quarta-feira, janeiro 30, 2013

Quarta, 30.
Pobres socialistas! Depois de terem andado ao murro e à peixeirada à boa maneira de Sócrates, vêm agora falar de unidade em torno de António Seguro. O actual secretário-geral surpreendeu-me agradavelmente com a estratégia de confronto com a clique socrática que depois do chefão ter voltado ao país não pára de conspirar. Passos Coelho nunca esteve tão seguro no poder. Não é com tipos destes que Portugal algum dia poderá vencer do analfabetismo, do obscurantismo, da pobreza franciscana. Vivem obcecados pelo poder, pela intriga, pelos jobs for the boys, pelo dinheiro e não se dão conta da miséria humana que reside em cada um deles. Por agora as baronesas socráticas arrepiaram caminho. Até quando?

- Dias luminosos e felizes os derradeiros. O sol de inverno regressou à terra e a natureza acolheu-o de braços preguiçosos erguidos ao Criador. Longas horas ao sol debaixo do alpendre em leituras ou curvado no jardim. As árvores estendem já os ramos florescentes, os coelhos deixaram as tocas, os sardões trepam às janelas e este mundo que parecia morto, ressuscita com mais flor, mais seiva, mais beleza. A própria poesia risca no ar um salmo cuja melodia sei de cor. As chaminés fungam um perfume que a atmosfera absorve e deixa em aromas contínuos por todo o lado. O chão da terra cobriu-se de um tapete verde de uma intensidade brilhante. Os sons distantes foram-se a pouco e pouco aproximando e todos os elementos antes dispersos encontram em harmonia o seu lugar. Que a morte fosse isto, este ressurgimento, esta alegria breve, este encontro com o mistério que só tem paralelo com a nascença.

- Pronto. Desta vez vou levar até ao fim o monumental hino à memória dos sentimentos finitos que é A la recherche du temps perdu. Comecei pelo primeiro volume Du côte de chez Swann, impresso pela Gallimard em 1975, que foi por onde eu espreitei Proust pela primeira vez. Conheço a obra espaçadamente, lendo este e aquele livro, mas agora quero saboreá-la de uma ponta à outra. E espero entrar em transe como aconteceu com Cervantes e o seu D. Quixote quando o li de fio a pavio.

- Outro dia estive a ler a resposta que D. João IV deu aos temerosos inquisidores do Santo Ofício que se queixaram do padre António Vieira por tudo ter feito para defender os cristãos-novos e integrá-los na sociedade portuguesa. O jesuíta conseguiu, inclusive, do Vaticano a suspensão por cinco anos do sinistro tribunal. Facto, entre muitos, que o Santo Ofício não lhe perdoou, acabando por queixar-se ao soberano do rancor que a Companhia de Jesus lhe tinha. D. João IV, temendo a influência dos inquisidores, nas tintas para o muito que António Vieira fizera por ele e por Portugal, tendo sido inclusivamente orientador espiritual de D. Teodósio e defensor muitas vezes à parvoíce do monarca, este, apesar de tanto, não hesitou em humilhá-lo apoiando deste modo a Inquisição: “(…) e saberei que me descontento mesmo de ver que no tempo do meu império se acrescentem contraditores ao Santo Ofício, ao qual, como à mais importante coluna da fé nestes meus reinos, hei-de sempre amparar e defender, sem que me atalhe nenhuma afeição nem respeito humano. (percebe-se a facada…) E particularmente vos digo, hei-de consentir que pessoa alguma alcance a isenção daquele tribunal, nas matérias que lhe tocam, como me dizem se pretende, posto que não o acabo de crer.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Terça, 29.
Aconteceu há dias um triste acidente com uma camioneta espanhola que transportava clientes numa excursão ao Norte e do qual resultaram vários mortos. Uma parte dos feridos fora encaminhada para o hospital de Coimbra, outra parte para o de Portalegre. Esfomeados de sangue, aquelas meninas e meninos formados na Casa dos Segredos ditos repórteres, apressam-se junto das vítimas e perguntar o que sentem, se dói muito, o que recorda do desastre. Eu gostava de ver o que respondiam quando a entrevistada lhe dissesse “olhe, estou óptima, foi excitante, estou muito feliz”. De igual modo, as ditas jornalistas, inquirem junto do médico de serviço sobre o estado dos acidentados. Este, antes de responder ao que se lhe pedia, começa por tecer laudas aos serviços do seu hospital, informando que todos foram bestiais e que o socorro foi o melhor de toda a Europa. Desloca-se a câmara para o hospital de Portalegre e logo escutamos antes de mais do colega de serviço a mesma lengalenga. O que me ocorre saber é: se os clínicos cantam o fado de convencimento à desgarrada ou se querem enviar recados ao ministro da respectiva pasta. Seja como for, aproveitarem-se dos doentes e das aflições dos familiares, perece-me uma conduta a todos os títulos reprovável. Mas é evidente que o jornalismo que se pratica hoje é abaixo da trampice, é canalha e de terceiro mundo.

- Que se passa com as famílias portuguesas antes pilar de todas as virtudes. Numa semana um pai mata a tiro a mulher e a filha, ontem dois rapazes de 12 e 13 anos apareceram mortos num carro abandonado ao que tudo indica envenenados. A mãe assassina foi encontrada morta a uns metros dali. O mais fácil de concluir e agrada a esquerda, é que se trata dos resultados da austeridade que leva à miséria. A mim parece-me que o problema é bem mais profundo e vasto e entronca num leque de situações que têm pouco a ver com a pobreza.

- Quando da invasão das tropas holandesas à ilha do Ceilão, os portugueses bateram-se como se sabe heroicamente. Apesar de o molengão D. João IV governar para sua glória e ter, inclusive, a dada altura  querido entregar Portugal a Espanha por via do casamento do filho D. Teodósio com a infanta de Castela, filha de Filipe IV, e não obstante o desinteresse que manifestou pela defesa da Índia, entregando-a a um punhado de fidalgos que só lá estavam para se governar e causaram sofrimento e mortes desnecessárias a milhares de índios, pretos e nativos, não obstante tanto sofrimento, dizia, os portugueses lutaram  galhardamente. Diz o conde da Ericeira, citado por Pinheiro Chagas, que na defesa de Colombo, o padre Damião Vieira era “um dos mais estrénuos defensores da cidade, quando não matava holandeses, convertia-os. E acrescenta: Essa ocupação evangélica era o seu entretenimento das horas vagas.”

- Estive a dispor uma fila de alhos seguindo os ensinamentos de Rosa Guilherme no Público de sábado. Depois de cavar e estrumar a terra, enterrei duas dúzias de dentes e depois deitei por cima as cinzas da lareira do serão de ontem. Agora, aliviado do esforço, resta-me esperar pelos resultados se, bem entendido, os coelhos não apreciarem o cheiro a alho…

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Segunda, 28.
No Brasil do sul, pelos menos 250 jovens foram mortos numa discoteca. Um horror para aqueles infelizes. Tudo começou quando o grupo que actuava no palco, utilizando labaredas de fogo na sua performance, ateou fogo ao tecto construído com substâncias inflamáveis. A maioria morreu sufocada pelo fumo.

- A moda agora, sobretudo na família futebolística que como sabemos é da mais culta, é falar-se a propósito de tudo e de nada, em “alma”. A alma disto e daquilo, o tipo tal que a possui aos quilos, este que a tem generosa e assim. Mesmo alguns políticos que estão em cultura ao mesmo nível dos jogadores, também vêm convencer-nos que põem alma nos sentimentos com que nos protegem, nos falam, connosco se solidarizam e alguns não tenho dúvida até põem alma quando nos roubam. Depois da palavra “humildade”, esta fecha a nomenclatura do homem parlapatão que se diz moderno entre nós. Pascal para quem “é o coração que sente Deus, e não a razão”, se escutasse estes piedosos seres, abriria um sorriso de piedade pela patetice portuguesa.

