segunda-feira, março 25, 2019

Segunda, 25.
No avião que me trouxe, sentou-se a meu lado um rapaz brasileiro que de pronto se pôs a falar comigo. Contou-me que tinha ido a Lisboa para o casamento de uns patrícios amigos. “Que vivem em Lisboa?” disse. Nada disso. O casal veio do Brasil apenas para casar em Lisboa e com eles os convidados em número no avião. Muitos deles ficaram em Portugal e este e mais uns quantos, aproveitaram para conhecer Madrid. “Viva o luxo!” repliquei. Mas depois, no silêncio que não revela os pensamentos e o escritor derrama na folha em branco, pensei como o mundo é cada vez mais um espaço de desintegração do indivíduo. Para um par de pândegos poder dar-se a esta loucura, num país dos mais desiguais, onde a pobreza impera e as condições de dignidade de vida estão abaixo dos limites, coabita um mundo, em folha dourada, que nem se apercebe que as suas fantasias são um atentado à simples sobrevivência de milhões.

         - Aqui como por todo o lado, o convite é para que os cidadãos reconheçam com o seu voto a União Europeia. Pela minha parte, podem esperar sentados. Não lhes perdoo não me terem perguntado se queria entrar para semelhante rancho, como não esqueço que nem o simples Tratado de Lisboa foi ratificado pelo voto popular, não obstante a promessa daquele que enriqueceu com as esmolas do empresário de Leiria. Para não falar nas sucessivas humilhações por que passámos e passamos, de joelhos em amém a tudo o que os eurocratas nos impõem. Sigam sem mim – basta-me os malefícios de toda a ordem que me atingem.

         - Divertido e saboroso jantar num restaurante agradável da Gran Vía. Laure animadíssima e Robert exibindo o prazer do nosso encontro. Só Annie, devido à sua avançada idade e, sobretudo, aos problemas de saúde, ficou no hotel a descansar. Mas admiro a sua coragem, o facto de não querer baixar a bandeira da luta que é a substância básica da vida.

         - Hoje pela manhã um táxi deixou-nos à entrada do Prado. O museu assinala por todo o lado e de todas as maneiras o seu aniversário. Algumas alterações desde que aqui estive pela última vez. O encantamento é, contudo, sempre o mesmo. Por isso, percorremo-lo durante mais de quatro horas, hipnotizados pelas suas riquezas, exaustos no final e prontos a abancar no restaurante para um almoço calmo e divertido. Centenas e centenas de visitantes de todas as idades e línguas. Começámos pelas salas Bruegel (o velho) diante do esplendoroso quadro A Festa de S. Martinho, composição fascinante elegendo o vinho e a sua emoção. Depois o tríptico de Jerónimo Bosch O Jardim das Delícias Terrenas, na linha daquele que está no Museu de Arte Antiga, ou A Tentação de Santo António ambos impressionantes pela temática e a imagética do artista. Mas as salas consagrados a El Greco, cujas telas vi muito novo e nunca mais as esqueci, foram demoradamente percorridas. Algumas assustam pela sua concepção, pelo seu clima negro, pela realidade religiosa e, que digo eu, pela estética que concebe a cor de um modo cru, sem mistura, rude de algum modo. E que dizer de Rogier van der Weyden, do seu trabalho A Descida da Cruz, mostrando os rostos constrangidos das mulheres que estão com Cristo no seu calvário doloroso, a visão de um tempo onde a fé imperava, por vezes de uma forma obsessiva que desvirtua a realidade mística para se transformar numa sobreposição humana, longe dos valores que se transformam em factos do dia-a-dia de um tempo onde Deus ocupava o centro da realidade artística. E Rafael, Murillo, Velasquez, Zubaran, Botticelli... a arte religiosa em série que para o final passamos o leve olhar cansado. Muito ficou por ver. A grandiosidade do museu não se esgota em dois dias, nem em semanas.

         - Os chineses na forma de gafanhotos, passavam por nós a alta velocidade. Às vezes detinham-se a olhar um quadro e formavam um novelo que não deixava ninguém aproximar-se. Numa sala, um grupo estava diante de uma tela gigante de Goya. O guia, porém, explicava o conteúdo do trabalho com um tablet erguido acima da cabeça onde estava a tela fotografada. Ninguém olhava o original, todos estavam fisgados na fotografia. Bizarro.


