é um gesto mais que legitimo se considerarmos que os políticos não são donos do povo. Entre nós, os nossos detentores, de Cavaco (que horror!) ao Menino de Ouro (que crápula!), todos prometeram ouvir o povo e todos mentiram.

- Ao serão de ontem estive a ver o documentário que o Simão me emprestou e o Tó gravou sobre Francis Bacon. Que mundo! Que abismo de vida! Que rolamento para o precipício! O homem enquanto ser humano é detestável, e só a obra imprime de algum modo o sentimento da sua utilidade. Um e outra formam um conjunto desconexo de pesadelos que caminham a par da sua sexualidade doentia, obsessiva, onde só ele conta para satisfação das suas taras. Todos os companheiros que entraram na sua vida, morrem ou suicidam-se. Uma vez enterrados, logo os substitui, sem aparentemente sentir qualquer remorso ou dor. Fala pouco, contorce-se em esgares de silêncio que deixam quem com ele priva numa situação de impasse. O seu próprio rosto é parecido com a carne espremida das personagens dos seus quadros, libidinoso, todos ou quase, modelos que amou, perdão, que utilizou. A violência parece ser um estado de encantamento, sob a qual a arte verga-se e, que digo eu, estende um braço de compaixão. A cor, sempre viva, é o espectáculo de seu mundo perturbado, onde uma imperceptível religiosidade submerge. O seu habitat é sombrio, anarca, sujo. O mundo que o rodeia é passageiro e nele não entra nenhuma forma de beleza, poesia ou tranquilidade. Não é pessoa que se aconselhe. A sua obra porém, enquanto reflexo do seu carácter e pela força cromática e a complexidade temática, traduz em total identidade o homem que a produz.

- Almocei com o Simão nosso restaurante. Conversa extremamente interessante sobre o essencial da vida. Que pena não termos gravado as duas horas que correram velozes e traduzem a liberdade de espírito que nos une.

- Modo de ser da rasquice lisboeta. Na livraria do Corte do Inglês onde passei por momentos, deparei com três dondocas a falar animadamente sobre o programa de televisão A Casa dos Segredos. Elas faziam a comparação, inclusive, com a versão brasileira que pareciam ser doutoradas. Quando as deixei à excelência da sua erudição e tomei o metro, na carruagem onde entrei, deparei com meia dúzia de negros, eles e elas, falando como se estivessem na cozinha do seu duplex da Reboleira, sobre as personagens que habitam a gaiola das putas televisiva. Esta gentinha, pelos vistos, é feliz a chafurdar na merdelhice televisiva e não vê no país onde vive mais nada que preencha as suas cabeças obtusas.

terça-feira, janeiro 22, 2013

Terça, 22.
As cabines da piscina têm agora cortinas de um rosa kitsch fabuloso: terno, envolvente, que nos transporta ao sonho, de tal modo que o duche saiu da urgência com que habitualmente nele entro para se tornar num tempo encantado, vivido na calmaria do campo, buscando todos os pormenores de uma ensaboadela a preceito. Até o rapagão que aqui trouxe outro dia, parece agora dançar em pontas quando o cortinado cinge o seu corpo imenso e, como num ecrã, surge um macaco feliz cantarolando debaixo do chuveiro.

- O discurso de Barack Obama na segunda investidura é notável. Corajoso, recto, limpo de ideias, fazendo a diferença entre ele e os medíocres líderes europeus. O homem é francamente uma personalidade à moda antiga, quando o mundo podia caminhar descontraído porque sabia que os seus chefes eram pessoas de carácter, de bem, que não estavam no poder para servir esquemas corruptos ou enriquecer, mas orientados para o bem comum, a justiça e a solidariedade.

- Un des résultats désastreux de la bonne éducation est de vous laisser au bord des choses. Esta frase do padre Mugnier confidente da princesa Marthe Bibesco, vem no livro do jornalista Robert de Saint Jean.

- Comprei, enfim, um corta relvas. O anterior levava já vinte e tal anos e não cumpria a sua missão entregando-me a mim todo o esforço que lhe competia a ele. Este tem tracção, move-se com um dedo e a gasolina. Ninguém imagina o jeito que me faz depois de anos de escravatura a empurrar uma máquina que se recusava a laborar e me esfalfava ao ponto de ter que intercalar cinco páginas de leitura com duas fileiras de corte o dia inteiro. De igual modo, pelo Natal, ofereci-me uma tesoura de poda. Já não podia com a velha que recambiava para mim a força que devia ser dela. Isto de ser jardineiro não é pêra doce. Além de viver contido por mor deste espaço, consumo todas as minhas energias por um fragmento de beleza. Se vale a pena? Sim, vale. Poderia viver melhor sem os gastos que isto exige, mas seria muito infeliz a arrastar a existência por centros comerciais, cafés e ruas encharcadas de gentinha, a olhar a paisagem de cimento, a escutar sordidezes e tagarelices de gente vulgar, a partilhar vidas com a concupiscência citadina que se pavoneia feliz no inferno traçado na toponímica engrampada nas suas vidas.

