terça-feira, abril 02, 2019

Terça, 2 de Abril.

Enfim as rotinas instalam-se o que é salutar ao meu viver e, sobretudo, à actividade intelectual. Acabei de deixar os meus amigos no aeroporto e voltei rápido para erguer a taça do silêncio e da beleza que me cerca. O meu vizinho está a fazer um trabalho absolutamente notável. Depois de ter tratado a terra por várias etapas e processos que duraram pelo menos dois meses com homens a trabalhar dez horas/dia, entrou por estes dias uma máquina que enterra suavemente na terra cada estaca de videira. Estas são alinhadas automaticamente, formando um campo mortuário de onde surtirá vida. Ao todo estão quatro pessoas a trabalhar com a máquina que a cada bacelo dispara um som seco. Há milhares de soldados trinca-espinhas ao longo dos não sei quantos hectares. Quando o sol está na horizontal, estes multiplicam-se dando lugar a um exército silencioso que pede ao céu um pouco de chuva. Diz-me o meu vizinho que cada esqueleto vai ter a orientá-lo no desenvolvimento um pequeno aspersor de rega. Tudo isto é fantástico, genial mesmo! Depois de uma perigosa floresta, tenho agora o repouso que mais tarde se traduzirá naquilo que Galileu dizia - “o vinho é uma mistura de luz e alegria”. Ninguém imagina a exultação que a decisão do meu vizinho em voltar a plantar vinha trouxe ao meu quotidiano. Uma catadupa de memórias, sorrisos, fins-de-tarde quentes, rumor de mulheres e homens transportando cestos, cantares madrugadores, chapéus de palha, lenços coloridos e expressões felizes, tudo isto mais a sensação de tranquilidade e segurança, de paz e encanto para o olhar, o cérebro em contemplação, o rumorejar das abelhas, o horizonte desimpedido, a casa, esta casa, plantada por assim dizer no meio da vinha com seus cachos brilhantes e suas folhas ocres no Outono, uma paisagem que voltou não só do passado aferrolhado nas reminiscências juvenis, como ao presente aberto às claras e luminosas manhãs de um novo mundo.

sábado, março 30, 2019

Sábado, 30.
De regresso instalámo-nos aqui em casa para repartirmos por estes dias ao encontro do Portugal que faz a diferença. Assim, ontem, pela manhã subimos ao Chiado, entrámos na Brasileira, passeámos pela Baixa, almoçámos no Corte Inglês e ao fim do dia entrámos na quinta para não mais sair. Suculento jantar onde não faltou o arroz doce feito pela Piedade, a grande discussão, com gargalhadas até perto da meia-noite.

         - Hoje longo passeio através da marginal que nos levou a Cascais, com paragem no CCB e Torre de Belém. À chegada à vila, grande confusão, trânsito caótico, dificuldade em estacionar o carro. Acabámos por encontrar um restaurante perto da Câmara onde comemos sardinha manhosa vinda de Marrocos. De seguida, fui dar a conhecer aos meus amigos a Casa das Histórias de Paula Rego. A artista nunca nos desilude, as seis salas do museu oferecem Paula Rego no seu melhor, quero dizer, os Anos 80: humor, loucura, sabedoria, liberdade.


          - Mas também Portugal no seu melhor. Eu estacionei o automóvel no parque próximo do museu. Quando quis sair, o sistema de pagamento estava avariado. Uma pequena multidão, entre crianças e pessoas de idade, refém dentro do parque. Um brasileiro de férias, pediu contas através do intercomunicador do aparelho. Eu estava ao lado e pude entrar na revolta. O funcionário, a dada altura, disse-lhe que mandasse um e-mail. O sujeito insistia que estava na rua e exigiu saber a que horas vinha o técnico. O invisível funcionário respondeu que não sabia e perante a insistência do turista, desliga, pura e simplesmente, o intercomunicador. Que fazer? Robert tem uma ideia: colarmo-nos ao carro que ousasse sair. Foi o que fizemos.