         - Para o fim da tarde, longo passeio pela Gran Vía. Se há avenida que espelha não só a cidade, mas também os madrilenos, é esta rua. O ruído é imenso: pessoas, carros, movimento para cima e para baixo, um desassossego que se prolonga pela noite dentro. As lojas fecham tarde e os clientes acodem num fervilhar desesperado, entrando e saindo como toupeiras endiabradas de tudo quanto é canto e brilha e encanta. Parece que participamos numa festa, pois o sorriso está estampados nos rostos que se cruzam connosco. O firmamento estrelado escondem-se por entre os prédios altos e belos, enfeitados de estátuas em ferro e pedra, dando à avenida a impressão de um museu a céu aberto, os milhões de estrelas que cintilam envergonhadas ante as luzes terrenas que as desafiam. Na Gran Vía cabe Madrid inteira.

domingo, março 24, 2019

Domingo, 24.
Confesso que me revolta ver o destino do audaz Rui Pinto, preso desde que chegou de Budapeste, enquanto aquelas resmas de corruptos analfabetos que dirigem a indústria de futebol e têm ao seu dispor de joelhos e a encherem os bolsos, os homens que só defendem (curiosamente chamados advogados), quem possua somas astronómicas que os fazem inchar de soberba e altivez. A Justiça entre nós é um negócio altamente rendoso, com uma particularidade que diz tudo sobre a justiça humana: quem tiver dinheiro paga para não ir parar à cadeira; quem o não tem é humilhado e maltratado e passa o resto da vida atrás das grades. O PS tem aqui uma especial culpa que começou com o multimilionário José Sócrates, ao cavar a divisão entre cidadãos de acesso à justiça de primeira e de segunda, e recentemente acentuada com o Mágico, ao pretender que o Estado fique com 20 por centro das causas ganhas nos tribunais assistidos por advogados públicos. Esta justiça é forte e vertical com os fracos e ziguezagueante e fraca com os fortes.

         - Os gilets jaunes embora escorados por um colete de forças impressionante, não deixaram de descer às ruas. Os Campos Elísios ofereciam uma imagem que não favorece Chou Chou, como se “a maior avenida do mundo” estivesse em guerra... contra os seus habitantes. Para a semana há mais, grande presidente (em minúsculas).

         - A aliança que tem combatido o Daesh na Síria, anunciou que os jihadistas capitularam e a guerra terminou. Deus queira. Porque o desaparecimento não significa que se tenham convertido à civilização. Temo que agora redobrem os seus actos bárbaros. Precisamos de mudança, mas dispensamos as execuções arbitrárias, o espectáculo das sentenças hediondas, o terror, os ataques mortais que levaram inocentes, as angariações de fracos e revoltados para o pseudo estado islâmico ou califado.


         - O Museu do Prado festeja este ano o seu bicentenário. Por essa razão vim a Madrid e desafiei a Annie e o Robert a juntarem-se a mim. Estou, portanto, no aeroporto à sua espera e aproveito para escrever estas linhas. Daqui levá-los-ei para o hotel que previamente escolhi, na Gran Vía, não muito longe do museu e do centro do desassossego. Tempo sublime. Por muito que revisite a cidade, sempre a vejo jovem e garbosa, com os seus habitantes airosamente felizes. Há na atmosfera aquele incenso de orgulho que faz deste povo uma raça à parte no rumo que leva a União Europeia.

sexta-feira, março 22, 2019

Sexta, 22.
São manifestos os repúdios dos portugueses que vivem em Moçambique e, particularmente nestas horas terríveis, os que foram atingidos pelo ciclone Idai. Arrasam o consulado português. Dizem que só oito dias depois estão a aparecer, que foi inexistente na Beira e noutros locais onde era necessário, deixando-os completamente entregues à sua sorte. É curioso, a mim nada disto surpreende. Ai de nós se uma catástrofe um dia varre este rectângulo! Pelo que se viu há dois anos nos incêndios de Pedrogão e pelo que se viu o ano passado no do Algarve, a irresponsabilidade de todos nunca é apurada porque uma teia de amigalhaços e conveniências políticas se dissemina por organizações, postos de comando, autarquias e juntas de freguesia. Pagamos a milhares e milhares de empregados, funcionários, pessoal disto e daquilo e todo o dinheiro se vai em suster o desemprego e a romancice de uma classe que não pode ser despedida, tem Segurança Social especial, ganha mais que nos privados e não é responsabilizada por nada.  