- Sócrates que detesta o rigor e o estudo, aligeirou não só a forma de roubar como a língua portuguesa. Vejam no que deu. Na televisão o jargão é mais ou menos assim: “Decorridos que sejam… Há sete anos atrás… Vou colocar-lhe uma questão… Os automobilistas aderentes…” e tantas outras bacoradas que o ex-primeiro-ministro e engenheiro formado ao domingo houve por bem instaurar.

- Ontem fui atacado pela saudade de George Harrison. Tenho o seu derradeiro trabalho, All Things Must Pass, um triplo álbum, que comprei em Paris quando saiu era eu adolescente. Trata-se, portanto, de uma primeira edição para fazer a comparação com os livros. São três discos soberbos, inspirados, profundos, varridos pelo leve sentimento da despedida. Gosto de todas as músicas, mas sobretudo da que dá título ao trabalho. Contudo, o último LP, todo ele instrumental, transporta-me, leva-me por imensidões de sons e deixa-me plantado num deserto de sensações, beleza e mistério que finalmente caracteriza o álbum todo.

domingo, janeiro 27, 2013

Domingo, 27.
António Costa numa atitude muito pouco ética – o que eu lamento pois conheço aquela família que é gente impecável -, ainda nem secretário-geral do Partido Socialista é, e já numa directa ao ex dos Açores acena com emprego que muitos diriam tacho. Além de que acho a entrada do senhor Sócrates na liça extemporânea, maligna a fazer soltar a Passos Coelho gargalhadas de contentamento, numa semana que ele, Coelho, publicita a todos os títulos gloriosa. Por outro lado, entendo que, enfim, Seguro esteve à altura da investida atacando sem demora. (Anoto isto ao correr do dia, porque nada destas sacanices daqui a um mês tem importância e, se um dia este diário for publicado, desaparecerá como coisa inútil e sem história como, de resto, centenas de outras entradas.)

- Robert mandou-me entusiasmado por e-mail um texto de Romain Rolland sobre a Nona Sinfonia de Beethoven que eu já conhecia do livro Vie de Beethoven escrito em 1903. Foi, aliás, em Vaseley, em casa de Jules Roy, que vimos juntos uma exposição patente na altura na cave, do autor de Jean-Christophe. Transcrevo algumas linhas da sobre a obra sinfónica que se apoia aliás no poema de Schiller Hino à Alegria: La Joie descend du ciel, enveloppée d´un calme surnaturel: de son soufflé lèger elle se glisse dans le cœur convalescent, qu´ainsi que cet ami de Beethoven, “on a envie de pleurer, en voyant ses doux yeus”. Lorque le thème passe ensuite dans les voix, c´est à la basse qu´il se prèsente d´abord, avec un caractère sérieux et un peut oppressé. Mais peu à peu la Joie s´empare de l´être. C´est une conquête, une guerre contre la douleur. Et voici les rythmes de marche, les armées en mouvement, le chant ardent et haletant du ténor, toutes ces pages frémissantes, où l´on croit entendre le souffle de Beethoven lui-même, le rythme de sa respiration et de ses cris inspirés, tandis qu´il parcourait les champs, en composant son œuvre, tranporté d´une fureur démoniaque, comme un vieux roi Lear au millieu de l´orage. A la joie guerrière succède l´extase religieuse ; puis une orgie sacrée, un délire d´amour. Toute une humanité frémissante tend les bras au ciel, pousse des clameurs puissantes, s´élance vers la Joie, et l´étreint sur son cœur. E já agora se me permitem : esqueçam a interpretação e direcção de Karajan. Ouçam a de Kurt Masur com a Gewandhausorchester de Leipzig e verão que planam lá no alto entre querubins e estrelas e o Compositor estará convosco nos firmamentos sonoros eternos.

- Como é que é possível pensar que uma economia que não cresceu nada com a moeda única e que se endividou brutalmente consiga agora, não sei por que milagre, começar a crescer? – pergunta João Ferreira do Amaral. Mais um que é dos meus. Tratando-se de alguém com experiência – ele trabalhou com o FMI em 1984 e 1987 quando a Instituição veio em nosso auxílio – não tenho dúvida que estou bem acompanhado. Ele tal como eu, advoga a saída da União Europeia sob o controlo e apoio da organização e não unilateralmente como eu também aqui tenho dito.

- Chove. Um tule de água finíssimo fecha o horizonte. Chove desde Novembro quando cheguei de França. E em contraste com o ano passado que tivemos seis meses de seca.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Sexta, 25.
A luta pelo poder acelerou-se no PS. É a mão do oligarca manipulador José Sócrates que, farto de estudar Ciência Política e francês de França, pretende tomar o comando na primeira leva através dos seus peões de brega e depois, publicitada a sua inocência, ele de peito inchado como muitas vezes (demasiadas) o vimos. Eu disse aqui desde antes da sua nomeação, que António Seguro não era a pessoa certa para o lugar, sobretudo depois dos crimes cometidos pelo seu antecessor. Mas o rebanho socialista, o mesmo que meses antes tinha aplaudido o Menino de Ouro, quando nos tribunais se multiplicavam as suspeitas sobre a sua governação, o compadrio expandido por toda a administração pública, as negociatas ruinosas, a desagregação financeira e económica, o desvario de toda a ordem, o mundo socialista a ir diariamente responder em processos nos tribunais, o poder exercido arrogantemente, como se o país fosse o seu couto e ele não devesse explicações a ninguém, enfim, o Estado pelas ruas da amargura. Não gosto de Passos Coelho não tanto por aquilo que ele vem fazendo, mas pela forma como o faz. Mas substitui-lo por um qualquer lacaio socialista a mando do ex, é enterrar a cabeça na areia e seguir por caminhos tão ou mais perigosos, coisa que Portugal não deve fazer. A mim o que mais me irrita nos políticos e particularmente nos socialistas, é venderem gato por lebre. Eu posso não suportar a política liberal e toda deitada para o lado dos mercados e do grande capital de Passos Coelho, mas ao menos ele não me engana, não se faz passar por aquilo que não é. Ao passo que os socialistas, vendem a ideia de solidariedade e humanidade, untam de bênçãos os pobrezinhos, as franjas da sociedade, e depois numa incoerência insuportável, chegados ao poder, instauram uma política muitas vezes mais ousada e contra-natura, à revelia dos seus alicerces sociais. Exemplos não faltam entre nós e noutros países onde a direita, alcançado o poder, aproveitou e lhes deu jeito as desgraças instituídas pelos queridos socialistas. Quanto a Seguro, era claro que ele como Passos Coelho e a sua equipa de resto, não tinha preparação, não estava à altura dos desafios que o momento actual pede. Mas isso é outra conversa que vem na sequência da génese dos partidos entre nós.

- Às oito da manhã apresentava-me na piscina da vila para os meus 500 metros de natação. Coisa que não voltará a acontecer. Nos balneários, deparei com um punhado de velhos barrigudos, deformados fisicamente pelos excessos, lentos nos gestos e no caminhar, alguns pareceram-me até apalermados, que de boinas na cabeça se precipitavam para a água. Que espectáculo tão degradante, meu Deus! Eram todos eugénios, quero dizer fisicamente iguais ao Eugénio, todos portuguesinhos, bonacheirões, um sorrisinho pateta a aflorar no rosto redondo. Perante o que via, ocorreu-me, mentalmente, perguntar: “Mas haverá alguma mulher que goste disto!” Pelos visto há. Porque à excepção do único miúdo suspeito (cala-te boca) que encontrei nos balneários no meio daqueles potes, todos exibiam a aliança de felicidade e ternura que os acarinha no ocaso da vida.