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Segunda, 21.
Enviei pelo correio à Annie uma caixa com meia dúzia de limões e um cartão onde escrevi: Voilà toute la poésie des citrons handicapées. Trata-se de citrinos que nasceram enrugados, deformados, com formas bizarras e um perfume e cor de fazer assombrar os sentidos.

- Estou com 80 miligramas a mais do permitido de colesterol. Todavia, o Tó com quem estive ontem, não desiste de me aconselhar a toma do comprimido dos desbragados. A máquina para a moderna medicina tem de estar lubrificada ao milímetro, à grama, ao sopro. Morrer intacto e perfeito, parece ser o seu paradigma.

- Moins cinq foi o derradeiro livro de Robert de Saint Jean. Oh! De facto, tem a marca de quem se despede, de quem olha de alto a vida febril em baixo, de quem, como certos animais, se esconde para morrer em paz. É, portanto, um verdadeiro testemunho, debruçado sobre o passado, lúcido e coerente, com a razão antecipada de quem parte deixando a conclusão da fatuidade terrena. E tem razão. A verdadeira vida começa com a morte.

- O temporal que varreu o país no fim-de-semana deixou um lastro de estragos que ainda não foram apagados. Milhares de pessoas sem luz, centenas e centenas de árvores arrancadas, casas tombadas, um morto, vários feridos, estradas cortadas, prejuízos imensos na agricultura. Tudo isto numa altura em que o Governo está mais preocupado em cumprir o programa da troika que em acudir aos cidadãos.

sábado, janeiro 19, 2013

Sábado, 19.
Ontem, para ir ao encontro do meu protector, tendo saído do metro no Rato, decidi percorrer a pé toda a Rua de S. Bento (mesmo o troço do lado do rio depois do Parlamento) com o leve sentimento de uma premonição. Esta semana, com efeito, era a segunda vez que voltava ao meu antigo bairro e a rever a toponímia que durante trinta anos enchera de deslumbre os meus olhos. É facto que algumas das lojas fecharam, mas grosso modo reconheci as pequenas leitarias e mercearias com limões a 1.50 e laranjas 1.20 euros, os brocantes, os restaurantes de luxo, o depósito da Marinha Grande onde a empregada Vitória logo me reconheceu, velha desde tenra e idade conservada pela rabugice, hoje com 75 anos plenos de energia, alguns dos meus vizinhos, e defronte da Assembleia as casas de móveis antigos onde fui apetrechando o meu apartamento de S. Marçal, e seguindo o trilho do eléctrico cheguei ao restaurante à hora em ponto. A mim bastou-me meio copo de vinho, ao meu amigo a garrafa inteira. Só que, quando deixámos o restaurante, estando ambos apeados, fomos para a paragem do eléctrico esperar o célebre 28. Coisa de tolos. Porque em frente à Casa do Povo, quando desci, vi montado o circo dos feirantes que andam atrás dos governantes e a barreira da polícia impedindo qualquer veículo de descer do Rato a menos que fosse do Gaspar ou do seu comparsa Coelho. Por isso, insisti várias vezes com o meu companheiro para que subíssemos o Chiado a pé. Ele, niqueles. A sua grande pança (e aqui com total propriedade) aliada aos copitos, dava para perceber que era o revés impeditivo, sobretudo quando a subida é íngreme e longa, com o desgosto de chover e nenhum de nós possuir guarda-chuva. Todavia, o que tem que ser tem muita a força. Como de transporte nada, outro remédio não houve que empreender a marcha. Notei que o meu interlocutor ia afogueado, inclinando o corpo para trás devido ao volume da barriga e a transpirar. Incentivei-o dizendo-lhe que nenhum eléctrico passara entretanto. Quando chegámos ao Largo Camões, ele estava feito num tomate maduro e quase não falava. O meu propósito era ir à fnac levantar o livro de Robert de Saint Jean Moins cinq que tinha encomendado. Ele quis acompanhar-me e foi por isso que o tive por perto até as seis da tarde, altura em que inventei um encontro para poder regressar a casa antes do temporal que nos anunciavam e veio a acontecer e nos despedimos no Terreiro do Paço.

- Temporal que começou logo em pleno Tejo. Que bem se ia dentro do catamã aran Fernando Pessoa! E depois no comboio da CP atravessando essas vilas e lugares (Barreiro A, Baixa da Banheira, Moita, Penteado, Alhos Vedros), semeados na paisagem sem compasso nem esquadro, espécie de silvado arquitectónico, onde pessoas e animais se juntam em casas baixas, decoradas de grafitis, ao lado de prédios feiões, muito altos, verdadeiros horrores construídos para acolher os alentejanos vindos para trabalhar nas fábricas da CUF de Barreiro B. Depois… depois a noite fechou-se. A quinta ficou abandonada ao temporal que reinou até de madrugada semeando temores e apreensões, ventos gritantes, chuva desalmada, portas que bateram até ser dia, uivos, fervores de medo, tudo cerrado num punho de trevas que no meio do nada a natureza vomitou em fúria e revolta. Do rescaldo, felizmente, apenas o tubo da salamandra quebrou e caiu por terra. As árvores, como seres dignos da Providência, ficaram hirtas na paisagem líquida da manhã.