sexta-feira, março 29, 2019

Quinta, 28.
Grande deambulação pela cidade. Chegámos num táxi a Praça Mayor depois da manhã no Museu Rainha Sofia. Almoçámos ao sol, os olhos postos no enorme edifício quadrangular, todo decorado com personagens, que três incêndios devastaram e outros tantos arquitectos renovaram. Ela é erguida em memória de Felipe III e é hoje centro indispensável da movida madrilena, com uma actividade turística solidificada nos sucessivos restaurantes que a circundam. Julgo que é a segunda maior praça da Europa e goza por isso da reputação que séculos trouxeram até nós. Ao lado funciona o Mercado S. Miguel. Um pitoresco lugar onde os espanhóis almoçam tapas a preços exorbitantes, centro de convívio e encontros, lugar barulhento como só a Espanha possui, mas onde apesar disso apetece retardar o passo absorvidos pelo muito que nos oferece do ponto de vista alimentar, vinícola, sociológico, cultural. Por lá nos quedámos a fazer tempo para embarcarmos rumo a Lisboa.


          - O Museu Rainha Sofia está em obras de ampliação. Já estava quando o visitei da última vez. À parte a sala que expõe Guernica e é tematicamente rica com os estudos na sala anexa, tudo o resto parece-me uma amálgama onde nos perdemos, nos estafamos, nos desorientamos. Não sei se a regra dos grandes museus é correcta. Também se pensava assim dos hospitais e hoje tende-se a repensar o assunto. Não estão em causa as obras nem a sua importância, mas torná-los num sítio temático, aprazível, onde o visitante possa escolher o que lhe interessa naquele momento. Como estão propendem a ser um local de loucos perdidos à procura não se sabe de quê, desnorteados, fazendo muitos quilómetros sem sair do mesmo sítio, espécie de peregrinação cruzando corredores e divisões, para no final misturar escolas, períodos, artistas, países, etc. Todavia, foi um prazer para mim rever a obra de Picasso, ter encontrado uma maravilhosa tela de Cocteau, Jean Gris tão esquecido e abafado por Pablo Picasso, Gargalla, Miró, Dalí, Zurbaran, enfim, os impressionistas que ali reinam em glória e arte.

quarta-feira, março 27, 2019

Quarta, 27.
Visita a Atocha a central de caminhos de ferros martirizada pelos atentados, em 2004, levados a cabo pelos jhiadistas do Daesh. Hoje o interior é um jardim botânico onde apetece passar uns momentos, respirando a atmosfera dos grandes centros internacionais, tomando parte naquele movimento de gente que chega e parte, mas onde se encontram recantos para a leitura, a fruição das plantas e pássaros, esplanadas, cafés e restaurantes. Aí aligeirámos os cansaços das horas feitas no museu hoje e as acumuladas de ontem.

          - O nosso hotel confina com o célebre bairro da Chueca. É o paraíso gay, um lugar de tolerância e festa, onde todos os dias se cruzam connosco as relíquias do passado e as novidades dos tempos presentes. O dono do restaurante onde vamos jantar e tomar o pequeno-almoço, um gordo de barriga medonha e T-shirt justa, com uma imagem divertida e a frase Chueca. A atmosfera é divertida, solta, misturada de sexos e tendências sexuais. À noite, se nos afoitamos para o interior, as ruas estão pejadas de malta nova e velha num convívio geracional onde tudo parece funcionar às mil maravilhas. Os preços e bares e restaurantes, aumentam. As pessoas passam aos pares, por vezes pergunto-me como podem certos rapazes, como direi, apessoados acamaradar com outros tão feios valha-nos Deus... Mas, enfim, tudo parece funcionar sob a conduta livre do consentimento colectivo e cultural.

         - O Museu Nacional Thyssen-Bornemisza que eu não conhecia, é uma agradabilíssima surpresa. Nos seus três pisos encontramos vastas colecções de arte: de ícones primitivos ao impressionismo do séc. XIX (no segundo andar), passando pela pintura holandesa do séc. XVII aos vanguardistas dos tempos presentes (no primeiro piso), terminando numa plêiade de pintores da primeira metade do séc. XX (no rés-do-chão). É, contudo, no primeiro andar que nos perdemos, apesar de aí chegarmos já exaustos e baralhados de ideias (somos convidados a começar a visita pelo último piso). Porque todo o museu é um labirinto de corredores, salas e recantos plenos de telas, esculturas, nichos, espaços recônditos.