- Dir-me-ão olha para ti. Ao que eu respondo: não há comparação possível. A mon âge estou intacto: seco de carnes, desenvolto, magro, activo, que digo eu, esbelto… Isto apesar da minha perna sim-pa-ti-quí-ssi-ma, do meu caminhar tranquebancas. Não é que as pessoas não possam ser gordas, podem ser tudo o que quiserem. Mas a mim tudo na vida é uma tese de estética e ao largo uma questão de saúde. Eu conheço gordos que não gostaria de os ver emagrecer. A personalidade de cada um, conta. É verdade. Há magros horrorosos. Simplesmente, o que há nos portugueses é um desleixo que eles tomam por algo magnífico e sublime. O “viver a vida” que tanto escuto, é passar horas à mesa a servir-se de chispe, febras, molotov e carrascão. Para eles felicidade é isso. O espírito não conta, o conhecimento muito menos, e se depois de uma “boa almoçarada” vier um jogo de futebol, então temo-los prontos para abraçar com alegria a morte. As mulheres andam pelo mesmo trilho. Sobretudo as das ditas classes baixa ou média. São quadradas, mamalhudas, baixotas e eu pergunto: “haverá homem que goste daquilo?” Há. Porque o casamento é a união que se compadece nos limites justapostos. Eles quando casaram decerto não eram assim. Porque, salvo os casos anormais, todos eram magros. Com o tempo, como um imano, um e outro ajustou-se à imagem que foram construindo e usufruindo. O homem de tão gordo não vê o que antes fazia dele o macho apetecido; a mulher encontrou na sua adiposidade o atractivo sensual que despoletou no outro a aberração que solta os sentidos e recentra a formosura tal como era apreciada no séc. XIV. Mas tudo isso do meu ponto de vista é aceite porque ambos desistiram do seu corpo, criaram no desleixo a supremacia do inevitável. Oh! longo vai o derrame intelectual. Fiquemos por aqui até nova soltura…

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Quinta, 24.
O ministro da Finanças japonês (eles são todos iguais), disse publicamente que os idosos doentes devem “morrer rapidamente” e referindo-se si próprio “eu iria acordar sentindo-me incrivelmente mal por saber que o tratamento era totalmente pago pelo Governo”. A besta tem 72 anos e, portanto, que a cova comece a ser aberta e que o despejem lá para dentro. Se possível hoje mesmo.

- Aquela “coisa” como dizia Saramago chamada Berlusconi, correu com alguns dos seus correligionários por corruptos e suspeitos de associação criminosa. Olha-me este! Ele que é o maior criminoso dentre todos, exerce a moral de cosmética a ver se convence o povo a dar-lhe os votos nas eleições de Fevereiro. Que se associe ao nosso Vale Azevedo. São muito parecidos.

- Sócrates sempre ele pelos mais nobres motivos. Então não é que Luís Figo que sempre negou ter apoiado o engenheiro de domingo nas legislativas de 2009, vem agora instaurar um processo para receber a última tranche de 212 mil euros! Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. Mas atenção, o trafulha anda por aí.

- Ainda os resquícios do muito que sobra do “engenheiro”. Fernando Charrua que foi excluído da DREN por ofensas ao Menino de Ouro, vai agora receber 12 mil euros de indemnização do Estado. A sentença é justa e aponta conotações políticas.

- O movimento que pôs na rua um milhão de portugueses em Setembro do ano passado, convocou de novo os cidadãos para 2 de Março em protesto contra as medidas de austeridade. A ver vamos se os portugueses compreendem o alcance da convocatória.

- Ontem no Corte Inglês, estava uma dessas figuras ditas públicas, a consultar avidamente o Correio da Manhã na página… de sexo. O seu olhar apontava para a letra R.

- Igualmente, ontem, cruzei-me aos pés de D. José, na Praça do Comércio, com dois trintões franceses calvos, que se beijavam sofregamente na… boca. O ministro sonolento que devia assistir àquela desbunda das janelas do seu ministério, devia ter feito descer um lacaio a cobrar o imposto devido. .

- Disse-me o Simão que António Guerreiro foi despedido do Expresso. Não me espanta. Eu há anos que não leio o semanário. Mas conheço o seu trabalho e considero-o um dos melhores e mais sérios críticos da nossa praça das Letras. Poucos como ele são autênticos defensores dos valores da palavra e das ideias a par de um espírito livre. Quem perdeu não foi o ensaísta/jornalista, mas o Expresso. Se calhar para o seu lugar, entrou uma dessas cucurbitáceas que não sabem pensar, mas dão jeito porque se deixam levar na onda do patrão.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Quarta, 23.
Victor Gaspar anda a pregar de contentamento porque vai voltar aos mercados. Isto parece sermão de gente louca. Então o país vai contrair mais dívida e isso é causa de júbilo! No meu entender de atrasado mental, mal comparado, é como aquela família que tendo dívidas, vai pedir empréstimo sobre empréstimo para as liquidar. Dou de barato que o mundo é hoje uma enorme fraude virtual. Todavia, como se tem visto ao longo dos anos, quem paga é sempre o mesmo. E aqui é que a porca torce o rabo.

- Hoje levantei-me pelas oito. Uma vergonha com o muito que tenho para fazer! Enquanto tomava apressado o duche, fartei-me de uivar de raiva lembrando-me dos milhares de pessoas que àquela hora ia a caminho do trabalho e outros tantos já laboravam. Dormi demais o que raramente me acontece. Até porque chegado à cama é tiro e queda.

- Enfim, uma boa notícia. Os súbditos de sua Majestade, que têm ao leme um homem que começou titubeante, David Cameron, acabam de ouvir do seu primeiro-ministro a promessa de haver um referendo caso ganhe as próximas eleições quanto à permanecia na União Europeia. Repudio que seja como uma espécie de chantagem. Ainda assim, sendo eles tão independentes, espero que sejam coerentes e votem pela saída. De qualquer modo, é um gesto mais que legitimo se considerarmos que os políticos não são donos do povo. Entre nós, os nossos detentores, de Cavaco (que horror!) ao Menino de Ouro (que crápula!), todos prometeram ouvir o povo e todos mentiram.

- Ao serão de ontem estive a ver o documentário que o Simão me emprestou e o Tó gravou sobre Francis Bacon. Que mundo! Que abismo de vida! Que rolamento para o precipício! O homem enquanto ser humano é detestável, e só a obra imprime de algum modo o sentimento da sua utilidade. Um e outra formam um conjunto desconexo de pesadelos que caminham a par da sua sexualidade doentia, obsessiva, onde só ele conta para satisfação das suas taras. Todos os companheiros que entraram na sua vida, morrem ou suicidam-se. Uma vez enterrados, logo os substitui, sem aparentemente sentir qualquer remorso ou dor. Fala pouco, contorce-se em esgares de silêncio que deixam quem com ele priva numa situação de impasse. O seu próprio rosto é parecido com a carne espremida das personagens dos seus quadros, libidinoso, todos ou quase, modelos que amou, perdão, que utilizou. A violência parece ser um estado de encantamento, sob a qual a arte verga-se e, que digo eu, estende um braço de compaixão. A cor, sempre viva, é o espectáculo de seu mundo perturbado, onde uma imperceptível religiosidade submerge. O seu habitat é sombrio, anarca, sujo. O mundo que o rodeia é passageiro e nele não entra nenhuma forma de beleza, poesia ou tranquilidade. Não é pessoa que se aconselhe. A sua obra porém, enquanto reflexo do seu carácter e pela força cromática e a complexidade temática, traduz em total identidade o homem que a produz.

- Almocei com o Simão nosso restaurante. Conversa extremamente interessante sobre o essencial da vida. Que pena não termos gravado as duas horas que correram velozes e traduzem a liberdade de espírito que nos une.