- O Público que é o jornal que eu preferencialmente leio, arranjou uma fórmula que nos evita a leitura das suas 52 páginas. Vem sempre no topo da contra-capa e resume o seu conteúdo através da citação de um qualquer autor escolhido para o efeito. Assim, sexta-feira, esta de Goethe: Ideias genéricas e uma grande presunção estão sempre em via de causar uma terrível desgraça. Não necessito de informar os meus leitores a quem se aplica tão sábia referência do poeta alemão.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Sexta, 18.
Pode não haver dinheiro para nada, pode o povo passar o cabo das tormentas para sobreviver, ser humilhado pela pobreza, descer cultural e humanamente, mas para a guerra num ápice arranja-se dinheiro e homens e de súbito organiza-se a marcha que levará à morte milhares de vidas inocentes ou empurradas para a desgraça. Quer-me parecer que François Hollande não vai sair bem desta guerra.

- Passos Coelho anda eufórico com o regresso aos mercados às costas do sofrimento dos portugueses. Diz que vem aí a felicidade. É tudo mentira. Ele só engana quem se deixa enganar. Tornou-se em ano e meio um tipo nojento, mentiroso, cínico, subserviente. O seu contraponto socialista, também anda exaltado a pedir maioria absoluta. Estes tipos não funcionam bem dos miolos. Vivem numa galáxia de fantasia que não colhe da realidade nada de substancial. Pior é que não temos alternativa e os dois sabem perfeitamente isso. Daí a grande corrupção, o compadrio, o reino partidário a lançar sobre a sociedade os malefícios que a destroem e a fazem recuar para os primórdios do obscurantismo de há décadas passadas.

- O Governo discute a “refundação do Estado”. Mas fá-lo à porta fechada, introduzindo a censura, obrigando os jornalistas a escrever apenas aquilo que ele quer seja público. Como se a República fosse uma monarquia e a nobreza excluísse o povo das cortes reunidas nos Restauradores. Se tivéssemos uma imprensa verdadeiramente independente e honrada, essa imprensa ditaria a Passos Coelho e aos seus pseudo-reformistas o boicote a tudo quanto saísse daquelas mentes alienadas pelo dinheiro, a arrogância e o poder.