         - O PCP está contra a nova lei de fiscalização dos políticos, por entender decerto que a classe política é demasiado séria e honesta para ser fiscalizada. Não se percebe. Em que mundo vivem os comunistas? Depois do que se assiste por todo o lado: aldrabices dos senhores deputados, a começar na declaração dos seus bens e a terminar nas moradas vigarizadas, as viagens inventadas, as presenças falsificadas. Os tribunais que nestes últimos vinte anos só trabalham para denunciá-los e as centrais de advogados laboram a fundo para os ilibar. Como pode o PCP opor-se a que o povo conheça como enriquecem aqueles que lidam com o nosso dinheiro e têm acesso fácil ao tacho que não param de rapar!  

         - Não só aqui. O Brasil é um campo de concentração a céu aberto de ladrões. O empertigado e filistino ex-Presidente do Brasil, Michel Temer, acaba de ser preso implicado também na célebre Operação Lava-Jacto. O curioso, neste caso como em tantos outros, é que estes malfeitores exibem na cara e na lapela, o que são – ladrões e vigaristas. Os tribunais deviam prendê-los sem gastar recursos públicos, porque eles dizem escondendo e mentido, tudo o que na realidade fizeram. Está tudo registado naquelas caras feionas, só as leis feitas para encher de divisas as catedrais de advogados que tudo fazem para construir os altares onde os elevam em adoração pelo muito que lhes deram a ganhar. Meus queridos gilets jaunes, não faltem amanhã nas ruas. Precisamos de vós para ajudar a denunciar este clientelismo que aquartela o pai e a mãe, a esposa extremosa e o filhinho querido, sem faltar o gato e o cão de estimação.

quinta-feira, março 21, 2019

Quinta, 21.
Ontem nos transportes públicos, não se falava  de outra coisa: a revolução, como lhe chama o Mágico, dos passes a 40 euros/mês abrangendo o Fertagus, metro, autocarros, etc. No troço entre o Pragal e Sete Rios, umas madames que entraram e não tiveram lugar para se sentar, traziam já a conversa engatada. Elas acertavam na mouche ao afirmarem: “Se isto está assim cheio e não temos lugares, o que fará no próximo mês (a partir do qual entra a “revolução” em marcha).  “A mim quer-me parecer que vai ser a bagunça, e vamos andar como sardinha enlatada” disse outra. Começou então aquilo que me parece evidente: que o Governo não preparou as infra-estruturas para uma tamanha e boa revolução. Aí, uma terceira, dá o tiro certeiro no Mágico: “Quem se vai safar, é quem vier de carro. A ponte deixa de ser uma miragem.”  

         - São assustadoras as imagens da Beira. Aquelas criaturas não mereciam tanto sofrimento. Umas filmagens da TV5 Monde, dá-nos a ver uma enfiada de casas térreas com os telhados pejados de pessoas e mais adiante várias árvores cheias de negrinhos agarrados num equilíbrio instável aos seus ramos. O Presidente falou em 1000 mortos e talvez, infelizmente, venha a ter razão. A dimensão da tragédia é mais profunda e violenta que se pensava. Portugal enviou várias equipas de socorridas em muitas áreas. Acho bem: é melhor gastar o dinheiro nestas situações que a encher os banqueiros. 

         - Les Soleils révolus velho diário de  Gabriel Matzneff que encontrei num bouquiniste das margens do Sena, não desbota dos anteriores volumes (os posteriores são mais interessantes, a velhice pinta a vida com cores mais reais) e é por si só uma chatice de todo o tamanho. São quinhentas páginas a explicar a sua vida de valdevinos, amante das meninas de treze, catorze e quinze anos (ele vai nesta altura nos quarentas), com quem passa manhãs, tardes e noites enrolado na cama. Eu não sou moralista, mas acho que o emprego de um homem com talento, para não falar das árvores que desaparecem, chafurdando sempre no mesmo mete e tira, pela frente e por trás, ao jeito de Casanova seu mistagogo, cansa. Como exemplificação, este trecho, pág. 109, Gallimard, que me recuso a traduzir, multiplicada à exaustão até à 545: “Ce matin, au réveil, lorsque Isabelle m´a fait jouir dans sa bouche, j´ai été heureux, très heureux; pas plus heureux que ce soir, quand Marie-Élisabeth me suçait passionnément et maladroitment, me faisant parfois mal avec ses dents, mais n´importe, c´était bouleversant.
         Auparavant, je lui avait longuement sucé le clítoris, leche le con, voluptueusement fait feuille de rose (caresse inoubliable pour elle, je l´espère); je l´ai possédée en bouche, en con. Puis je l´ai pédiquée: cela lui a fait mal, très mal même, puisque des larmes ont jailli de ses yeus, mais elle n´a pas protesté, elle a supporté l´assaut avec vaillance.” Esta Élisabeth tem 15 anos. Com a sua idade, sai bastante amassada, a pobre...