- Modo de ser da rasquice lisboeta. Na livraria do Corte do Inglês onde passei por momentos, deparei com três dondocas a falar animadamente sobre o programa de televisão A Casa dos Segredos. Elas faziam a comparação, inclusive, com a versão brasileira que pareciam ser doutoradas. Quando as deixei à excelência da sua erudição e tomei o metro, na carruagem onde entrei, deparei com meia dúzia de negros, eles e elas, falando como se estivessem na cozinha do seu duplex da Reboleira, sobre as personagens que habitam a gaiola das putas televisiva. Esta gentinha, pelos vistos, é feliz a chafurdar na merdelhice televisiva e não vê no país onde vive mais nada que preencha as suas cabeças obtusas.

terça-feira, janeiro 22, 2013

Terça, 22.
As cabines da piscina têm agora cortinas de um rosa kitsch fabuloso: terno, envolvente, que nos transporta ao sonho, de tal modo que o duche saiu da urgência com que habitualmente nele entro para se tornar num tempo encantado, vivido na calmaria do campo, buscando todos os pormenores de uma ensaboadela a preceito. Até o rapagão que aqui trouxe outro dia, parece agora dançar em pontas quando o cortinado cinge o seu corpo imenso e, como num ecrã, surge um macaco feliz cantarolando debaixo do chuveiro.

- O discurso de Barack Obama na segunda investidura é notável. Corajoso, recto, limpo de ideias, fazendo a diferença entre ele e os medíocres líderes europeus. O homem é francamente uma personalidade à moda antiga, quando o mundo podia caminhar descontraído porque sabia que os seus chefes eram pessoas de carácter, de bem, que não estavam no poder para servir esquemas corruptos ou enriquecer, mas orientados para o bem comum, a justiça e a solidariedade.

- Un des résultats désastreux de la bonne éducation est de vous laisser au bord des choses. Esta frase do padre Mugnier confidente da princesa Marthe Bibesco, vem no livro do jornalista Robert de Saint Jean.

- Comprei, enfim, um corta relvas. O anterior levava já vinte e tal anos e não cumpria a sua missão entregando-me a mim todo o esforço que lhe competia a ele. Este tem tracção, move-se com um dedo e a gasolina. Ninguém imagina o jeito que me faz depois de anos de escravatura a empurrar uma máquina que se recusava a laborar e me esfalfava ao ponto de ter que intercalar cinco páginas de leitura com duas fileiras de corte o dia inteiro. De igual modo, pelo Natal, ofereci-me uma tesoura de poda. Já não podia com a velha que recambiava para mim a força que devia ser dela. Isto de ser jardineiro não é pêra doce. Além de viver contido por mor deste espaço, consumo todas as minhas energias por um fragmento de beleza. Se vale a pena? Sim, vale. Poderia viver melhor sem os gastos que isto exige, mas seria muito infeliz a arrastar a existência por centros comerciais, cafés e ruas encharcadas de gentinha, a olhar a paisagem de cimento, a escutar sordidezes e tagarelices de gente vulgar, a partilhar vidas com a concupiscência citadina que se pavoneia feliz no inferno traçado na toponímica engrampada nas suas vidas.

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Segunda, 21.
Enviei pelo correio à Annie uma caixa com meia dúzia de limões e um cartão onde escrevi: Voilà toute la poésie des citrons handicapées. Trata-se de citrinos que nasceram enrugados, deformados, com formas bizarras e um perfume e cor de fazer assombrar os sentidos.

- Estou com 80 miligramas a mais do permitido de colesterol. Todavia, o Tó com quem estive ontem, não desiste de me aconselhar a toma do comprimido dos desbragados. A máquina para a moderna medicina tem de estar lubrificada ao milímetro, à grama, ao sopro. Morrer intacto e perfeito, parece ser o seu paradigma.

- Moins cinq foi o derradeiro livro de Robert de Saint Jean. Oh! De facto, tem a marca de quem se despede, de quem olha de alto a vida febril em baixo, de quem, como certos animais, se esconde para morrer em paz. É, portanto, um verdadeiro testemunho, debruçado sobre o passado, lúcido e coerente, com a razão antecipada de quem parte deixando a conclusão da fatuidade terrena. E tem razão. A verdadeira vida começa com a morte.

- O temporal que varreu o país no fim-de-semana deixou um lastro de estragos que ainda não foram apagados. Milhares de pessoas sem luz, centenas e centenas de árvores arrancadas, casas tombadas, um morto, vários feridos, estradas cortadas, prejuízos imensos na agricultura. Tudo isto numa altura em que o Governo está mais preocupado em cumprir o programa da troika que em acudir aos cidadãos.

sábado, janeiro 19, 2013

Sábado, 19.
Ontem, para ir ao encontro do meu protector, tendo saído do metro no Rato, decidi percorrer a pé toda a Rua de S. Bento (mesmo o troço do lado do rio depois do Parlamento) com o leve sentimento de uma premonição. Esta semana, com efeito, era a segunda vez que voltava ao meu antigo bairro e a rever a toponímia que durante trinta anos enchera de deslumbre os meus olhos. É facto que algumas das lojas fecharam, mas grosso modo reconheci as pequenas leitarias e mercearias com limões a 1.50 e laranjas 1.20 euros, os brocantes, os restaurantes de luxo, o depósito da Marinha Grande onde a empregada Vitória logo me reconheceu, velha desde tenra e idade conservada pela rabugice, hoje com 75 anos plenos de energia, alguns dos meus vizinhos, e defronte da Assembleia as casas de móveis antigos onde fui apetrechando o meu apartamento de S. Marçal, e seguindo o trilho do eléctrico cheguei ao restaurante à hora em ponto. A mim bastou-me meio copo de vinho, ao meu amigo a garrafa inteira. Só que, quando deixámos o restaurante, estando ambos apeados, fomos para a paragem do eléctrico esperar o célebre 28. Coisa de tolos. Porque em frente à Casa do Povo, quando desci, vi montado o circo dos feirantes que andam atrás dos governantes e a barreira da polícia impedindo qualquer veículo de descer do Rato a menos que fosse do Gaspar ou do seu comparsa Coelho. Por isso, insisti várias vezes com o meu companheiro para que subíssemos o Chiado a pé. Ele, niqueles. A sua grande pança (e aqui com total propriedade) aliada aos copitos, dava para perceber que era o revés impeditivo, sobretudo quando a subida é íngreme e longa, com o desgosto de chover e nenhum de nós possuir guarda-chuva. Todavia, o que tem que ser tem muita a força. Como de transporte nada, outro remédio não houve que empreender a marcha. Notei que o meu interlocutor ia afogueado, inclinando o corpo para trás devido ao volume da barriga e a transpirar. Incentivei-o dizendo-lhe que nenhum eléctrico passara entretanto. Quando chegámos ao Largo Camões, ele estava feito num tomate maduro e quase não falava. O meu propósito era ir à fnac levantar o livro de Robert de Saint Jean Moins cinq que tinha encomendado. Ele quis acompanhar-me e foi por isso que o tive por perto até as seis da tarde, altura em que inventei um encontro para poder regressar a casa antes do temporal que nos anunciavam e veio a acontecer e nos despedimos no Terreiro do Paço.

- Temporal que começou logo em pleno Tejo. Que bem se ia dentro do catamã aran Fernando Pessoa! E depois no comboio da CP atravessando essas vilas e lugares (Barreiro A, Baixa da Banheira, Moita, Penteado, Alhos Vedros), semeados na paisagem sem compasso nem esquadro, espécie de silvado arquitectónico, onde pessoas e animais se juntam em casas baixas, decoradas de grafitis, ao lado de prédios feiões, muito altos, verdadeiros horrores construídos para acolher os alentejanos vindos para trabalhar nas fábricas da CUF de Barreiro B. Depois… depois a noite fechou-se. A quinta ficou abandonada ao temporal que reinou até de madrugada semeando temores e apreensões, ventos gritantes, chuva desalmada, portas que bateram até ser dia, uivos, fervores de medo, tudo cerrado num punho de trevas que no meio do nada a natureza vomitou em fúria e revolta. Do rescaldo, felizmente, apenas o tubo da salamandra quebrou e caiu por terra. As árvores, como seres dignos da Providência, ficaram hirtas na paisagem líquida da manhã.