- Fui a Lisboa expressamente para almoçar com o meu protector. Ele já se reformou do ministério público, mas não me deixou a mim e, volta que não volta, telefona a saber se estou bem, a agendar um ágape. Como os tribunais foram a sua vida, é a eles que voltamos sempre empurrados pela revolta de quem sabe tudo quanto se passa e não pode ou não tem coragem de desabafar. Acima de tudo é um ser curioso, humanamente limpo, descomplexado e justo – e só por isso me rendo a seus pés de cada vez que ele me chama.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Quarta, 16.
Ontem, pelas oito da manhã, chegava à gare de Campolide. Não é uma estação pensada para deficientes, é um arranjinho financeiro e pedante para dar a Lisboa mais uma infra-estrutura rodoviária. Logo que desembarquei, a minha ideia era procurar um táxi porque tinha urgência em cumprir uma jornada cerrada de afazeres. Para tanto contudo, tinha de passar para o outro lado da chegada, subir uma escadaria construída no exterior, passar por cima da via rápida, descer a fundo os dois ou três lances de escadas e atravessar o terreiro onde me pareceu ter visto um táxi e um aglomerado de escravos à espera de autocarro para os seus empregos. Porque adoro transportes públicos e não gosto de gastos inúteis, perguntei se dali seguia autobus para a Estrela. Diz-me uma negra de largo sorriso àquela hora plantado no rosto bonito que sim. Ela mesma estava ali aguardando para entrar. Fiquei a seu lado com o transporte aí perto parado à espera não sei de quê e quero saber. Responde-me um cavalheiro cinquentão que aquela paragem é mágica porque é dali que chega e parte o número x. Precisamente aquele que eu e uma fila de escravos têm que esperar na rua que o motorista abra a cancela. Uns cinco minutos depois, começam a entrar os primeiros da fila. Sem demora o amarelo fica atulhado dos odores dos serviçais de Gaspar e Coelho e empreende uma viagem por caminhos que eu não conhecia, desviando-se do sítio para onde me levavam os meus planos, no fundo do outro lado do bairro de Campolide ali tão perto. Quando o autocarro deixou a via rápida, meteu por caminhos citadinos cheios de grafitis e porcarias semelhantes. Forma de narrar. Em verdade chegou às portas do desespero. Alguns passageiros foram ficando por aqueles lugares inóspitos, mas o carro ainda seguia bem abastecido da negritude de quem hoje trabalha por dez reis de mel coado. Por fantasiosos percursos, eis-me chegado a Santos. Aí começo a reconhecer a minha cidade, os lugares que sempre foram os meus, e uma ligeireza de espírito restabelece-me dos abalos da partida e à memória como se o passado corresse ao longo do trajecto, desfilam pessoas, momentos, cintilações sensuais, lugares onde me perdi e reencontrei em noites suadas de procuras, medos, travagens respiratórias e uma terrível pancada no estômago de que ainda hoje sofro a dor. No Jardim da Parada lá está o restaurante onde tantas vezes fui jantar com a Teresa, ainda hoje com a fachada coberta da verdura que agatanha e envolve a porta e onde, no despudor que foi o meu, estando com sífilis e ela no último ano de medicina, perguntei, alto e bom som, causando o horror dos comensais, se aprovava que eu me sentasse na cadeira imerecida a um condenado por hábitos dissolutos. Mais adiante, antes do viaduto da Infante Santo, numa viela esconsa, olhei o prédio onde fui feliz por uma noite e na avenida aquele onde viveu Fernando Namora que me recebeu com júbilo incentivando-me a escrever. A minha vida como de resto a vida de tantos seres não acomodados, é como aquele autocarro que tergiversava continuamente entrando agora no bairro da Lapa. Ao meu lado direito, no trânsito caótico, tenho o museu das Janelas Verdes onde vezes sem conta passei manhãs a admirar pintura, escultura, cerâmica e, acima de tudo, Hieronymus Bosch. Ou ainda o jardim com vista sobre o Tejo e os barcos correndo na mansidão das tardes abafadas do estio. Ao fundo, subimos à esquerda por ruas estreitas e de súbito avisto o chalé do ricaço António Champalimaud onde passei três dias fechado com o empresário, o Delreaux e a secretária austera de óculos a meio do nariz sentada ao telex. Esse convívio com um homem duro a quem consegui arrancar uma vez, uma só, um sorriso, e foi extremamente honesto para comigo, sabendo que as minhas ideias não se ajustavam às suas, não esqueço. Como não olvido os serões no pequeno palacete onde o Delraux viveu uma rua abaixo, depois de deixar a York House e o quarto que partilhou com o António Barreto. Dois anos memoráveis ao lado de um homem bom de uma cultura imensa, por mor de quem desejo muito ir conhecer a casa de Pascoes que ele editou. Vamos agora a subir para a Estrela, deixando para trás o Parlamento onde forçado fui muitas vezes e de que não guardo boas memórias não fora os almoços que mais tarde ali tomei com a Alice e o rés-do-chão da Ana, do lado da rua do Quelhas, onde curtíamos longos jantares à sombra de uma amizade que ainda perdura. Num prédio recuado a meio da subida, com fachada sombria, lembro-me dos serões em casa do João Perry que julgo no segundo andar morou. Foram tempos desassossegados, intensos, secretos, eivados do consumo de tudo o que a sociedade regulada, bem pensante e burguesa, censura. Deito um olhar ao prédio cor de fogo onde numa noite de chuva e frio acompanhei a Isabel ao velório do pai. Saramago juntou-se-nos mais tarde pelas onze. Ainda hoje transporto o silêncio gélido dessa noite. Os vivos impressionam-me mais que os mortos. O autocarro para em frente do Jardim dito da Estrela. É aí que desço sem contudo deixar de erguer o pensamento e o olhar sob os pingos de chuva que começou a cair o vasto espaço, com suas ruas alcatroadas, seus misteriosos cafés, suas sombras, onde muitas noites e fins de tarde abriguei as dores da solidão imensa que o meu corpo insaciável e ao abandono pôde pela magia do amor esquecer o sofrimento, olhar o céu estrelado e sentir o êxtase de tocar a alegria imperecível. Este percurso que agora finda, foi um pedaço da minha via-sacra, o derrame da emoção sob o universo trombudo, a nocturna presença de Elêusis, o peso medonho de quem sente que pode sair na próxima e última estação, onde os crisântemos murchos cobrem as lajes das sepulturas…

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Segunda, 14.
Dia perfeito. De manhã estive à conversa com Maria Gordulha que vinha do jardim, seguida de 550 metros de natação com a piscina de novo só para mim. Após o almoço, debaixo do telheiro ao sol, 50 páginas de Mário Domingues sobre D. João IV devoradas com fornicoques. Não perco um livro deste excelente autor que li na adolescência e mais tarde e foi leitura obrigatória de quase todas as famílias, digamos, interessadas pela história de Portugal. O que mais me agrada nele - não sei se já aqui disse -, é o seu lado romanesco de ver os acontecimentos. Porque o escritor vê, toma parte, arrasta-nos para a acção e empolga-nos com a intriga, a condução das batalhas, o diz-que-disse na corte de D. João, os dramas rocambolescos que carregam para o patíbulo nobres e reduzem ao calaboiço eterno eclesiásticos corruptos e traidores. Estamos em 1641 portanto um ano depois da Restauração da Independência ao domínio de Filipe IV, e o excerto que se segue, narra a execução no Rossio dos principais conspiradores da nação livre: marquês de Vila Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar, D. Agostinho Manuel que, por ser bispo, escapou de ser enforcado conjuntamente com os outros conjurados. Conta assim Mário Domingues esse trágico acontecimento: No decurso da manhã, o vasto largo ficara repleto de gente e pairava no ar uma vozearia inquieta de comentários e invectivas contra os traidores, de mistura com algum chiste mais pesado sobre o seu destino funesto. A voz esganiçada das mulheres, a desmentir a lenda do sexo fraco, era a que subia mais alto, perfurando o ar fino e ferindo como aguçadas lâminas a honra dos desgraçados que iam pagar com a vida o abismo em que o despeito e a ambição os precipitara. Não é uma delícia! Há qualquer coisa do Camões de Os Lusíadas. Pag. 213 - 1ª Edição, Livraria Romano Torres.

