segunda-feira, abril 06, 2015


Segunda, 6.
Comprei o calhamaço dos Diários de Orwell. É um volume com 700 e tal páginas que vou lendo devagar e sempre entremeado com outras leituras publicado pela D. Quixote. Curiosa esta observação de Agosto de 1931, numa altura em que a literatura francesa era ainda a referência na Europa e até no mundo: A maior parte dos ingleses não faz ideia de que há livros franceses que não são pornográficos.

         - É decerto de João este fragmento de Jesus antes de ser condenado à morte que ouvi citado na Via-Sacra transmitida, sexta-feira, do Coliseu de Roma: Deixei o Pai e vim para o mundo, agora volto para o Pai. E nós quem éramos antes de sermos quem somos? Quem éramos antes de Deus nos ter dado a vida? E por que nos deu Ele a vida a cada um de nós? Por que fomos os escolhidos? Tantas interrogações a que nenhuma teologia responde. O que mais próximo está da resposta, é a oração.

         - Almocei no C.I. com a Alzira. Na mesa ao lado, um homem bem trajado, elegante mesmo, anotava a lápis a Ilíada. Logo eu disse à minha amiga que esperava ter um Verão tão profícuo no domínio do conhecimento dos clássicos como o do ano passado. Que período maravilhoso! E depois poder partir para Paris ao encontro dos meus amigos e ficar com eles pelo menos dois meses. Era a dupla da felicidade.

domingo, abril 05, 2015

Domingo, 5.
Não obstante a alegria da Ressurreição do Senhor, crimes inqualificáveis continuam a exterminar vidas inocentes. É o caso do ataque da milícia islamita da Al-Shabab à universidade de Garissa, no Nordeste do Quénia. Morreram mais de 147 alunos dos 800 que tem a faculdade e muitos estudantes foram sequestrados. O grupo ao que tudo indica tem ligações à Al-Qaeda e a sua base do crime está sediada na Somália. Muitas das raparigas e rapazes eram cristãos. Foram os primeiros a serem executados depois de uma triagem feita pelos assassinos. Aos estudantes muçulmanos foi permitida a fuga. Não foi o primeiro ataque. Em 2013, ao centro comercial de Westgate, em Nairobi, fez 67 mortos e quase duas centenas de feridos.

         - A greve dos transportes públicos nesta quadra, deixou muita gente apeada inclusive eu próprio. O transtorno maior vai para aqueles que aproveitam estes dias para umas mini-férias.

         - O resultado de o Estado aligeirar as suas obrigações, está nos 152 diplomas passados pela dita Universidade Lusófona - a tal que formou o senhor Relvas, amigo íntimo do primeiro-ministro. Vejamos se é desta que nos dizem igualmente o que se passou naquela em que o senhor Sócrates obteve o diploma a um domingo. A Educação entregue a privados é claro que só tem em mira o lucro. Tudo o mais é acessório.

         - Os Estados Unidos deitam foguetes na sequência do acordo nuclear alcançado com os iranianos. O Irão comprometeu-se a não construir novas unidades de enriquecimento de urânio. Israel parece desconfiar. A Europa, como sempre, assina de cruz. O futuro dirá se o “compromisso histórico” não passa disso mesmo – um compromisso.  

         - Tapa-se um buraco aqui, abre-se outro além. No Iémen a malta ligada ao braço direito da Al-Qaeda que se bate ferozmente na Síria ocupou o Norte do país. A ofensiva dos huthis tentou tomar de assalto o palácio presidencial de Áden, mas este retornou às forças da Guarda Republicana, fiéis ao Presidente deposto em 2011, Ali Abdallah. Para obstar ao avanço dos selvagens assassinos, uma frente de combate com a Arábia Saudita à frente, iniciou operações bombardeando a torto e a eito. Várias frentes de guerra: em Sanaa, no sul do Iémen, no estreito de Bab-el-Mandab por onde passa o petróleo e o comércio marítimo é fundamental. Os combates em terra são intensos em Áden onde os guerrilheiros ocupam quase toda a cidade. Percebe-se. A Arábia Saudita tem uma vasta fronteira com o Iémen e não avançou sozinha com a sua frota aérea. Com ela estão outros países árabes da zona. Os Estados Unidos dão instruções.  

         - Continuamos a saber muito coisa sobre o co-piloto alemão que se lançou para a morte levando consigo 150 pessoas. As últimas dizem que ele estudou na Net formas de segurança de aviões e suicídio. Que importa agora! Do que se fala pouco é da companhia de aviação onde o infeliz trabalhava. Sabia ela ou não do seu estado psicológico?