           - Eu gostava de ser optimista como Fr. Bento Domingues. Diz o ilustre sacerdote no Público de domingo: “No momento, em que as narrativas de corrupção tendem a criar a ideia do inevitável, importa encontrar os meios, as práticas e a cultura de que o normal, o mais corrente, é a honestidade pessoal e a observância das boas regras nas instituições públicas e privadas.” Só a bondade de um homem íntegro e honesto, pode ser capaz de ambicionar nos nossos dias uma práxis do passado.

              - Com a preciosa ajuda da Piedade, abri o lounge. É a minha forma de saudar a Primavera que hoje inundou os espaços e, espero, os corações. 

terça-feira, março 19, 2019

Terça, 19.
Em Moçambique o drama dos que foram atingidos pelo ciclone, não pára de crescer. Portugal mobiliza-se para ajudar e ainda bem. A Cruz Vermelha Portuguesa, sob a direcção de Francisco George ofereceu 25 mil euros e o seu  Presidente, um da meia-dúzia de homens sérios e honrados em quem se pode confiar, incentiva os portugueses a contribuir, garantindo que é ele em pessoa que se vai ocupar dos donativos, fazendo-os chegar a quem deles precisa. Não vejo ninguém mais impoluto para o fazer neste país. Podemos confiar nele de olhos fechados  e coração aberto.   


         - Lídia Jorge, a terna e excelente escritora, falava esta manhã na Antena 2 da feira de vaidades em que por vezes se transforma as semanas ou dias de escrita, organizadas por certas autarquias e onde os escritores são convidados a participar. Uma pergunta frequente : “Por que escreve?” Eu não participo nessas festas porque não sou convidado e se fosse pensaria quatrocentas vezes antes de aceitar. As únicas ocasiões que isso me aconteceu, se bem me lembro, a primeira foi na Faculdade de Letras quando saiu os Fragmentos do Silêncio e a última a convite do António Inverno para falar na escola onde ele dava aulas, em Beja, não tendo em conta o colóquio, em Montpellier. Se a pergunta me fosse feita (reparem que não digo colocada...), responderia: “porque não posso viver sem escrever”, “porque quero abanar o reino da monotonia”, “da acomodação”, “do politicamente correcto”, “do diz-bem-de-mim-para-eu-fazer-o- mesmo-de-ti”, “porque anseio tocar a beleza nas asas translúcidas da luz”, “porque quero que os leitores pensem, reajam, revoltem com as injustiças, a mentira”, “porque quero que a literatura seja a superior forma de diálogo e tolerância, desafio e silêncio capaz de sacdir as consciências”. Como vêem não sou nada modesto...

         - Portugal devia ter eleições todos os anos, mesmo que fosse para eleger o gato mais esperto ou o papagaio mais palrador. Porque a política no nosso querido país é feita e imposta do lado dos partidos e da abencerragem dos governantes, habitualmente montados no chico-espertismo que há em quase todos eles. A fúria de poder, de vaidade e oportunismo é tal que por vezes nós, seus súbditos, acabamos beneficiando daquela loucura gananciosa. Veja-se o caso do bilhete Navegante Metropolitano, uma boa iniciativa que tem em conta o voto popular, mas acaba por nos favorecer a todos. Venham mais eleições e depressa, porque sem elas ninguém nota que Portugal é habitado por portugueses. A este propósito, aconselho vivamente aos meus leitores a leitura do artigo de João Miguel Tavares no Público de hoje – é de antologia.


         - A resposta de Macron aos tumultos de sábado, em Paris, é a do insignificante governante, vingativo e prepotente: demitiu o chefe da Polícia e instaurou medidas radicais para enfrentar os gilets jaunes. É não conhecer os franceses que tem de governar.