- O Público que é o jornal que eu preferencialmente leio, arranjou uma fórmula que nos evita a leitura das suas 52 páginas. Vem sempre no topo da contra-capa e resume o seu conteúdo através da citação de um qualquer autor escolhido para o efeito. Assim, sexta-feira, esta de Goethe: Ideias genéricas e uma grande presunção estão sempre em via de causar uma terrível desgraça. Não necessito de informar os meus leitores a quem se aplica tão sábia referência do poeta alemão.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Sexta, 18.
Pode não haver dinheiro para nada, pode o povo passar o cabo das tormentas para sobreviver, ser humilhado pela pobreza, descer cultural e humanamente, mas para a guerra num ápice arranja-se dinheiro e homens e de súbito organiza-se a marcha que levará à morte milhares de vidas inocentes ou empurradas para a desgraça. Quer-me parecer que François Hollande não vai sair bem desta guerra.

- Passos Coelho anda eufórico com o regresso aos mercados às costas do sofrimento dos portugueses. Diz que vem aí a felicidade. É tudo mentira. Ele só engana quem se deixa enganar. Tornou-se em ano e meio um tipo nojento, mentiroso, cínico, subserviente. O seu contraponto socialista, também anda exaltado a pedir maioria absoluta. Estes tipos não funcionam bem dos miolos. Vivem numa galáxia de fantasia que não colhe da realidade nada de substancial. Pior é que não temos alternativa e os dois sabem perfeitamente isso. Daí a grande corrupção, o compadrio, o reino partidário a lançar sobre a sociedade os malefícios que a destroem e a fazem recuar para os primórdios do obscurantismo de há décadas passadas.

- O Governo discute a “refundação do Estado”. Mas fá-lo à porta fechada, introduzindo a censura, obrigando os jornalistas a escrever apenas aquilo que ele quer seja público. Como se a República fosse uma monarquia e a nobreza excluísse o povo das cortes reunidas nos Restauradores. Se tivéssemos uma imprensa verdadeiramente independente e honrada, essa imprensa ditaria a Passos Coelho e aos seus pseudo-reformistas o boicote a tudo quanto saísse daquelas mentes alienadas pelo dinheiro, a arrogância e o poder.

- Fui a Lisboa expressamente para almoçar com o meu protector. Ele já se reformou do ministério público, mas não me deixou a mim e, volta que não volta, telefona a saber se estou bem, a agendar um ágape. Como os tribunais foram a sua vida, é a eles que voltamos sempre empurrados pela revolta de quem sabe tudo quanto se passa e não pode ou não tem coragem de desabafar. Acima de tudo é um ser curioso, humanamente limpo, descomplexado e justo – e só por isso me rendo a seus pés de cada vez que ele me chama.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Quarta, 16.
Ontem, pelas oito da manhã, chegava à gare de Campolide. Não é uma estação pensada para deficientes, é um arranjinho financeiro e pedante para dar a Lisboa mais uma infra-estrutura rodoviária. Logo que desembarquei, a minha ideia era procurar um táxi porque tinha urgência em cumprir uma jornada cerrada de afazeres. Para tanto contudo, tinha de passar para o outro lado da chegada, subir uma escadaria construída no exterior, passar por cima da via rápida, descer a fundo os dois ou três lances de escadas e atravessar o terreiro onde me pareceu ter visto um táxi e um aglomerado de escravos à espera de autocarro para os seus empregos. Porque adoro transportes públicos e não gosto de gastos inúteis, perguntei se dali seguia autobus para a Estrela. Diz-me uma negra de largo sorriso àquela hora plantado no rosto bonito que sim. Ela mesma estava ali aguardando para entrar. Fiquei a seu lado com o transporte aí perto parado à espera não sei de quê e quero saber. Responde-me um cavalheiro cinquentão que aquela paragem é mágica porque é dali que chega e parte o número x. Precisamente aquele que eu e uma fila de escravos têm que esperar na rua que o motorista abra a cancela. Uns cinco minutos depois, começam a entrar os primeiros da fila. Sem demora o amarelo fica atulhado dos odores dos serviçais de Gaspar e Coelho e empreende uma viagem por caminhos que eu não conhecia, desviando-se do sítio para onde me levavam os meus planos, no fundo do outro lado do bairro de Campolide ali tão perto. Quando o autocarro deixou a via rápida, meteu por caminhos citadinos cheios de grafitis e porcarias semelhantes. Forma de narrar. Em verdade chegou às portas do desespero. Alguns passageiros foram ficando por aqueles lugares inóspitos, mas o carro ainda seguia bem abastecido da negritude de quem hoje trabalha por dez reis de mel coado. Por fantasiosos percursos, eis-me chegado a Santos. Aí começo a reconhecer a minha cidade, os lugares que sempre foram os meus, e uma ligeireza de espírito restabelece-me dos abalos da partida e à memória como se o passado corresse ao longo do trajecto, desfilam pessoas, momentos, cintilações sensuais, lugares onde me perdi e reencontrei em noites suadas de procuras, medos, travagens respiratórias e uma terrível pancada no estômago de que ainda hoje sofro a dor. No Jardim da Parada lá está o restaurante onde tantas vezes fui jantar com a Teresa, ainda hoje com a fachada coberta da verdura que agatanha e envolve a porta e onde, no despudor que foi o meu, estando com sífilis e ela no último ano de medicina, perguntei, alto e bom som, causando o horror dos comensais, se aprovava que eu me sentasse na cadeira imerecida a um condenado por hábitos dissolutos. Mais adiante, antes do viaduto da Infante Santo, numa viela esconsa, olhei o prédio onde fui feliz por uma noite e na avenida aquele onde viveu Fernando Namora que me recebeu com júbilo incentivando-me a escrever. A minha vida como de resto a vida de tantos seres não acomodados, é como aquele autocarro que tergiversava continuamente entrando agora no bairro da Lapa. Ao meu lado direito, no trânsito caótico, tenho o museu das Janelas Verdes onde vezes sem conta passei manhãs a admirar pintura, escultura, cerâmica e, acima de tudo, Hieronymus Bosch. Ou ainda o jardim com vista sobre o Tejo e os barcos correndo na mansidão das tardes abafadas do estio. Ao fundo, subimos à esquerda por ruas estreitas e de súbito avisto o chalé do ricaço António Champalimaud onde passei três dias fechado com o empresário, o Delreaux e a secretária austera de óculos a meio do nariz sentada ao telex. Esse convívio com um homem duro a quem consegui arrancar uma vez, uma só, um sorriso, e foi extremamente honesto para comigo, sabendo que as minhas ideias não se ajustavam às suas, não esqueço. Como não olvido os serões no pequeno palacete onde o Delraux viveu uma rua abaixo, depois de deixar a York House e o quarto que partilhou com o António Barreto. Dois anos memoráveis ao lado de um homem bom de uma cultura imensa, por mor de quem desejo muito ir conhecer a casa de Pascoes que ele editou. Vamos agora a subir para a Estrela, deixando para trás o Parlamento onde forçado fui muitas vezes e de que não guardo boas memórias não fora os almoços que mais tarde ali tomei com a Alice e o rés-do-chão da Ana, do lado da rua do Quelhas, onde curtíamos longos jantares à sombra de uma amizade que ainda perdura. Num prédio recuado a meio da subida, com fachada sombria, lembro-me dos serões em casa do João Perry que julgo no segundo andar morou. Foram tempos desassossegados, intensos, secretos, eivados do consumo de tudo o que a sociedade regulada, bem pensante e burguesa, censura. Deito um olhar ao prédio cor de fogo onde numa noite de chuva e frio acompanhei a Isabel ao velório do pai. Saramago juntou-se-nos mais tarde pelas onze. Ainda hoje transporto o silêncio gélido dessa noite. Os vivos impressionam-me mais que os mortos. O autocarro para em frente do Jardim dito da Estrela. É aí que desço sem contudo deixar de erguer o pensamento e o olhar sob os pingos de chuva que começou a cair o vasto espaço, com suas ruas alcatroadas, seus misteriosos cafés, suas sombras, onde muitas noites e fins de tarde abriguei as dores da solidão imensa que o meu corpo insaciável e ao abandono pôde pela magia do amor esquecer o sofrimento, olhar o céu estrelado e sentir o êxtase de tocar a alegria imperecível. Este percurso que agora finda, foi um pedaço da minha via-sacra, o derrame da emoção sob o universo trombudo, a nocturna presença de Elêusis, o peso medonho de quem sente que pode sair na próxima e última estação, onde os crisântemos murchos cobrem as lajes das sepulturas…