         - Na Net corre uma grande discussão sobre métodos e empresas que na Suíça e fora dela podem ajudar o escritor Gabriel Matzneff a morrer. Eu tenho ali sobre a minha mesa de trabalho para ler o seu último Diário, saído o mês passado na Gallimard, onde ele conta dia-a-dia o seu calvário. O escritor que não desdenha ser chamado de maldito, está com cancro na próstata e como sempre foi adepto do suicídio heróico dos romanos e ele próprio assistiu ao de Montherlant e nos seus livros – ensaios, romances e diários – sempre fez a sua apologia, vê-se aos oitenta confrontado com a coragem de pôr fim à sua própria vida se quiser ser coerente. Eu espero que não o faça. Sócrates só há um, e o cicuta não pertence aos nossos dias.


         - A Anabela Mota Ribeiro, perguntou ao psiquiatra José Gameiro: “E que fazer quando há uma sogra que é essa mamma latina? – As sogras não são controláveis. Ninguém consegue controlar uma mãe quando ela tem o nariz empinado. São pessoas de uma certa idade que acham que fazem tudo muito bem. Tem de se viver com isso e aceitar que aquilo que a sogra diz, paciência, disse.” Nesta resposta, está preto no branco, o retrato do casamento que anula uma parte do outro e portanto um martírio.

sexta-feira, abril 03, 2015

Sexta-feira da Paixão.
Tenho assistido a algumas cerimónias religiosas da Semana Santa. A Missa da Seia do Senhor, celebrada pelo bispo de Setúbal coadjuvado pelos seus presbíteros na Sé, foi talvez o momento mais alto, que profundamente me tocou. A diocese como já aqui disse noutras alturas, faz um trabalho notável junto das populações e o resultado é a igrejas cheias como aconteceu ontem ao fim da tarde. Durante duas horas, estive mergulhado numa espécie de levitação divina, com aquelas vozes luminosas e fervorosas cantando numa missa que tanto foi de Pio V e de Vaticano II. No momento do Glória, o templo encheu-se de sons que vinham dos sinos da igreja, do altar, do coro, dos paroquianos. Toda a gente entoava aquele hino de júbilo e dentro da igreja a abarrotar parecia que existia uma só voz. No altar, entre a equipa de celebrantes o padre Graça, do alto dos seus oitenta anos de santidade, paramentado de lindas vestes bordadas a ouro. Feliz e reconciliado, saí e fui Avenida Luísa Todi fora. A noite escurecia já na Serra da Arrábida, nos passeios pouca gente, no ar tremeluzia um resto da infância feliz que foi a minha.

         - Manoel de Oliveira morreu ontem, Quinta-Feira Santa. A turba dos chamados homens da cultura e dos políticos que deles se lembram apenas para se despedirem ou aproveitar a leva chorosa que dá votos e prestígio, tecem encómios ao falecido. Um tipo do futebol, querendo ser mais papista que o papa, adiantou-se a enviá-lo já para o feio Panteão Nacional que virou uma banalidade que a todos suga. Eu não sou dos admiradores da obra do Mestre Oliveira. Mas conheci-o brevemente por duas ou três vezes nos tempos idos do SNI. Esta manhã, apresentando-me na caixa de um supermercado para pagar o Público que trazia a toda a primeira página a foto do Senhor do Norte, a rapariga disse: “Este já se foi, mas deve ter deixado bem os filhos.” Esta tendência mesquinha e invejosa, é típica do português não só da classe chamada baixa como da classe média. É, digamos, transversal ao murmúrio social. Acontece, nessas poucas vezes que com ele falei e com a mulher com quem me divertia, vê-los muito preocupados com os dinheiros que deviam chegar e nunca chegavam. Um dia encontrei-o com o cineasta Jorge Bruno do Canto de quem eu gostava muito e durante uma época acamaradarei pese embora o abismo das nossas idades. Aos dois escutei o mesmo lamento. Só que o realizador de A Canção da Terra tinha a rectaguarda fortalecida pelo Pantagruel. Manoel de Oliveira era crente e pautou a sua vida na proximidade dos Evangelhos. A sua longa vida de 106 anos foi orientada na fé. E pelo humor que não desmerecia do da sua Isabel.