domingo, janeiro 13, 2013

Domingo, 13.
Como ando um pouco cansado de leituras (leio em média entre 80 a 100 páginas por dia ensaios, romances, história, filosofia, alguma poesia), tombei hoje para uma série de artigos de opinião que fui amontoando. Gosto de ler o Pacheco Pereira na sua fase esquerdista, o incontornável VPV, o Fr. Bento Domingues, por desfastio às vezes o Miguel Esteves Cardoso, a Ana Luísa Amaral, a Teresa de Sousa e passo. No final são duas horitas bem passadas, debaixo do telheiro sentado no restrito espaço que o gato manchado com uma armadura no focinho como aquela que usavam os soldados na Idade Média (ou gata?) me deixou ao sol. A propósito o gato (ou gata?) preto já se atreve a comer na cozinha, mas se me aproximo ala que se faz tarde. São duas sentinelas: um do lado sul, outro do lado norte. Desde que estes dois soldados se apresentaram ao serviço, nunca mais vi ratazanas ou cobras. O preto por vezes parece um bibelô quando se exibe no bordo do tanque ou quando se estende no telhado da lenha. Já temos um diálogo que ele responde sempre. Eu digo: “miau” e ele replica: “miauu”. Que mais? Fui esta manhã ao mercado mensal do Pinhal Novo comprar uma cavadora de dois bicos e verifiquei que as vendas não acusavam a crise. Parece-me até que nunca o vi tão abastado, tão vivo, tão vegetal como hoje apesar da chuva que não parou de cair. Ali não entram modernices. Tudo o que se vê foi o que viram os homens de antanho. Apenas temos que meter umas palas nos olhos quando passamos as áleas das imundices dos ciganos: sapatos, chinelos, roupa travestida, artigos alimentares adagiários, alguidares de plástico e passo. Depois fui pagar à costureira que trabalha naquele horror que se chama Continente que tem à entrada um canto armado em café onde o movimento não era compatível com os ensinamentos do eminente contabilista, perdão economista, senhor Gaspar. De resto, neste reino da coelhada, nada confere com nada. O povoléu não se conforma à pobreza e vai gastando o pouco que tem em merdelhices que lhe dão prazer e felicidade e assim é que está certo. Se todos gostassem de ler, perdíamos aquele excelente comunicador de telejornais que também escreve romances e, sobretudo, pela parte que me toca, não poderia viver sem o seu piscar de olho tão atractivo e sensual e que alinha às mil maravilhas com a cultura vomitada do senhor Jorge Gabriel - ambos defensores da estação que lhes dá o pãozinho. Ora essa!

- Já que não desejo deixar a vila que me acolheu há mais de vinte cinco anos, porque não falar da sua presidente que meteu os papéis para a reforma aos 48 anos! Sim, sim: 48 primaveras! O PCP onde a criatura milita, já se demarcou. Mas como a lei assinada pelo tal engenheiro que se formou ao domingo saiu em 2005 e continua em vigor, a companheira Ana vai poder contar cada ano de trabalho autárquico a dobrar. Digo bem: a dobrar. E a pensãozita andará pelos 1859 euros. Nada mau. Eu fui já assediado algumas vezes para isto e para aquilo, a última da quais ainda há um mês. O sujeito que me falou, teceu grandes elogios à presidente. Eu respondi que não podia confiar numa câmara que utiliza os meus textos sem a referência do autor nem a sua autorização. “Mas sabe, ela representa bem a vila: é bonita, apresenta-se bem…” Perante isto, entupi.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Quinta, 10.
O relatório encomendado por Coelho/Gaspar, perdão, Gaspar/Coelho ao FMI caiu aí como uma bomba e assenta nos princípios habituais, sendo uma chapa sem novidade que atinge os mesmos de sempre. O povo ouve e conforma-se rendido ao que lhe dizem ser inevitável. Mas em paralelo, descodificando os factos e as mentiras, aí estão mil e cem milhões de euros para o BANIF, a rebaldaria no hotel Copacabana do Rio de Janeiro com deputados a festejar à grande e à francesa o fim do ano (pena que os jornais não tenham coragem de descrever o que lá se passou…), uma deputada socialista da secção de Ética do Parlamento, apanhada a conduzir bêbeda … Isto e o mais que um dia se saberá prova que estes fanáticos que nos governam gozam com o pagode e saem imunes com o apoio dos seus congéneres e o laborioso trabalho de uns quantos que tomaram Portugal por laboratório onde ensaiam os crimes a pôr em prática noutros países.