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Segunda, 14.
Dia perfeito. De manhã estive à conversa com Maria Gordulha que vinha do jardim, seguida de 550 metros de natação com a piscina de novo só para mim. Após o almoço, debaixo do telheiro ao sol, 50 páginas de Mário Domingues sobre D. João IV devoradas com fornicoques. Não perco um livro deste excelente autor que li na adolescência e mais tarde e foi leitura obrigatória de quase todas as famílias, digamos, interessadas pela história de Portugal. O que mais me agrada nele - não sei se já aqui disse -, é o seu lado romanesco de ver os acontecimentos. Porque o escritor vê, toma parte, arrasta-nos para a acção e empolga-nos com a intriga, a condução das batalhas, o diz-que-disse na corte de D. João, os dramas rocambolescos que carregam para o patíbulo nobres e reduzem ao calaboiço eterno eclesiásticos corruptos e traidores. Estamos em 1641 portanto um ano depois da Restauração da Independência ao domínio de Filipe IV, e o excerto que se segue, narra a execução no Rossio dos principais conspiradores da nação livre: marquês de Vila Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar, D. Agostinho Manuel que, por ser bispo, escapou de ser enforcado conjuntamente com os outros conjurados. Conta assim Mário Domingues esse trágico acontecimento: No decurso da manhã, o vasto largo ficara repleto de gente e pairava no ar uma vozearia inquieta de comentários e invectivas contra os traidores, de mistura com algum chiste mais pesado sobre o seu destino funesto. A voz esganiçada das mulheres, a desmentir a lenda do sexo fraco, era a que subia mais alto, perfurando o ar fino e ferindo como aguçadas lâminas a honra dos desgraçados que iam pagar com a vida o abismo em que o despeito e a ambição os precipitara. Não é uma delícia! Há qualquer coisa do Camões de Os Lusíadas. Pag. 213 - 1ª Edição, Livraria Romano Torres.

domingo, janeiro 13, 2013

Domingo, 13.
Como ando um pouco cansado de leituras (leio em média entre 80 a 100 páginas por dia ensaios, romances, história, filosofia, alguma poesia), tombei hoje para uma série de artigos de opinião que fui amontoando. Gosto de ler o Pacheco Pereira na sua fase esquerdista, o incontornável VPV, o Fr. Bento Domingues, por desfastio às vezes o Miguel Esteves Cardoso, a Ana Luísa Amaral, a Teresa de Sousa e passo. No final são duas horitas bem passadas, debaixo do telheiro sentado no restrito espaço que o gato manchado com uma armadura no focinho como aquela que usavam os soldados na Idade Média (ou gata?) me deixou ao sol. A propósito o gato (ou gata?) preto já se atreve a comer na cozinha, mas se me aproximo ala que se faz tarde. São duas sentinelas: um do lado sul, outro do lado norte. Desde que estes dois soldados se apresentaram ao serviço, nunca mais vi ratazanas ou cobras. O preto por vezes parece um bibelô quando se exibe no bordo do tanque ou quando se estende no telhado da lenha. Já temos um diálogo que ele responde sempre. Eu digo: “miau” e ele replica: “miauu”. Que mais? Fui esta manhã ao mercado mensal do Pinhal Novo comprar uma cavadora de dois bicos e verifiquei que as vendas não acusavam a crise. Parece-me até que nunca o vi tão abastado, tão vivo, tão vegetal como hoje apesar da chuva que não parou de cair. Ali não entram modernices. Tudo o que se vê foi o que viram os homens de antanho. Apenas temos que meter umas palas nos olhos quando passamos as áleas das imundices dos ciganos: sapatos, chinelos, roupa travestida, artigos alimentares adagiários, alguidares de plástico e passo. Depois fui pagar à costureira que trabalha naquele horror que se chama Continente que tem à entrada um canto armado em café onde o movimento não era compatível com os ensinamentos do eminente contabilista, perdão economista, senhor Gaspar. De resto, neste reino da coelhada, nada confere com nada. O povoléu não se conforma à pobreza e vai gastando o pouco que tem em merdelhices que lhe dão prazer e felicidade e assim é que está certo. Se todos gostassem de ler, perdíamos aquele excelente comunicador de telejornais que também escreve romances e, sobretudo, pela parte que me toca, não poderia viver sem o seu piscar de olho tão atractivo e sensual e que alinha às mil maravilhas com a cultura vomitada do senhor Jorge Gabriel - ambos defensores da estação que lhes dá o pãozinho. Ora essa!

- Já que não desejo deixar a vila que me acolheu há mais de vinte cinco anos, porque não falar da sua presidente que meteu os papéis para a reforma aos 48 anos! Sim, sim: 48 primaveras! O PCP onde a criatura milita, já se demarcou. Mas como a lei assinada pelo tal engenheiro que se formou ao domingo saiu em 2005 e continua em vigor, a companheira Ana vai poder contar cada ano de trabalho autárquico a dobrar. Digo bem: a dobrar. E a pensãozita andará pelos 1859 euros. Nada mau. Eu fui já assediado algumas vezes para isto e para aquilo, a última da quais ainda há um mês. O sujeito que me falou, teceu grandes elogios à presidente. Eu respondi que não podia confiar numa câmara que utiliza os meus textos sem a referência do autor nem a sua autorização. “Mas sabe, ela representa bem a vila: é bonita, apresenta-se bem…” Perante isto, entupi.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Quinta, 10.
O relatório encomendado por Coelho/Gaspar, perdão, Gaspar/Coelho ao FMI caiu aí como uma bomba e assenta nos princípios habituais, sendo uma chapa sem novidade que atinge os mesmos de sempre. O povo ouve e conforma-se rendido ao que lhe dizem ser inevitável. Mas em paralelo, descodificando os factos e as mentiras, aí estão mil e cem milhões de euros para o BANIF, a rebaldaria no hotel Copacabana do Rio de Janeiro com deputados a festejar à grande e à francesa o fim do ano (pena que os jornais não tenham coragem de descrever o que lá se passou…), uma deputada socialista da secção de Ética do Parlamento, apanhada a conduzir bêbeda … Isto e o mais que um dia se saberá prova que estes fanáticos que nos governam gozam com o pagode e saem imunes com o apoio dos seus congéneres e o laborioso trabalho de uns quantos que tomaram Portugal por laboratório onde ensaiam os crimes a pôr em prática noutros países.