         À primeira impressão somos abalados por esta pergunta: como foi possível ao barão Thyssen ter adquirido uma tal quantidade e qualidade de obras. Ainda por cima, suponho, numa só geração. Vou ter que me documentar sobre o assunto quando me passar a estupefacção e o cansaço que acumulei ao percorrer o museu. Por agora vivo ainda sob a emoção do muito que vi, sobretudo no primeiro andar onde a arte e os artistas reinam na completa liberdade que a memória reteve e o tempo expandiu. Ele por si só vale o esforço de todo o edifício. Mas noutra altura falarei sobre disso.

terça-feira, março 26, 2019

Terça, 26.
Não vamos dizer que o tempo se alonga já no dorso do Verão. Aqui em Madrid faz calor, mas um calor que afaga, convida à cavaqueira, à esplanada, ao convívio debaixo das árvores, ao doce remanso das tardes quedas algures no espaço da memória atulhada dos instantes felizes. Assim, ontem, quando deixámos o Prado estirámo-nos na relva em frente e dormimos uma pequena sesta sob as ramagens sacudidas por uma leve brisa. Talvez o sono não fosse o desfiladeiro para onde atirámos o cansaço, mas o simples facto de declararmos à tarde abafada que se acoitasse nas sombras da fadiga, foi suficiente para levantarmos o moral e saudarmos as horas que no céu azul se despediam levando consigo o dia maravilhoso que nos coube viver.

         - Devido ao estado da minha amiga, deslocamo-nos em permanência de táxi. Que nem é caro, sendo mais dispendioso o metro por exemplo. Quando comparado com o valor em Lisboa, fica quase por metade. Ontem demos um salto à Real Basílica de S. Francisco o Grande, atravessando a cidade de um ponto ao outro. No burburinho da tarde, o que mais surpreende é a azáfama que parece conter os indivíduos em permanente estado de alerta. Sabemos que os espanhóis estão vivos porque neles existe um realejo que os faz falar, cantar, agitar em permanência. Daí que a cidade seja uma murmuração que acaba por nos isolar no sentimento que o silêncio é o bem precioso que não dispensamos para o nosso equilíbrio. O ruído é, todavia, o elemento vital para o espanhol, como se a amargura, a alegria, a exaltação fossem tão indispensáveis ao seu viver como o sangue que lhes corre nas veias.


         - Particamente o dia todo enfiados no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza. Antes porém, demorada visita à retrospectiva Balthus. Uma  beleza que nos trava o passo a cada sala. Somos atraídos por uma obra monumental, cuja originalidade se posso dizer, se destaca pelo ambiente que envolve cada cena a que somos convidados a participar. Balthus se fosse vivo seria marginalizado. Porque hoje impera o moralismo cínico, de conveniência, que faz um caso ser todos o casos, um pedófilo todos os pedófilos. Balthus tinha uma especial inclinação pelos corpos juvenis e pintou-os contra essa moralidade que quer impor as regas estabelecendo o princípio que o jovem ou a jovem não tem voz activa na matéria. Talvez sempre assim tenha sido. Se repararmos, por exemplo, nas estátuas masculinas com o sexo decepado quando da invasão francesa pelos invasores, percebemos onde reside e de que substância é feita a construção dos princípios moralizadores. Despega-se de cada tela um rumor sensual, uma espécie de murmúrio próprio dos amantes que, em completa liberdade, sabem provar o doce encanto do amor, a inocência de permeio como um aceno à liberdade, a uma conduta de prazer, antes de o pecado tolher os sentidos. O artista, era só não atraído pela beleza dos corpos antes dos estigmas do tempo, como pelas paisagens, os entardecer em Chassy onde viveu, e as telas retratam o encanto nostálgico dos vales sombrios, do ondeamento da vegetação varrida pela viagem do sol mergulhando nas noites profundas, nos horizontes inacessíveis.