- Não digo com isto que Portugal não tenha de mudar de vida. Lamento é que aqueles que o arrastaram para esta situação continuem imunes, fazendo a vida que acima descrevi, e mais aquela subterrânea que um dia se saberá. Também eu, se bem se lembram, me fartei de bramar contra uma certa clique que ganhava e continua a ganhar fabulosos salários à frente de empresas públicas falidas, deputados com reformas faustosas em três ou quatro legislaturas, chefes de Estado com vidas de reis que acumulam com outros cargos pós Belém, ministérios a abarrotar de clientelismo partidário, a fartazana da criadagem em torno dos ministros, dos conselheiros, as frotas de carros topo de gama, o domicilio pago de alguns magistrados mais as deslocações, os cartões dourados, um certo funcionalismo público a ganhar o que o país não produz, as reformas de muitas cabeças coroadas disto e daquilo, enfim, o fabuloso e abastado país distribuindo benesses e mordomias como se a vida fosse uma fantasia de Natal com o povo a pagar elevados impostos como aconteceu e séculos recuados. Para não falar na corrupção, no compadrio alastrado a todos os sectores, os negócios ruinosos feitos por génios da economia, à revelia da vontade popular, sem a sua procuração, numa promiscuidade entre público e privado de que uns e outros se sustentam, enriquecem e arruínam toda a nação. Empurrado pela banca, pelos políticos, pelo consumo agressivo, os portugueses, sobretudo os das classes mais baixas, acreditaram que podiam viver a consumir porque o futuro estava garantido. Por isso, a adaptação aos novos tempos de contenção está a ser mais difícil e dolorosa. A verdade porém, é que a cabeça fez-se para pensar e os dedos para contar. Resta os novos-ricos pós-25 de Abril. Uma tarja de gente hedionda, que vive do faz-de-conta, que detesta os pobres e não a pobreza, que gasta acima das suas possibilidades não por necessidade, mas para que os outros admirem a sua prosperidade. Alguns, hoje, caíram numa semi-pobreza e vivem revoltados, escondidos de si e dos outros, explorando os honestos que encontram, utilizando toda a artilharia pesada da inveja, do ódio, da infelicidade para esconjurarem aqueles que preferiram o equilíbrio, o trabalho recto, a integridade pessoal. Mas atenção. Escutem o que vos digo. Nas próximas eleições, os políticos dir-vos-ão que não somos pobres nem nunca o fomos, que podemos ter este mundo e outro, que o dinheiro abunda e a pobreza é o maior escândalo. Portanto: corações ao alto! Ainda este ano passaremos da “triste e vil tristeza”, à glória dos dias da abundância, das promessas excitantes, dos devaneios nacionais, do futuro fulgente com os bolsos cheios e a irracional vontade de os esvaziar.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Quarta, 9.
Ontem fui a Lisboa pelo caminho do Tejo. Na estação fluvial do Barreiro encontrei a Idéltina e no Terreiro do Paço, à chegada, a feia-bonita Alzira com quem acabei por tomar café no Chiado. Como tenho cinco sentidos que aspiram tudo o que à minha volta se comenta ou pensa, não pude deixar de escutar o lamento da rapariga da mesa do lado para a amiga: “Palavra de honra, não sinto vontade nenhuma em viver!” (Enquanto anoto estas linhas nas costas de um talão do multibanco sobre a capota de um carro, tenho na minha frente um indiano pasmado a observar-me.)

- Por vezes, para alguns leitores, decerto passo uma imagem de mim que esconde a diversidade do meu carácter e forma de viver. E ainda bem. Porque não sou nem quero ser nunca um ser padronizado, direitinho, ajustado a normas e convenções. Vem isto a propósito de mais tarde, estando nas mediações do Corte Inglês, ter entrado para comprar o jantar. Antes porém, subi dois andares para ver as modas e a fraca agitação que por aí reinava. Foi quando dei de caras com uma camisola de que gostei tanto ou tão pouco que num impulso a comprei. Eu que a semana passada tinha adquirido um gilet para substituir o meu velho pulôver que há quatrocentos anos me protege do frio e prometi dá-lo a um dos gatos, mas que ainda o trago vestido.

- O Diário Económico de hoje traz mais uma pazada de brutalidades encomendadas pelo Governo aos técnicos do FMI. Não sei quanto o país pagou pelo estudo, sei que ele é tirado a papel químico das medidas que Gaspar impôs aos portugueses. Pergunta-se para que serve o parecer dos génios. Já todos percebemos que se permanecermos na UE vamos empobrecer até ao clima que trouxe Salazar às Finanças portuguesas. Isto está entregue à bicharada. Durão que é nulo, nulo, nulo, já está em campanha para a presidência cá do burgo. Se lerem nas entrelinhas o que disse anteontem a uma plateia de iluminados, dar-me-ão razão.

- Fiquei satisfeito com a quarta atribuição da Bola d´Ouro ao Messi. É infinitamente melhor que o pobre rico português digo eu que tenho um Honoris Causa pela universidade do Montijo dirigida pelo expert em língua portuguesa e desporto Paulo Futre.

terça-feira, janeiro 08, 2013

Terça, 8.
O jogo partidário dá corpo ao fait divers e depois sustenta-se dele, numa total indiferença pelos reais problemas do país. Esta tropa fandanga que nos governa vive num mundo situado no sótão dos arranha-céus de onde nos olham como formigas que devem trabalhar até estoirar por dois reis de mel coado. Basta reparar nas diferenças: não conheço nenhum político que não esteja rico, mas conheço alguns que antes do 25 de Abril eram tão pobres ou remediados que a um ou outro emprestei dinheiro. Portanto… é fácil perceber a quem conveio o regime chamado democrático. A questão da constitucionalidade do OE se nos ativermos no julgamento de Cavaco Silva, percebemos que aquilo não passa de uma manobra de um tatebitates. Eu revejo-me mais no desprendimento da esquerda – PCP e BE – que em todos os exercícios oportunistas do PS, dos juristas, dos procuradores e por aí fora. A direita, CDS, PSD, PS, está toda conluiada nas administrações disto e daquilo e feita numa espécie de osmose de cumplicidades e interesses comuns que paralisa Portugal há já trinta e nove anos.