- Não digo com isto que Portugal não tenha de mudar de vida. Lamento é que aqueles que o arrastaram para esta situação continuem imunes, fazendo a vida que acima descrevi, e mais aquela subterrânea que um dia se saberá. Também eu, se bem se lembram, me fartei de bramar contra uma certa clique que ganhava e continua a ganhar fabulosos salários à frente de empresas públicas falidas, deputados com reformas faustosas em três ou quatro legislaturas, chefes de Estado com vidas de reis que acumulam com outros cargos pós Belém, ministérios a abarrotar de clientelismo partidário, a fartazana da criadagem em torno dos ministros, dos conselheiros, as frotas de carros topo de gama, o domicilio pago de alguns magistrados mais as deslocações, os cartões dourados, um certo funcionalismo público a ganhar o que o país não produz, as reformas de muitas cabeças coroadas disto e daquilo, enfim, o fabuloso e abastado país distribuindo benesses e mordomias como se a vida fosse uma fantasia de Natal com o povo a pagar elevados impostos como aconteceu e séculos recuados. Para não falar na corrupção, no compadrio alastrado a todos os sectores, os negócios ruinosos feitos por génios da economia, à revelia da vontade popular, sem a sua procuração, numa promiscuidade entre público e privado de que uns e outros se sustentam, enriquecem e arruínam toda a nação. Empurrado pela banca, pelos políticos, pelo consumo agressivo, os portugueses, sobretudo os das classes mais baixas, acreditaram que podiam viver a consumir porque o futuro estava garantido. Por isso, a adaptação aos novos tempos de contenção está a ser mais difícil e dolorosa. A verdade porém, é que a cabeça fez-se para pensar e os dedos para contar. Resta os novos-ricos pós-25 de Abril. Uma tarja de gente hedionda, que vive do faz-de-conta, que detesta os pobres e não a pobreza, que gasta acima das suas possibilidades não por necessidade, mas para que os outros admirem a sua prosperidade. Alguns, hoje, caíram numa semi-pobreza e vivem revoltados, escondidos de si e dos outros, explorando os honestos que encontram, utilizando toda a artilharia pesada da inveja, do ódio, da infelicidade para esconjurarem aqueles que preferiram o equilíbrio, o trabalho recto, a integridade pessoal. Mas atenção. Escutem o que vos digo. Nas próximas eleições, os políticos dir-vos-ão que não somos pobres nem nunca o fomos, que podemos ter este mundo e outro, que o dinheiro abunda e a pobreza é o maior escândalo. Portanto: corações ao alto! Ainda este ano passaremos da “triste e vil tristeza”, à glória dos dias da abundância, das promessas excitantes, dos devaneios nacionais, do futuro fulgente com os bolsos cheios e a irracional vontade de os esvaziar.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Quarta, 9.
Ontem fui a Lisboa pelo caminho do Tejo. Na estação fluvial do Barreiro encontrei a Idéltina e no Terreiro do Paço, à chegada, a feia-bonita Alzira com quem acabei por tomar café no Chiado. Como tenho cinco sentidos que aspiram tudo o que à minha volta se comenta ou pensa, não pude deixar de escutar o lamento da rapariga da mesa do lado para a amiga: “Palavra de honra, não sinto vontade nenhuma em viver!” (Enquanto anoto estas linhas nas costas de um talão do multibanco sobre a capota de um carro, tenho na minha frente um indiano pasmado a observar-me.)

- Por vezes, para alguns leitores, decerto passo uma imagem de mim que esconde a diversidade do meu carácter e forma de viver. E ainda bem. Porque não sou nem quero ser nunca um ser padronizado, direitinho, ajustado a normas e convenções. Vem isto a propósito de mais tarde, estando nas mediações do Corte Inglês, ter entrado para comprar o jantar. Antes porém, subi dois andares para ver as modas e a fraca agitação que por aí reinava. Foi quando dei de caras com uma camisola de que gostei tanto ou tão pouco que num impulso a comprei. Eu que a semana passada tinha adquirido um gilet para substituir o meu velho pulôver que há quatrocentos anos me protege do frio e prometi dá-lo a um dos gatos, mas que ainda o trago vestido.

- O Diário Económico de hoje traz mais uma pazada de brutalidades encomendadas pelo Governo aos técnicos do FMI. Não sei quanto o país pagou pelo estudo, sei que ele é tirado a papel químico das medidas que Gaspar impôs aos portugueses. Pergunta-se para que serve o parecer dos génios. Já todos percebemos que se permanecermos na UE vamos empobrecer até ao clima que trouxe Salazar às Finanças portuguesas. Isto está entregue à bicharada. Durão que é nulo, nulo, nulo, já está em campanha para a presidência cá do burgo. Se lerem nas entrelinhas o que disse anteontem a uma plateia de iluminados, dar-me-ão razão.

- Fiquei satisfeito com a quarta atribuição da Bola d´Ouro ao Messi. É infinitamente melhor que o pobre rico português digo eu que tenho um Honoris Causa pela universidade do Montijo dirigida pelo expert em língua portuguesa e desporto Paulo Futre.

terça-feira, janeiro 08, 2013

Terça, 8.
O jogo partidário dá corpo ao fait divers e depois sustenta-se dele, numa total indiferença pelos reais problemas do país. Esta tropa fandanga que nos governa vive num mundo situado no sótão dos arranha-céus de onde nos olham como formigas que devem trabalhar até estoirar por dois reis de mel coado. Basta reparar nas diferenças: não conheço nenhum político que não esteja rico, mas conheço alguns que antes do 25 de Abril eram tão pobres ou remediados que a um ou outro emprestei dinheiro. Portanto… é fácil perceber a quem conveio o regime chamado democrático. A questão da constitucionalidade do OE se nos ativermos no julgamento de Cavaco Silva, percebemos que aquilo não passa de uma manobra de um tatebitates. Eu revejo-me mais no desprendimento da esquerda – PCP e BE – que em todos os exercícios oportunistas do PS, dos juristas, dos procuradores e por aí fora. A direita, CDS, PSD, PS, está toda conluiada nas administrações disto e daquilo e feita numa espécie de osmose de cumplicidades e interesses comuns que paralisa Portugal há já trinta e nove anos.

- A semana passada porque procurava algo que me disseram existir no Colombo, para lá me atirei com o sentimento que ia mergulhar num oceano de águas turvas. Detesto aquele covil de promiscuidade e saloiice. Aquilo é o retrato nítido da Lisboa de hoje, com todas as misturas provincianas aterradas na ambição de experimentarem a passarela onde todos se irmanam num mesmo gosto, vestindo o mesmo uniforme, contentes por se sentirem alguém nos corredores sinistros de uma catedral feita em série como em série foram feitos aqueles pobres coitados que ali encontram a felicidade e se sentem alguém.

- Ontem, apesar de a jornada não ter sido nula, pelas dez da noite estava deitado e até às onze e meia li de uma lufada 50 páginas do Diário de Al Berto. A sua escrita diarista cumpre integralmente os cânones do género e percebe-se que não foi trabalhada, sendo antes de tudo um chicote de emoções atiradas ao papel com a raiva e a dor de um ser atormentado pela doença, a solidão e a descrença. Eu conhecia os seus versos, leio-os e releio-os continuamente, mas este trabalho revela-nos o artista de sensibilidade que ele foi, o homem sem norte que se entregou às sombras, aos rumores, ao frio das madrugadas e que acreditava profundamente na escrita indo ao ponto de dizer como eu aqui já inúmeras vezes disse, que escritor não é quem publica, mas quem escreve independentemente da impressão do livro. O trajecto escrito de um escritor nada tem a ver com a publicação de livros. Pode-se ser escritor, e nunca ter publicado um livro. (…) Os mecanismos da escrita são, de certo, mais profundos e misteriosos, para que estejam condicionados à simples (à simples reforço eu) publicação dum livro. E mais adianta, acrescenta: Se retirarmos todo o mistério ao acto de escrever (eu diria sagrado), e o votarmos à simples acumulação de “Trabalho Curricular”, o melhor será dar um tiro na cabeça e no que faremos. Pag. 78, edição Assírio & Alvim.