         - Para acabar a necrologia. Também faleceu Silva Lopes o economista e a pessoa que eu admirava. Era um espírito livre, que dizia o que tinha a dizer sem olhar às circunstâncias nem às excelências. Disse para quem o quis ouvir que “num país onde as reformas andam pelos 400 euros, o valor máximo das mesmas devia ser de 2 mil euros”. Eu fui mais condescendente quando há anos aqui as limitei a 2500 quinhentos euros. Tudo o que por aí se ganha a mais, é escandaloso. Portugueses destes fazem imensa falta, não só pela sua competência, como pela defesa dos valores justos e da condenação da corrupção como foi o seu honroso caso. Adeus, querido amigo. Descansa em paz. A tua passagem por aqui foi uma bênção que recordaremos com saudade. Acrescentaste honra e saber à vida.    

quinta-feira, abril 02, 2015


Quinta, 2.
Passos Coelho num momento de delírio disse que Portugal era dos poucos países no mundo com melhor sistema de saúde, ignorando as mortes recentes nas urgências, os prazos para consultas e operações, as lutas dos diabéticos e outros para continuarem em vida. Disse também que o país pode vir a ser dos mais prósperos mesmo quando o desemprego é alto e o mês passado voltou a crescer, quando os ordenados e reformas são de miséria, quando todos vivem no limite da pobreza. Decididamente o primeiro-ministro endoideceu.

          - O Governo grego está em apuros para fazer face à crise que se agravou e é aproveitada ao máximo pelos velhos gongóricos que reinam nas instâncias corruptas da União. Eles tudo têm feito para que as ideias do Syriza não vinguem e torcem o pescoço ao povo para o obrigar a seguir os seus tratados de miséria e atraso social. Há, contudo, um facto que me mantém unido ao Governo de Tsipras: é que ele lutou, apresentou ideias, bateu-se contra a Alemanha, Inglaterra e França e tudo tem feito para estar na política diferentemente de Portugal que se ajoelhou e executou as ordens vindas dos iluminados de Bruxelas. Poderão objectar-me que afinal o Syriza viu-se obrigado a renegar as promessas feitas. Eu contraponho: sim, como todos os outros mentirosos. Embora o sentimento seja mais verdadeiro neles que num Hollande, num Sarkosy, num Passos Coelho, num António Costa. Nestes só há cinismo e ganância de poder, castração moral.

         - Aos poucos, arrancado a saca-rolhas, vamos conhecendo o que esteve por detrás do suicídio do co-piloto da Germanwings. O homem estava perturbado, abatido, desesperado mas, ao contrário do que diziam os patrões da companhia de avião, parece ele tinha dado conta do seu estado psicológico. Era isto que eu esperava. Ninguém ignora que a massa trabalhadora – e quanto melhor paga pior – são escravos dos accionistas das grande multinacionais que querem lucros, milhões, muitos milhões. As low cost são slots machines a facturar sem descanso.

         - O meu telemóvel finou-se, enfim, ao fim de quinze anos de companhia. Andava cheio de adesivos e, como um corpo cansado de viver, a bateria começou a falhar até que parou de vez. Espero que este que o substituiu, tenha a mesma longevidade ainda que por estes dias tenha pensado em desistir desta modernice que alcandora os tristes à realeza.

         - Súbito e desusado calor. Comecei as regas a semana passado e prossegui-as esta. Se isto assim continua, vou chegar ao Verão esgotado. 

         - A Piedade esta manhã enquanto passava a ferro: “quanto é um milhão de euros? – Porque pergunta? – Falam tanto nos milhões de Sócrates...”

quarta-feira, abril 01, 2015

Quarta, 1 de Abril.

O mundo dizia um sujeito outro dia num programa de televisão, é o mundo das relações. Com isto queria ele dizer, o mundo do diz bem de mim para teres a recompensa de eu dizer o melhor possível de ti. Enfim, o mundo da mediocridade, da gentinha contentinha da Silva. Pela minha parte, há muito que me afastei disso nunca tendo estado próximo. Prefiro a liberdade, o desentulho dos sentimentos que aprisionam, a obrigação de ser alguém projectado em situações cínicas que não fazem avançar nada antes paralisam tudo. O independente, o livre espírito, é um ser solto, que se move pelas paixões, pela verdade e por uma certa forma de pensar o mundo fora da triste condição do pateta que crê na amizade do tipo facebook. Costumo dizer: a mim chega-me um ou dois Amigos. Para morrer basta estar vivo. Bem sei que esta forma de pensar redimensiona os valores atirando-os ao precipício de uma solidão muitas insustentável, atravessada do sentimento de injustiça. Não ignoro porém, que o mundo das aparências esmaga a identidade, a pessoa, produzindo nela uma sensação que traduz uma forma de solidão assustadora que nos leva ao encontro daquilo que intimamente não somos. Prefiro gastar-me a lutar contra a solidão quando ela é indesejada, que me prender a amizades estéreis, assentes na vacuidade, na razia dos sentimentos, na vastidão das oportunidades egoístas. Não há mundo mais árido que esse das amizades passivas sem inimigos. Uma pessoa que não tem inimigos, não sabe quem é. Ou saberá, obliquamente.