- A semana passada porque procurava algo que me disseram existir no Colombo, para lá me atirei com o sentimento que ia mergulhar num oceano de águas turvas. Detesto aquele covil de promiscuidade e saloiice. Aquilo é o retrato nítido da Lisboa de hoje, com todas as misturas provincianas aterradas na ambição de experimentarem a passarela onde todos se irmanam num mesmo gosto, vestindo o mesmo uniforme, contentes por se sentirem alguém nos corredores sinistros de uma catedral feita em série como em série foram feitos aqueles pobres coitados que ali encontram a felicidade e se sentem alguém.

- Ontem, apesar de a jornada não ter sido nula, pelas dez da noite estava deitado e até às onze e meia li de uma lufada 50 páginas do Diário de Al Berto. A sua escrita diarista cumpre integralmente os cânones do género e percebe-se que não foi trabalhada, sendo antes de tudo um chicote de emoções atiradas ao papel com a raiva e a dor de um ser atormentado pela doença, a solidão e a descrença. Eu conhecia os seus versos, leio-os e releio-os continuamente, mas este trabalho revela-nos o artista de sensibilidade que ele foi, o homem sem norte que se entregou às sombras, aos rumores, ao frio das madrugadas e que acreditava profundamente na escrita indo ao ponto de dizer como eu aqui já inúmeras vezes disse, que escritor não é quem publica, mas quem escreve independentemente da impressão do livro. O trajecto escrito de um escritor nada tem a ver com a publicação de livros. Pode-se ser escritor, e nunca ter publicado um livro. (…) Os mecanismos da escrita são, de certo, mais profundos e misteriosos, para que estejam condicionados à simples (à simples reforço eu) publicação dum livro. E mais adianta, acrescenta: Se retirarmos todo o mistério ao acto de escrever (eu diria sagrado), e o votarmos à simples acumulação de “Trabalho Curricular”, o melhor será dar um tiro na cabeça e no que faremos. Pag. 78, edição Assírio & Alvim.

- Pensa-se que já morreram 60 mil pessoas na guerra da Síria. Todavia, o seu chefe monarca, em discurso ao seu povo fiel e em circuito fechado, declarou a sua continuação com a calma e a normalidade de quem faz o resumo feliz em final de ano. É certo que os empenhos ocidentais e americanos em zonas islâmicas, não resultaram em democracias tal como as que se praticam nos seus continentes. Mas insistir numa guerra que parece não ter fim e conta já um número impressionante de mortes, deve merecer da parte dos países civilizados a diplomacia de retaguarda que ponha em diálogo todas as partes. Facturar milhões em armamento e em paralelo tecer laudas à paz é de um cinismo a todos os títulos reprovável.

domingo, janeiro 06, 2013

Domingo, 6.
Uma noite destas acordei sobressaltado com a Fernanda que me secretariou anos a fio a alertar-me para a conta de telefone de mil euros cujo prazo de pagamento terminava naquele dia. Assustado como em muitos meses de aflições financeiras que tive de gerir, já não consegui pregar olho. O curioso é que ao fim de tantos anos, o meu cérebro não se tenha libertado das angústias por que passei devido às responsabilidades profissionais que tive. Agora que me parecem estes os mais felizes e vibrantes anos de vida, dispensava a recordação desses tempos irregulares e duros em que senti-me fundeado num abismo de permanente e extenuante instabilidade.