- Pensa-se que já morreram 60 mil pessoas na guerra da Síria. Todavia, o seu chefe monarca, em discurso ao seu povo fiel e em circuito fechado, declarou a sua continuação com a calma e a normalidade de quem faz o resumo feliz em final de ano. É certo que os empenhos ocidentais e americanos em zonas islâmicas, não resultaram em democracias tal como as que se praticam nos seus continentes. Mas insistir numa guerra que parece não ter fim e conta já um número impressionante de mortes, deve merecer da parte dos países civilizados a diplomacia de retaguarda que ponha em diálogo todas as partes. Facturar milhões em armamento e em paralelo tecer laudas à paz é de um cinismo a todos os títulos reprovável.

domingo, janeiro 06, 2013

Domingo, 6.
Uma noite destas acordei sobressaltado com a Fernanda que me secretariou anos a fio a alertar-me para a conta de telefone de mil euros cujo prazo de pagamento terminava naquele dia. Assustado como em muitos meses de aflições financeiras que tive de gerir, já não consegui pregar olho. O curioso é que ao fim de tantos anos, o meu cérebro não se tenha libertado das angústias por que passei devido às responsabilidades profissionais que tive. Agora que me parecem estes os mais felizes e vibrantes anos de vida, dispensava a recordação desses tempos irregulares e duros em que senti-me fundeado num abismo de permanente e extenuante instabilidade.

- Quando afirmo que hoje vivo abraçado de aleluias, refiro-me a esta vidinha que a pouco e pouco deixou o tormento do pólo sul para atolar-se nas alegrias do pólo norte. Durante um horror de anos, passei dores infindas por causa da minha natureza sensual que interpelava quem ao meu encontro vinha ou quem os meus olhos pasmados despiam oferecendo-me a beleza que me extasiava e condenava ao sofrimento. Ansiava pela paz, pelo adormecimento suave dos sentidos, pela chegada do reino do espírito onde hoje plano sem destino imbuído da graça da serenidade. Não quero dizer que ferrei os olhos e recuso a beleza de um rosto, a elegância de um corpo, a perfume da pele que solta no ar o magnetismo que me condena, um vou ali e já venho no deleite do imprevisto. Não. Oh! não! Mil vezes, não! O que digo é que alcancei o domínio de ser eu a escolher com quem e como quero partilhar um instante de felicidade, sem os constrangimentos que a obsessão, o descontrolo e urgência que antes se sobrepunham à mente e quase sempre ao desejo, como se estivesse na frente da morte enquanto indulto absoluto da vida. Este bem-estar, este bem-me-quer associado a tudo o que tive, vivi, amei, sofri e gozei, deixa-me no limitar de uma espécie de realização física e moral que pelos sentidos me esgotou, me saciou, me adormeceu e me pôs no ponto onde a deflagração de mim recentrou em harmonia o ser que hoje une as extremidades depois do circuito completo da vida. Não falo da vida no sentido lato. Falo de etapas dessa existência que me coube e espero continue a caber por muitos mais e felizes anos. Porque sinto que é agora, enfim, que tudo se me oferece, que tudo me seduz visto pelos olhos desarmados de quem nada deseja e por nada desejar tudo alcança. Posso, enfim, olhar a curva do horizonte, fixar os olhos no azul do sol, nas estrelas cintilantes de um vermelho incandescente, nas árvores pintadas como as zebras que na infância me estarreceram de encanto, sorver o silêncio de todos os ruídos da terra, dizer ao meu corpo que sou eu que lhe ordeno os desejos, aos sentidos que sob as minhas ordens desçam das alturas arrogantes e fixem morada aos meus pés, ir de cabeça levantada pelas avenidas asfaltadas de cores onde vivem chusmas de pássaros do tamanho de formigas, cantando e encantando porque hoje os meus olhos só vêem o que o meu coração livre de todas as amarras quer ver, como se me devolvesse aquilo que o passado turbulento e dissoluto que foi o meu me roubou… Pequenos suspiros, profundos gemidos. Sombras rectilíneas, mistérios descobertos pelo vento. Suplicantes horas de amor com toda a disponibilidade do mundo, o corpo alongado sobre as asas do sono. Quase loucura. Quase nada. A madrugada toda a encher a tarde. Um bulício aqui outro acolá. A ressurreição na ponta do vício estendido na pele translúcida. Nada e tudo, tudo e nada…

sábado, janeiro 05, 2013

Sábado, 5.
A obsessão tecnocrata destes liberais que nos governam virou patética. Reparem. Esta manhã fui comprar os legumes a um casal de velhotes que os criam num pequeno terreno e por conseguinte viraram os meus produtores bios afastando-me há uns dois anos dos super. Para meu espanto, encontrei-os na sua banca modesta de rua, às voltas com uma máquina que emitia facturas e que lhes tinha custado 1.100 euros. Nem um nem outro se entendia com o seu manejo e quando lhes perguntei que gadet era aquele e para que servia, responderam-me que tinha sido imposição do Passos Coelho. “Para uma banca de rua! exclamei revoltado - Sim. Temos medo das multas que o outro (o Gaspar) pode aplicar à gente.” Deu-me vontade de chorar de raiva. Estes convencidos com a sacanagem no sangue atacam os pobres coitados e deixam imunes os larápios encartados e os gangsters da política. É uma espécie de latrocínio onde a arma é o medo e a opressão.

- As redes sociais criaram um neologismo que me é simpático e vou passar a utilizar: “Entroiycado”.

- Este dia luminoso, arrastou-me em diversas direcções. Fui, como disse, ao mercado semanal em Pinhal Novo, de seguida ao encontro do Simão, em Setúbal, para discussão da nossa próxima viagem a Braga e a Amarante onde contamos pernoitar na casa de Teixeira de Pascoais que eu há muito ambiciono conhecer. Depois, passeei no mercado dos brocantes na Luísa Todi hoje inundado de gente e frio, sol e harmonia. Até encontrei um tipo que se propôs curar-me da coxearia. Como recusei, ele abriu o rosto idiota num espanto e perguntou: “Porquê?” Respondi: “porque deste modo sou mais original do que tu.” E prossegui caminho. Uns metros adiante, voltei-me para trás e vi-o ainda imobilizado na sua pose de pacóvio armado em milagroso com o queixal hirto de indignação e assombro. Deixando a cidade sadina, fui ao encontro da Maria José. Ela trabalhava numa série de pequenas esculturas em barro de vários tons – uma graça de singeleza e elegância.

- Esta manhã quando acordei estavam 0 graus.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Quarta, 2 de Janeiro.
Neste início de ano Portugal assemelha-se à casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Mas quando estive em Londres os ingleses diziam Cut your coat according to your cloth. Talvez seja este provérbio o que melhor assenta aos portugueses.

- Diz-se que os 365 dias do ano serão o que forem os primeiros. Pois bem. Se assim for tenho o ano ganho porque este dia comportou tudo quanto desejo seja repetido ao longo dos próximos doze meses. E reza assim: quatro horas de escrita de manhã, seguidas de uma hora de natação. Depois do almoço, hora e meia de leituras e trabalhos no jardim, plantação de uma figueira e transplante para a terra do arbusto do imperador Adriano. Acresce que sem ter motivo algum (ou tendo não digo), sinto que 2013 vai ser um ano excelente e ímpar para mim. Até o sol foi puro e luminoso e andou por aí a distribuir nos campos as pepitas brilhantes da glória celestial.

- Lá fora, os estames das flores crescem como cabelos, e o pólen embriaga quem lavra a noite num lençol de pássaros… Diário de Al Berto. Só um poeta da sua dimensão nos sacode com esta impressionante e bela imagem.