- Quando afirmo que hoje vivo abraçado de aleluias, refiro-me a esta vidinha que a pouco e pouco deixou o tormento do pólo sul para atolar-se nas alegrias do pólo norte. Durante um horror de anos, passei dores infindas por causa da minha natureza sensual que interpelava quem ao meu encontro vinha ou quem os meus olhos pasmados despiam oferecendo-me a beleza que me extasiava e condenava ao sofrimento. Ansiava pela paz, pelo adormecimento suave dos sentidos, pela chegada do reino do espírito onde hoje plano sem destino imbuído da graça da serenidade. Não quero dizer que ferrei os olhos e recuso a beleza de um rosto, a elegância de um corpo, a perfume da pele que solta no ar o magnetismo que me condena, um vou ali e já venho no deleite do imprevisto. Não. Oh! não! Mil vezes, não! O que digo é que alcancei o domínio de ser eu a escolher com quem e como quero partilhar um instante de felicidade, sem os constrangimentos que a obsessão, o descontrolo e urgência que antes se sobrepunham à mente e quase sempre ao desejo, como se estivesse na frente da morte enquanto indulto absoluto da vida. Este bem-estar, este bem-me-quer associado a tudo o que tive, vivi, amei, sofri e gozei, deixa-me no limitar de uma espécie de realização física e moral que pelos sentidos me esgotou, me saciou, me adormeceu e me pôs no ponto onde a deflagração de mim recentrou em harmonia o ser que hoje une as extremidades depois do circuito completo da vida. Não falo da vida no sentido lato. Falo de etapas dessa existência que me coube e espero continue a caber por muitos mais e felizes anos. Porque sinto que é agora, enfim, que tudo se me oferece, que tudo me seduz visto pelos olhos desarmados de quem nada deseja e por nada desejar tudo alcança. Posso, enfim, olhar a curva do horizonte, fixar os olhos no azul do sol, nas estrelas cintilantes de um vermelho incandescente, nas árvores pintadas como as zebras que na infância me estarreceram de encanto, sorver o silêncio de todos os ruídos da terra, dizer ao meu corpo que sou eu que lhe ordeno os desejos, aos sentidos que sob as minhas ordens desçam das alturas arrogantes e fixem morada aos meus pés, ir de cabeça levantada pelas avenidas asfaltadas de cores onde vivem chusmas de pássaros do tamanho de formigas, cantando e encantando porque hoje os meus olhos só vêem o que o meu coração livre de todas as amarras quer ver, como se me devolvesse aquilo que o passado turbulento e dissoluto que foi o meu me roubou… Pequenos suspiros, profundos gemidos. Sombras rectilíneas, mistérios descobertos pelo vento. Suplicantes horas de amor com toda a disponibilidade do mundo, o corpo alongado sobre as asas do sono. Quase loucura. Quase nada. A madrugada toda a encher a tarde. Um bulício aqui outro acolá. A ressurreição na ponta do vício estendido na pele translúcida. Nada e tudo, tudo e nada…

sábado, janeiro 05, 2013

Sábado, 5.
A obsessão tecnocrata destes liberais que nos governam virou patética. Reparem. Esta manhã fui comprar os legumes a um casal de velhotes que os criam num pequeno terreno e por conseguinte viraram os meus produtores bios afastando-me há uns dois anos dos super. Para meu espanto, encontrei-os na sua banca modesta de rua, às voltas com uma máquina que emitia facturas e que lhes tinha custado 1.100 euros. Nem um nem outro se entendia com o seu manejo e quando lhes perguntei que gadet era aquele e para que servia, responderam-me que tinha sido imposição do Passos Coelho. “Para uma banca de rua! exclamei revoltado - Sim. Temos medo das multas que o outro (o Gaspar) pode aplicar à gente.” Deu-me vontade de chorar de raiva. Estes convencidos com a sacanagem no sangue atacam os pobres coitados e deixam imunes os larápios encartados e os gangsters da política. É uma espécie de latrocínio onde a arma é o medo e a opressão.

- As redes sociais criaram um neologismo que me é simpático e vou passar a utilizar: “Entroiycado”.

- Este dia luminoso, arrastou-me em diversas direcções. Fui, como disse, ao mercado semanal em Pinhal Novo, de seguida ao encontro do Simão, em Setúbal, para discussão da nossa próxima viagem a Braga e a Amarante onde contamos pernoitar na casa de Teixeira de Pascoais que eu há muito ambiciono conhecer. Depois, passeei no mercado dos brocantes na Luísa Todi hoje inundado de gente e frio, sol e harmonia. Até encontrei um tipo que se propôs curar-me da coxearia. Como recusei, ele abriu o rosto idiota num espanto e perguntou: “Porquê?” Respondi: “porque deste modo sou mais original do que tu.” E prossegui caminho. Uns metros adiante, voltei-me para trás e vi-o ainda imobilizado na sua pose de pacóvio armado em milagroso com o queixal hirto de indignação e assombro. Deixando a cidade sadina, fui ao encontro da Maria José. Ela trabalhava numa série de pequenas esculturas em barro de vários tons – uma graça de singeleza e elegância.

- Esta manhã quando acordei estavam 0 graus.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Quarta, 2 de Janeiro.
Neste início de ano Portugal assemelha-se à casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Mas quando estive em Londres os ingleses diziam Cut your coat according to your cloth. Talvez seja este provérbio o que melhor assenta aos portugueses.

- Diz-se que os 365 dias do ano serão o que forem os primeiros. Pois bem. Se assim for tenho o ano ganho porque este dia comportou tudo quanto desejo seja repetido ao longo dos próximos doze meses. E reza assim: quatro horas de escrita de manhã, seguidas de uma hora de natação. Depois do almoço, hora e meia de leituras e trabalhos no jardim, plantação de uma figueira e transplante para a terra do arbusto do imperador Adriano. Acresce que sem ter motivo algum (ou tendo não digo), sinto que 2013 vai ser um ano excelente e ímpar para mim. Até o sol foi puro e luminoso e andou por aí a distribuir nos campos as pepitas brilhantes da glória celestial.

- Lá fora, os estames das flores crescem como cabelos, e o pólen embriaga quem lavra a noite num lençol de pássaros… Diário de Al Berto. Só um poeta da sua dimensão nos sacode com esta impressionante e bela imagem.